Tuesday, July 03, 2007

CARTA ABERTA AO MEU CONFRADE FILINTO ELÍSIO CORREIA E SILVA, VERTENDO OS TEMPOS DE ANTANHO DO “MOVIMENTO PRÓ-CULTURA” E DA “SOPINHA DE ALFABETO”, ANTECEDIDA DE UMA SUCINTA NOTA DE ABERTURA E SEGUIDA DE UM PARÊNTESE SOBRE A INDEPENDÊNCIA DOS CRIADORES CULTURAIS E INTELECTUAIS , DE UMA NOTA CONCLUSIVA DE IRREPRIMÍVEL DECLARAÇÃO DE AMOR À CIDADE DA PRAIA-MARIA E DE UM RENITENTE POST-SCRIPTUM EM JEITO DE ESCLARECIMENTO SUPLEMENTAR


NOTA DE ABERTURA

A leitura, no âmbito da minha crónica semanal para a RDP-África, de um texto referente à homenagem da Câmara Municipal da Praia ao Movimento Pró-Cultura e a publicação no "asemanaonline" de um longo artigo do mesmo teor suscitaram reacções de diversa índole, negativa e positiva.
Como muitos se terão apercebido, o objectivo fundamental visado com o meu texto foi informar, aqui e agora, e com a completude possível, sobre o percurso do Movimento Pró-Cultura.
Informação que, apesar de se basear, no essencial, no que pessoalmente vivenciei e na percepção que dessa vivência ainda guardo, requer, necessariamente a listagem e a correlata interpretação de factos, datas e outros dados. Essa necessidade torna-se de uma grande premência se quisermos conseguir um mínimo de objectividade sustentada, e, ademais, tivermos em conta o contexto polémico e marcadamente controverso em que a “história” do Movimento Pró-Cultura foi contada, desta vez por mim.
Outras versões e facetas da mesma história existirão em documentos, na memória interpretativa e na visão retrospectiva dos seus inúmeros e diferentes protagonistas. Convinha que essas versões e facetas fossem também dadas a público, mesmo que seja somente com o fito de um melhor e mais sustentado conhecimento por parte de quem não esteve por dentro destes tempos fecundos ou, até, para prevenir eventuais injustiças, sobretudo por omissão, como ocorreu na recente, muito oportuna e justa homenagem prestada pela Câmara Municipal da Praia ao Movimento Pró-Cultura.
A reacção, assaz incisiva, e até, acerba e cáustica, se bem que em parte compreensível, de Filinto Elísio Correia e Silva - meu confrade e companheiro das letras desde os tempos de antanho da década de oitenta- vieram evidenciar a necessidade de revisitação dos “prodigiosos anos” de 86/87”, de nascimento da nossa geração literária, mas também de alguma aura do regime de partido único, então vigente em Cabo Verde.
Nisso residiria, na minha opinião, a justificação do pleno interesse dessas estórias, dessa “pequena história”, para a história e a historiografia da literatura e da cultura caboverdeanas.
Com o presente texto (relativamente longo, alerta-se, desde já!), elaborado em estilo de conversa franca com Filinto Elísio Correia e Silva e aberta aos demais companheiros das artes e letras e outros eventuais participantes e observadores da história dos tempos de antanho, desde que, como é óbvio, não escondidos no anonimato, almejo contribuir para a clarificação de certos factos passados e revolutos, para a definitiva dissipação de algumas dúvidas e para um mais amplo esclarecimento dos interessados na história da cultura caboverdeana e do papel que nela desempenharam alguns dos seus mais recentes e actuais protagonistas.


CARTA ABERTA
1
Num post constante do seu blog albatrozberdiano, anterior ao meu artigo “Algumas considerações sobre a homenagem da CMP ao Movimento Pró-Cultura”, mas posterior à leitura radiofónica de uma crónica mais concisa mas de teor idêntico, o poeta Filinto Correia e Silva atribuiu-me ressentimentos em relação à “Sopinha do Alfabeto”, folha da qual “não me conseguiria libertar” por razões que, ele, caberia a Freud explicar.
Nessa sequência e numa reacção aparentemente em cadeia, vários leitores pronunciaram-se, em geral, no mesmo sentido, concordante com o ponto de vista negativo do albatrozberdiano.
Obviamente que não posso estar de acordo com interpretação supra que considero enviesada e superficial, só explicável por um certo melindre e mal-entendido, nos quais se poderá ter enredado o meu confrade em consequência da minha, talvez inusitada, reacção à homenagem da Câmara Municipal da Praia ao Movimento Pró-Cultura,
Face à pouca clareza e/ou algum desconhecimento de factos e pessoas que julgo terem rodeado a escolha dos nomes contemplados para a homenagem camarária, propus-me com o meu artigo quebrar os muros da ocultação (mesmo se involuntária), bem como da eventual manipulação em relação às “coisas realmente ocorridas” e chamar a atenção para existência da revista “Sopinha do Alfabeto”. Para melhor corresponder à veracidade histórica, achei por bem inseri-la na evolução do mesmo Movimento, nas fracturas empreendidas por alguns dos seus fundadores e protagonistas iniciais bem como no quadro mais geral da agitação cultural praiense dos anos oitenta do século XX.
Nada havia a esconder!
Tanto mais que o objectivo da minha crónica e do meu artigo foi contribuir para o alargamento do leque de eventuais futuros homenageados e nunca excluir, quem quer que fosse da lista dos actuais homenageados!
Foi o que, aliás, fizera por ocasião das condecorações do trigésimo aniversário da independência de Cabo Verde. Nessa altura e apesar de eu próprio ter sido condecorado com uma medalha de mérito cultural em primeiro grau e considerar relativamente equilibrada a lista dos agraciados com a mesma medalha, considerei que, pelo mais que notório mérito da respectiva obra, alguns poetas (como José Luís Tavares), ensaístas (como João Nobre de Oliveira) e músicos (como Paulino Vieira) também mereceriam ser agraciados com a mesma medalha, indo, assim um pouco contra a corrente em relação aos que consideravam inflacionista e eleitoralista a dimensão que a atribuição de medalhas de mérito tinha atingido devido à alegada baixa bitola na avaliação da obra feita dos contemplados. Por isso, denominaram tal atribuição de “saga das medalhas”.
Relembro aos menos atentos que em alguns textos que tenho dado à estampa, nomeadamente no artigo “A poética cabo-verdiana e os caminhos da nova geração” (publicado na revista “Fragmentos” e retomado, em forma mais abreviada, mas mais desenvolvida neste aspecto específico, em “Cabo Verde- Literatura e Insularidade” (edições Karthala com coordenação de Manuel Veiga) tenho ressaltado a importância da revista “Sopinha de Alfabeto”, exactamente pelo seu experimentalismo sumamente moderno, pelos seus propósitos assumidamente inconformistas e alternativos (na verdade, mais nas artes e letras efectivamente praticadas do que na linha editorial publicitada) e pelo facto, que considero relevante, de ter revelado o poeta Valdemar Velhinho Rodrigues (mais tarde, Valentinous Velhinho) e o fotógrafo artístico João Nelson (Fernandes).
Obviamente que, nessas análises e tomadas de vista, a revista “Sopinha do Alfabeto”- tal como, aliás, a revista “Fragmentos”- é também considerada como continuadora, ainda que por caminhos próprios e livremente escolhidos, do ideário de renovação estética propugnado, desde a sua fundação, pelo Movimento Pró-Cultura. Continuadora mais na sua praxis efectiva nas letras e nas artes, que nalgum sectarismo estético-ideológico e político (supostamente alternativo) de alguns dos seus actores. Anote-se que, previamente debatido, esse ideário era conhecido de todos membros do Movimento Pró-Cultura ainda num tempo anterior às fracturas que, por um certo período, dilaceraram o mesmo Movimento. Tais fracturas terão ocorrido certamente não por o Movimento Pró-Cultura constituir um intolerável e inaceitável colete de forças para as diversas correntes estéticas modernas e renovadoras que no seu seio sempre puderam e quiseram co-existir, mas por razões outras, mais prosaicas e, para além do resto, eventualmente atinentes à experimentação e experienciação que alguns quiseram pessoalmente fazer de uma liberdade de acção artística que lhes proporcionasse o que entendiam como melhores e mais propícias condições para a expansão da sua criatividade. Quiçá sustentada em algumas subjacências políticas tidas por alternativas à situação então vigente nas ilhas, essa liberdade de acção foi todavia considerada pelos mentores da “Sopinha do Alfabeto”, depois organizados no “Grupo de Debates sobre a Arte” como incompatível com a coexistência organizativa com outras correntes estético-ideológicas no seio do relativamente multifacetado movimento cultural que colectivamente todos criámos.
Presume-se que esse desejo de liberdade de acção fosse sentido como tanto mais premente se considerarmos que, por essa altura, vivíamos num ambiente político a um tempo, exasperante e descontraidamente esquizofrénico, característico, aliás, de regimes autoritários de partido único da modalidade moderada e mitigada, então vigente em Cabo Verde.
2
Regime autoritário de partido único, com certeza!, ditadura “nacional e democrático-revolucionária”, sem dúvida alguma!, como diariamente comprovava (e era constantemente relembrado ao cidadão mais distraído e renitente) o monopólio do exercício do poder político pelo partido da independência, pela sua nomenclatura e pelas suas organizações sociais e de massas. Como ainda testemunham certos, ainda que esporádicos, acessos repressivos e a impune ostentação de poder por alguns agentes da Segurança e de outros aparelhos coercivos do Estado, como ficou patente em casos conhecidos como: a tortura sequente à repressão da histeria anti-revolucionária da contra-reforma agrária em Santo Antão; a contenção da cidadania exaltada com o escândalo de certos abusos e excessos autoritários na cidade da Praia; a intolerância policial em face da irreverência juvenil em S. Vicente e da clandestina pichagem nocturna em Assomada.
Regime autoritário, mas estranha e atipicamente mitigado, por comparação ao mais usual e corrente por esse mundo fora, incluindo na África lusófona, no que respeita a ostensivas e sistemáticas irrupções repressivas contra a liberdade de criação artística e cultural e outras mais elementares liberdades cívicas integrantes dos chamados direitos de personalidade, aliás, consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Constituição então vigente em Cabo Verde, desde Setembro de 1980.

Seria, quiçá, essa a controversa (imprevisível e, quase, incompreensível) fisionomia do regime de partido único caboverdeano, nesse ano de 1986, de declarado e procurado desanuviamento, proporcionado pelas comemorações do cinquentenário da revista “Claridade” e pela reconciliação, então em curso acelerado, com as elites claridosas e neo-claridosas. Ambiente de almejado desanuviamento, que, nesses fins dos anos oitenta, se veria a reflectir nas discussões sobre a necessidade de abertura do partido único às demandas de uma sociedade civil incipiente, mas que se mostrava cada vez mais activa e autónoma, bem como dos cidadãos cada vez mais atarefados na competição pelos então chamados bens raros e que, no plano político, viria a reflectir –se na inclusão de cidadãos independentes, e na rejeição de outros, nas listas de deputados à Assembleia Nacional Popular.
Anos de experimentações titubeantes de distensão socio-política e cultural, mas também de muita assiduidade (senão constância) dos raides dos panfletos nocturnos e das suas diurnas fotocópias, bem como de crescente insatisfação política e exasperação cívica dos quadros recém-chegados e das risilências criticamente jocosas ou desassombradamente oposicionistas nas colunas do jornal “Terra Nova”, nos planfletos clandestinos que chegavam das diásporas europeias e americanas, nas conversas dos bares, cafés e tabernas e nos vários “casacos pobres”, esquinas, e, até, nas repartições públicas da cidade, da vila e do subúrbio.
A relativa moderação repressiva do regime de partido único instalado em Cabo Verde teve efeitos de diversa e contraditória natureza.
Uns considerados positivos e, até, exemplares, por uma franja importante dos estudiosos da questão caboverdeana, porque pacificadores e preservadores da coesão social, por um lado, e, por outro lado, indutores e preservadores da estabilidade política e da paz social, imprescíndiveis como recursos estratégicos para a sobrevivência e o desenvolvimento de Cabo Verde como país independente e soberano.
Para outros analistas, a relativa moderação repressiva do regime de partido único, vigente de facto no nossos arquipélago até 19 de Fevereiro de 1990, teria produzido efeitos assaz perversos nos caboverdeanos das ilhas e diásporas. Segundo estes últimos estudiosos, dos efeitos históricos mais perversos produzidos por essa relativa moderação repressiva do regime de partido único seriam exactamente:
i) As frustrações que essa moderação ia engendrando naqueles que, críticos cautelosos mas atentos, ou aberta ou clandestinamente situados na oposição política interna, viviam oscilando entre:
a) Por um lado, a vontade de se integrar na normalidade cívica e social com que o regime monopartidário permanentemente lhes acenava e, nessa sequência, embrenhar-se no coração do sistema para, eventualmente, mudá-lo ou ajudar a mudá-lo por dentro;
b) Por outro lado, uma quase irreprimível vontade de, em coerência com os ressentimentos sentidos e meditados, se colocar nas margens políticas de um sistema que, quiçá, no íntimo, se desejasse fosse mais repressivo e mais efectivo na produção de dissidentes, presos políticos e outras vítimas e demais “heróis anti-totalitários”-para além da muito tolerada, identificada e, quiçá, manipulada, dissidência ideológica e cívico-política dos inúmeros “manda-bocas”-, e , assim, mais capaz de suscitar resistências e de tornar candente a urgência de o combater.
ii) As construções fantasmáticas a que essa moderação repressiva deu lugar.
Tais construções parecem caracterizar-se pelo seu carácter ambivalente e multifacético.
Por um lado, essas construções, porque eminentemente inócuas ou auto-legitimadoras de alguma inércia política e cultural, podiam tornar-se inibidoras e desmobilizadoras no seu prático desgaste de eventuais dissidentes e opositores políticos e auto-marginalizantes no seu alcance ideológico e simbólico sobre a praxis de escritores, artistas e de outros cultores natos da liberdade. Cultores natos da liberdade na medida em que, como é sabido, a liberdade constitui condição natural e intrínseca do modo de eles criarem, se exprimirem e socialmente se (re)produzirem.
Por outro lado, as construções fantasmáticas supra-referenciadas podiam tornar-se sumamente produtivas quanto no que diz respeito ao estado de alerta permanente que suscitavam no criador cultural e ao vírus crítico/oposicionista que inoculavam no intelectual independente.
Estado de alerta e vírus esses propícios à preservação da independência de espírito do intelectual ou do aprendiz de intelectual bem como da autonomia dos seus processos de criação e, assim, à premência psicológica e cívica em relação à necessidade da criação de uma obra literária e artística, marcada pela autenticidade do fingimento estético e pelo teor crítico do olhar.

3
Nesse quadro social e nesse contexto político, não podia o Movimento Pró-Cultura constituir, de modo nenhum, empecilho para experiências, sempre fecundas, de exercício da criatividade e da liberdade de expressão do pensamento nas esferas artística e literária, sob pena de, a não ser assim, atentar contra a sua própria e genética identidade e o seu programa baptismal de incentivo e prática experimentação da liberdade de criação e do pluralismo estético-ideológico.
Tanto mais que aqueles que integraram o Movimento Pró-Cultura inicial, foram-no exactamente porque dispunham quer de projectos e de iniciativas da mais diversa índole artística, quer de uma obra (ainda emergente e, por vezes, incipiente) que precisava ser testada pela opinião de um público mais vasto.
Para mais, a esmagadora maioria dos membros e dos colaboradores do Movimento Pró-Cultura pretenderam experimentar e experienciar por si próprios a liberdade de criação, que efectivamente exercitaram, mesmo quando alguns deles estavam profissional ou tecnicamente vinculados a organismos e instituições claramente conotados com o regime de partido único ou, senão, integrados nos aparelhos técnico-administrativos e ideológicos do sistema autoritário vigente, que, eventualmente, alguns apoiavam, mas que outros contestavam, de forma velada ou aberta.
O que, na altura, a mim pessoalmente me preocupava, era encontrar o modo e a via mais adequados de contribuir para a preservação e a optimização do entusiástico élan logrado com as actividades iniciais do Pró-Cultura e potenciar ao máximo a coesão criativa entre os confrades e companheiros para a irreversível afirmação da nossa geração e de cada um dos seus actores e integrantes.
Afirmação essa a efectivar-se primacialmente no campo da criação literária e artística e que, segundo achava, se devia firmar contra disputas estéreis e a intriguice de quem, “sagazmente” e de fora, se propôs como objectivo essencial e imediato desagregar o movimento emergente e matar no ovo esse sinal de inconformismo cívico e de uma nova afirmação cultural na cidade da Praia, na ilha de Santiago e no arquipélago caboverdeano, eventualmente concorrente de outras reiteradas vocações naturais, capitalidades culturais e quejandos.
Às fracturas acima referenciadas preferi denominar (de forma descomplexada e desassombrada, mas jamais com intenções ofensivas ou infamantes) como dissidência, porque as entendi como ocorridas no interior de um movimento pré-existente, estruturado mais por ténues e flexíveis linhas orgânicas e por uma geral linha de inconformista e fragmentarista (pós)modernidade do que por dogmas estético-ideológicos, já que o mesmo movimento, onde todos germinávamos, era geneticamente plural e aberto à diversidade de vertentes culturais e de correntes estéticas e artísticas.
Para mais dispunha já esse movimento cultural tanto de projectos suficientemente delineados, como o era, por exemplo, o projecto de revista cultural, como também de uma praxis de pluralismo já testada e evidenciada como plenamente produtiva.
Era este o estado das coisas no movimento, cujos membros entraram em conflito interno, aberto ou dissimulado, e, por isso, se espartilhou em facções várias, daí resultando o seu abandono por parte de alguns dos seus integrantes que preferiram enveredar por outras iniciativas específicas, consideradas alternativas às do movimento originário e delas absolutamente independentes.
Movimento originário que, além do mais, foi combatido de forma mais ou menos aberta e contundente, ainda que pelo tempo relativamente curto que duraram as fracturas e que precedeu a paulatina cicatrização das feridas.
Nada que possa suscitar especial estranheza.
Nada que não virá a ocorrer em futuras movimentações culturais e que não tenha antes ocorrido na história de grupos, correntes e movimentos culturais, inclusive nas gerações caboverdeanas antecedentes (como no caso das sucessivas fracturas no seio dos “Bulimundo” ou no episódio da célebre dissidência de Jaime de Figueiredo em relação ao grupo “Claridade”, de que foi co-fundador e de cuja ideologia teluricista também comungava, ainda que na perspectiva certamente mais moderna do projecto- matriz do grupo “Atlanta”).
Nada que possa suscitar algo mais que não sejam as compreensíveis, (mais ou menos) incendiárias, mas temporárias, paixões dos directamente implicados nesses conflitos, como eventualmente terei deixado transparecer no meu depoimento constante da entrevista colectiva concedida a Michel Laban para o livro “Cabo Verde-Encontro com Escritores” (volume II).
Conflitos, em geral, dialecticamente (permita-se-me o palavrão) produtivos, porque indutores de suplementares mais-valias estéticas - para além de mais estórias- aos grupos, indivíduos e gerações neles implicados e à história das letras e das artes, incluindo das letras e artes da historiografia cultural das nossas ilhas e diásporas, ainda muito incipiente na abordagem de certos assuntos e matérias, ainda considerados tabu.

4
Em e-mail e em texto publicado no seu blog (www.albatrozberdiano.blogspot.com), o poeta Filinto Elísio Correia e Silva discordou do meu ponto de vista quanto à caracterização das passadas fracturas, porque, segundo pensa e escreve, não existiria qualquer referência ou laço de matricialidade entre o Movimento Pró-Cultura e a revista “Sopinha do Alfabeto”. Tanto mais que, segundo diz e deixa entender aquele que foi um dos coordenadores do Grupo de Debates sobre a Arte, editor do segundo e último número da antiga folha praiense, esta última teria sobretudo pretendido consubstanciar uma “pedrada no charco de burocratas & obtusos, o lodoso dos camaradas dos ladas&balalaikas, tempo magro de ética e estética” e- como consta de um primeiro e-mail que me dirigiu- libertar-se da “saia justa” que supostamente seria, na altura, o Movimento Pró-Cultura.
Tudo bem e com o devido respeito e admiração, que são muitos e sinceros, pela irreverente e coloquial beleza das palavras do poeta, muito presentes, aliás, no blog albatrozberdiano e nos três livros de poesia que já deu à estampa.
Salvo contudo no que respeita ao que, sinceramente, considero como falaciosa qualificação do Movimento Pró-Cultura, mas auto-congratulatória caracterização, diga-se a posteriori, do “programa estético-ideológico” e do real impacto socio-político e cultural da “Sopinha de Alfabeto”.
Tanto mais que estavam também explícitos no ideário do movimento cultural que todos fundamos tornar mais inequivocamente perceptíveis e socialmente visíveis o pluralismo estético-ideológico e a prática efectiva da liberdade de criação intelectual, artística e cultural.
Prática efectiva da liberdade de criação porque ampla e não restringível nem pela sua funcionalização político-ideológica nem tão-pouco pela sua conformação com a interpretação restritiva, então predominante no entendimento de certos círculos político-partidários vigentes, do conceito de “progresso social”, consagrado como limite à mesma liberdade de criação na Constituição de 1980.
É esse o modo próprio e autónomo pelo qual o Movimento Pró-Cultura colectivamente optou para, com as verve, criatividade e irreverência intelectuais, literárias, artísticas e culturais dos seus membros e colaboradores, a sua diversidade criativa, a sua independência de espírito e de acção e a força proveniente da sua afirmação individual e geracional, contribuir para a renovação estética e temática então em curso nas ilhas e diásporas caboverdeanas.
Renovação estética e temática de que já eram protagonistas maiores, dentro como fora de Cabo Verde (em sentido literal e figurado): literatos, como João Vário, Arménio Vieira, Oswaldo Osório, Jorge Carlos Fonseca, Mário Fonseca, T.T. Tiofe, Corsino Fortes, G. T. Didial, Emanuel Braga Tavares, e, no plano do aprofundamento neo-claridoso de certas temáticas, Henrique Teixeira de Sousa; artistas plásticos, como os pioneiros fundadores do Centro Nacional de Artesanato; ou actores musicais, como os conjuntos musicais “Os Tubarões”, “Bulimundo” ou “Finason” e compositores e intérpretes como Manuel de Novas, Norberto Tavares, Renato Cardoso, Alberto Martins (dito Katxás), Vasco Martins e tantos outros que, por caminhos solitários ou colectivos, então emergiam, ou se evidenciavam no mundo plural dos festivais de música. De entre esses festivais, cabe destacar o “Todo o Mundo Canta”, reconhecidamente de grande importância na revelação de novos talentos, mesmo se alegadamente contaminada, na opinião de uns tantos críticos, pelo dirigismo político-cultural da JAAC-CV, e ainda o “Festival da Baía das Gatas”, de nítida imbricação extra-institucional e alternativa.
Relevante era também a nova atenção pública sobre a a problemática do crioulo, suscitada pelas mediáticas polémicas de 1986 e respeitantes à viabilidade da língua materna caboverdeana como língua literária, ao seu estatuto na sociedade caboverdiana e à questão da sua escrita, depois, de em 1979, ter sido adoptado o chamado “Alfabeto do Mindelo”, de base fonético-fonológica e dos célebres “chapéus”. Anote-se que é por essa altura que a obra de recolha das tradições orais empreendida por Tomé Varela da Silva começou a repercutir-se na celebrização da finadera Násia Gómi e na exumação das profetisas Bibinha Kabral e Nha Gida Mendi, das estórias à boca da noite, dos provérbios e adivinhas, integrada numa mais vasta valorização da língua caboverdeana. Valorização que conheceu os seus pontos mais altos com a publicação de Diskrison Strutural di Língua Kabuverdianu, de Manuel Veiga, o primeiro estudo científico sobre a língua caboverdeana, escrito também em língua caboverdeana, e, há precisamente vinte anos (em 1987), de Odju d' Águ, o primeiro romance em crioulo caboverdeano, e da colectânea de contos Natal y Kontus, de Tomé Varela da Silva.
Valorização a que não ficaram indiferentes nem as mais importantes revistas até então publicadas no período pós-independência, como as revistas Raízes e Ponto e Vírgula, nem sequer as volantes Folhas Verdes, a mimeografada Podogó e os muitos jogos florais que, nessa altura, pululavam nas escolas e eventos comemorativos. Valorização a que também não ficou alheia a revista Fragmentos, a qual deu à estampa importantes textos dramatúrgicos, poéticos e ensaísticos de Ano Nobo, Kaká Barbosa, Danny Spínola, Xan, T. V. da Silva, entre outros.
Relembre-se ainda que é nos Jogos Florais 12 de Setembro de 1976 (de que resultou o livro homónimo, publicado há quarenta anos pelo Instituto Cabo-Verdiano do Livro, então dirigido por Manuel Duarte) que se patenteia de forma firme o nascente pluralismo estético-ideológico caboverdeano e obtêm plena consagração a poesia iconoclasta do Arménio Vieira de “A Noite e a Lira” e a poesia surrealista, ainda fortemente construtivista, de Jorge Carlos Fonseca e o esfusiante e muito imagético cantalutismo de Oswaldo Osório.
Tais circunstancialismos eram altamente cativantes para os novos criadores e intelectuais que então informalmente despontavam na urbe praiense. Recrutados tanto entre os “jovens quadros”- recém-chegados dos estudos universitários nos mais díspares países a que as bolsas de estudo os conduziram-, como também entre os que ficaram- veteranos já no funcionalismo ou, contemporâneos dos estudos liceais, precocemente enredados na responsabilidade pelos filhos e pela família, e outros curtidos na terra e nas expectativas, por vezes ressentidas, de um dia também irem conhecer o mundo-, esses novos criadores marcavam com a sua diversificada origem insular e nível de formação académica o rosto alegre e festivo da Praia de então.
Era a Praça 12 de Setembro (a Praça Grande do Plateau) a melhor e mais visível vitrina da Praia intelectualmente curiosa, vistosa e agitada desses luminosos e irónicos anos oitenta, da sua ostentação e da sua descontracção, bem como da conjecturação de imaginárias e reais conjuras que se iam engendrando na conjuntura de então, com o futebol e os novos tribalismos (tão antigamente congénitos e típicos!) como pretexto, a poesia, as tocatinas e os bailes particulares como lemas, o chapéu de “cuba” (não o de “paja”) e “Ciku Kan” como motivos de riso, reflexão identitária e pretexto para o pedido de convocação de um novo colóquio linguístico (agora não no Mindelo, mas no bairro praiense de Tira Xapéu), a parecença dos rituais das igrejas, dominantes na religião e na política, como permanente momento de reflexão e de indagação sobre o futuro destino das ilhas....
Tudo depois, jantados ou não jantados, desembocando nos bares-restaurantes que então faziam a sua aparição como lugares de culto e tertúlia, como “O Poeta” e “Flor de Lys”, e vinham juntar-se aos clássicos “Cachito” e “Avis”, no plateau, e ao diurno lugar de encontro de intelectuais críticos do regime ou de simples técnicos da função pública que era o café “Vulcão”, também situado no plateau.
Tudo sob o olhar jocoso dos que se quedavam na esquina de “Casaco Pobre” e se enterneciam com as suas farpas e conversas politicamente incorrectas e merecedoras do olhar atento e severo dos que tinham por função desvelar os propadores de boatos e de rumores e velar pelas Instituições da República, tão escorregadias quanto ao saber o que eram exactamente, entaladas que estavam entre, por um lado, o Estado e o Partido e, por outro lado, a pragmática esquizofrenia do regime da democracia nacional revolucionária.
Tempos, pois, de muitos entusiasmos e expectativas, latentes insatisfações e não menores dilemas políticos e existenciais...
Daí, o propósito pró-cultural de participação na agitação das águas. Essa agitação cultural de águas era convictamente considerada como socio-politicamente produtiva -no sentido de portadora de potencialidades de mudança para os tempos imediatos ou a mais longo prazo-, porque imbuída de espírito crítico e alimentada pelo explícito potencial de insubmissão e de subversao induzidas pela permanente pugna- no seio da sociedade civil e dos homens e mulheres de cultura-a favor do pluralismo estético-ideológico.
Pugna pelo pluralismo estético-ideológico que era, assim e por este modo, tida como importante, senão como principal, força motriz da renovação nas letras e artes caboverdeanas, porque também dirigida, aberta ou subliminarmente, contra aqueles grandes e pequenos dignitários, contra aqueles grandes e pequenos poderes que, fátuos e fastidiosos, se compraziam acritica e tão-somente com a unicidade de uma literatura, predominantemente realista e panfletária, de ufana exaltação da chamada saga da reconstrução nacional, anestesiados que estavam pelo pestilento perfume que se destilava das águas estagnadas que, por vezes, pantanosas, também fediam nas nossas urbes.
Como explicam os factos “realmente acontecidos” - mais do que e para além de Freud-, se não há “referência e matricialidade” entre o Movimento Pró-Cultura e a “Sopinha de Alfabeto”, também não há ruptura quanto a esse ponto concreto, senão no que respeita à diferente percepção da necessidade da plural convivialidade com outros criadores das letras e das artes caboverdeanas.
Necessidade considerada inadiável porque, em busca da afirmação pessoal e geracional, também eram eles fautores modernos e relevantes de renovação estética, ainda que caçadores de outras heranças estético-ideológicas. Caçadores outros mas também portadores de armas fantásticas, ainda que, à primeira vista, menos fracturantes na provocatória ostentação das essências e das aparências, na irreverência da expressão pública da juvenil e legítima rebeldia das convicções a favor da liberdade de expressão cultural e do querer “ser di si manera” (como celebrizado na interpretação do rei do funaná, Zeca di Nha Reinalda) e, assim, de todos os pluralismos, incluindo, obviamente, o político.
Tanto assim foi que, com excepção de João Nelson, entretanto emigrado nos E.U.A., as letras e as artes praticadas pelos colaboradores da “Sopinha do Alfabeto” viriam a integrar a diversidade das artes e das letras divulgadas pela revista “Fragmentos” e pela colectânea “Mirabilis-de Veias ao Sol”, depois de algumas delas, nomeadamente as de Filinto Elísio Correia e Silva (ainda assinando F.S.), Eurico Barros e Mito (incluindo a sua faceta de caricaturista não permeável a censuras), terem sido reveladas no âmbito da participação do Movimento Pró-Cultura no “Voz di Letra” - suplemento, diga-se, assaz livre do oficioso “Voz di Povo”. A integração da diversidade de escritas alarga-se , aliás, a colaboradores de publicações extintas, como a revista Raízes, em processo de fenecimento, como as revistas Ponto & Vírgula e Mudjer, ou surgidas por essa altura, como a revista Seiva, da JAAC-CV, a revista Dja d' Sal, da Câmara Municipal, e a folha liceal Aurora, de modesta revelação dos poetas José Luís Tavares e Tales de Santana, para além dos jornais adversários Tribuna e Terra Nova.
Segundo posteriormente me disse em conversa de clarificação de ideias e de factos, que, depois, se estendeu, em amena cavaqueira, pela Feira do Livro de Lisboa, onde pudemos trocar os nossos livros disponíveis (o seu “Das Frutas Serenadas” -de muito conseguimento estético-literário que eleva para um mais alto patamar a obra do meu companheiro e interlocutor- e o meu “Assomada Nocturna (poema de Nzé di Sant’ y Águ)”), considera Filinto que a sua participação na “Sopinha do Alfabeto” não implicou necessariamente a sua definitiva desvinculação do Movimento Pró-Cultura e dos seus projectos.
Num post do albatrozberdiano, sequente a essa pacificadora conversa lisboeta, diz o meu confrade Filinto Elísio que me reconhece “razão de fundo” nas questões abordadas no meu texto dado à estampa no "asemanaonline" (“Considerações a propósito da Homenagem da CMP da Praia ao Movimento Pró-Cultura”), referindo-se aos muitos valores desse movimento e, assim, especificando, ainda que de forma indirecta, a candente questão da omissão dos nomes desse valores.
Apraz-me registar o ponto de vista do Filinto Elísio (na minha opinião, mais concordante com o real historial dos factos), porque, a um tempo, ratificador do que foi oralmente conversado e de parcial retractação em relação ao muito de acerbo que foi escrito no post anterior, em reacção que se presume a quente e sentida à minha crónica radiofónica, que, segundo suponho, não foi directa e pessoalmente ouvida pelo Filinto.
O ponto de vista, apaziguado e apaziguador, do meu confrade apraz-me tanto mais, na medida em que, apesar das divergências passadas e das distâncias geográficas que, por uns tempos nos separaram e vêm separando, não deixámos, nos tempos anteriores e posteriores às fracturas de 1986/1987, de ter inúmeros pomos de concórdia e espaços de convergência, de participar em projectos comuns ou coordenados por um ou por outro de nós (como nos casos da revista “Fragmentos”, da colectânea “Mirabilis”, do livro colectivo “Cabo Verde-Trinta anos de Cultura”, etc), que, como estou em crer, foram sempre marcados por uma grande vontade de produtividade intelectual, estética e cultural.
Nesta óptica, só posso concordar que pode não ter havido desvinculação definitiva do Movimento Pró-Cultura por parte do Filinto e de outros membros fundadores do mesmo Movimento, que, num dado momento, preferiram experimentar outros caminhos e enveredar por outros projectos. Na verdade, nos tempos posteriores às fracturas de 1986/1987, mesmo residindo fora da ilha de Santiago e, depois, de Cabo Verde, tanto o Filinto Elísio como também o Mito foram colaboradores assíduos dos projectos do Movimento Pró-Cultura.
Se considerarmos que um movimento cultural existe e se afirma mais pela efectiva praxis cultural que os dinamizadores das suas iniciativas logram engendrar e potenciar nos seus colaboradores (afinal, porque criadores, os verdadeiros actores das movimentações culturais) do que pela organicidade de pertenças (por vezes, meramente formais) aos corpos dos grupos promotores dessas iniciativas, cremos ser sustentável a argumentação do Filinto Elísio e o seu entendimento, amplo, do que foi o movimento pró-cultura dos anos oitenta e noventa do século passado.
Outros projectos comuns, os companheiros de sempre nas artes e nas letras, antigos e novos desafios (“ambos sabemos da essência e da bandeira que nos movem”, escreve o blogger) parecem, pois, apostar seriamente na continuidade do nosso companheirismo literário, artístico e cívico.
Apraz-me registar várias atitudes que atestam, desde há muito, a reconciliação, primacialmente no produtivo campo das artes e das letras, entre os antigos adversários do Movimento Pró-Cultura e da “Sopinha de Alfabeto”.
Apesar de tudo.

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Apesar de tudo pois que (impelem-me a sinceridade e a necessidade de público esclarecimento a confessá-lo) que estava por demais agastado com o ponto de vista anteriormente expendido pelo Albatrozberdiano e, de algum modo, surpreendido com o conteúdo do e-mail o Filinto me dirigiu, na sequência do nosso primeiro encontro na Associação Cabo-Verdiana de Lisboa, mesmo se, de propósito, não quis reflectir este estado de espírito de modo formal e de imediato no artigo que, logo a seguir, fiz publicar no "asemanaonline".
Na verdade, constatara o tom assumidamente rebelde e irreverente do post, na recomposição de uma visão das coisas, que era, aliás, partilhada por muitos de nós, designadamente em muitos aspectos respeitantes às nossas atitudes e convicções em face de alguns “sagazes” do regime autoritário de partido único e do estado das coisas, vigente nos anos oitenta.
Mas também constatara o tom cáustico e irónico e, de alguma forma, hostil, quando, no mesmo post, se intenta a ressurreição, para mim absolutamente extemporânea, de algumas das antigas fantasmagorias que muito contribuíram para o envenenamento das relações entre alguns participantes dos encontros inaugurais do Movimento Pró-Cultura, depois colaboradores do “Voz di Letra” e futuros fundadores das revistas “Sopinha do Alfabeto” e “Fragmentos”.
O meu agastamento era tanto maior na medida em que no encontro, tido na Associação Cabo-Verdiana de Lisboa, com um Filinto Elísio então em trânsito para as festividades caboverdeanas de Paris, e sabendo, de fonte limpa e fidedigna-porque altamente colocada na Câmara Municipal da Praia- do seu papel na indicação dos nomes dos contemplados para a homenagem da edilidade praiense ao Movimento Pró-Cultura, tive o cuidado e a lealdade de lhe comunicar algumas das minhas apreensões quanto ao âmbito dessa homenagem.
Apreensões no que respeita à omissão dos nomes de certas pessoas (como, por exemplo, Djélis (já falecido), Kaká Barboza, Fernando Monteiro, Lu di Pala, entre muitos outros). Apreensões ainda relativas à confusão e à rejeição que podiam legitimamente suscitar a exclusiva (e exclusivista) menção do Movimento Pró-Cultura (mesmo se entendido no sentido amplo de movimento ou, mais controversamente, de geração cultural) e o correlativo esquecimento de outras iniciativas culturais relevantes (como, entre outras, as revistas e folhas “Sopinha do Alfabeto”, “Pré-Textos”, “Artiletra” e “Xatiadu Si”, os vários suplementos culturais dos jornais publicados na Praia, a Spleen-Edições, o grupo “Simentera”, etc ) e da obra individual de vários autores e intérpretes, ligados ou não no passado ao Movimento Pró-Cultura.
Infelizmente, foi o que veio, efectivamente, a ocorrer com a maior parte dos presentes na cidade da Praia, de entre os contemplados (designadamente Daniel Spencer, Eurico Barros, Mito (Fernando Hamilton Barbosa Elias), José Vicente Lopes, Mário Lúcio Sousa, José Vicente Lopes, António Leão Correia e Silva, António Oliveira, Filinto Elísio Correia e Silva e eu próprio). Alguns desses contemplados alegaram não se reverem como membros do Movimento Pró-Cultura ou como co-fundadores e comparticipantes de gerações culturais homónimas. Outros ainda não concordaram com a alegada falta de dignidade como o convite camarário lhes teria sido dirigido. Outros, pura e simplesmente, nem sequer reagiram ao mesmo convite.
Posso entender o melindre que as minhas preocupações e a referência, naquelas circunstâncias, à “Sopinha de Alfabeto” possam ter provocado no meu confrade, companheiro e amigo assumido, e, por isso, congratulo-me com o facto de terem sido publicamente dissipados certos mal-entendidos.
Mesmo se, muito sinceramente, continuo a pensar que nunca houve lugar nas conversas tidas com o Filinto Silva a que eu, deliberada ou inadvertidamente, tivesse provocado “mal-entendidos” a serem, depois, “ultrapassados”. Tanto assim foi que, tendo tomado conhecimento por pessoas próximas da homenagem camarária, tinha expressamente comunicado à directora de cultura da edilidasde praiense as minhas preocupações com as omissões acima referenciadas, bem assim as minhas dúvidas acerca de algumas coisas que me pareciam menos claras e correlacionadas com a mesma homenagem camarária. A mesma entidade pudera, gentilmente, esclarecer-me sobre algumas delas, sobre a boa fé da Câmara Municipal (aliás, nunca posta em causa) e o que ela pensava ser a génese das omissões.
Mais uma vez, reitero o que vem escrito (ou deixei implícito) no meu texto “Considerações a propósito da homenagem da CMP ao Movimento Pró-Cultura”: são a profunda consideração por todas as iniciativas culturais ocorridas nos anos oitenta e seguintes na cidade da Praia, a amizade que nutro pelas pessoas que as incorporaram e protagonizaram e o sincero respeito pelo seu trabalho e pela sua dignidade que me levaram a discordar da forma como algumas dessas pessoas (não) foram recenseadas e convidadas para a mesma homenagem camarária.
Suponho que, na sequência dos notórios erros de casting e de qualificação mencionados no meu texto “Considerações a propósito da homenagem da Câmara Municipal da Praia ao Movimento Pró-Cultura”, alguns dos convidados para a mesma homenagem terão pressentido o incómodo, o mal-estar que a sua comparência poderia fazer significar, muito devido à circunstância de terem sido convidados para estar, não certamente no lugar e no momento errados, mas no sítio certo, mas numa posição errada ou, pelo menos, dúbia. Foi, por exemplo, o caso confesso de José Vicente Lopes, que, embora colaborador assíduo da revista “Fragmentos” (como também da revista “Ponto e Vírgula), não se identifica como integrante do Movimento Pró-Cultura ou, ainda menos, de uma geração literária homónima. Terá sido ainda, e com maior acuidade, o caso de António Leão Correia e Silva, que, cientista social e historiador de muito e reconhecido mérito e, por isso mesmo, credor de muita estima, respeito e admiração (inclusive dos meus, como tenho muitas vezes publicamente expressado), nunca participou em qualquer iniciativa ou projecto do Movimento Pró-Cultura, preferindo, compreensivelmente, priorizar a colaboração em revistas de especialidade que melhor respondessem às suas razões e preocupações académicas e a específicas exigências de divulgação dos trabalhos científicos que ia elaborando.
Eles que, como outros criadores e intelectuais caboverdeanos das novas vagas, seus companheiros ou contemporâneos, reconhecidamente valem não só-e não mais- pela sua participação em grupos, movimentos, equipas científicas e outras iniciativas relevantes, mas também e sobretudo por si próprios e pela obra de pessoalíssima lavra que vêm produtivamente construindo, edificando-se, nítidos, como cultores modernos das artes, das letras e das ciências sociais caboverdeanas, e, com eles, também à nossa geração e ao prestígio dos grupos, movimentos, correntes estéticas e equipas científicas e de trabalho em que participaram, contribuindo para torná-los incontornáveis na história e na historiografia da cultura das ilhas e das diásporas caboverdeanas.
O caso de um António de Oliveira, absolutamente desconhecido como membro ou colaborador do Movimento Pró-Cultura e, ainda menos, como autor de obras literárias ou artísticas, terá constituído o mais flagrante erro de casting e de qualificação. Terá havido, neste caso, confusão com Cândido de Oliveira, poeta de muitos e inéditos recursos, actualmente emigrado nos EUA?
Por isso mesmo é que, por vezes, preferimos ser primacial e nitidamente chamados e nomeados na completude baptismal e biográfica dos nossos nomes.

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Devo, enfim, acrescentar que certas alusões desse post foram entendidas e interpretadas por certas pesoas como insinuações estigmatizantes e ultrajantes do meu carácter e da minha integridade moral de cultor das letras e cidadão caboverdeano.
Obviamente que, “poeta, ensaísta e assumidamente confrade”, considero que permaneço “redondo e recorrente” sim, mas nas minhas convicções mais profundas e nalgumas interpretações que continuo a fazer dos sucessos e insucessos dos anos oitenta do século XX.
Tal como o poeta autêntico que o Filinto Elísio reconhecidamente é, também eu “não escreveria para prémios e medalhas”. Cidadão íntegro que me considero, nem sequer faria “corredores para passaportes diplomáticos e outros apliques” bem como para a ilegítima obtenção de outras vantagens pessoais a conceder pelo poder político-cultural, eventualmente a troco de alguma forma de serventia intelectual ou outra maneira de melhor ganhar a vida como escriba de corte.
Embora não considere desajustada e descabida a atribuição, sustentada na lei, de passaportes diplomáticos e de outros documentos àqueles intelectuais e criadores que desses documentos precisem para ultrapassar certos constrangimentos relacionados com as restrições à livre circulação das pessoas entre as ilhas, as diásporas e os estrangeiros, em geral para melhor divulgarem a cultura caboverdeana. Como é do conhecimento público, tais documentos têm sido atribuídos, com ganhos para a cultura caboverdeana, a muitos e conhecidos escritores e artistas, nossos conterrâneos.
Embora- e para além do seu valor eminentemente prático para os fins políticos de quem os concede-, também reconheça os prémios e outros galardões como formas legítimas e adequadas de reconhecimento público do papel social e do labor do poeta, do escritor, do artista e, em geral, do criador cultural, bem como do mérito da obra que desse labor tenha resultado.
Embora reconheça o papel dos galardões, das homenagens e de outras honrarias na satisfação da necessidade de reconhecimento a que muitos criadores se sentem com direito, quer pelo único mérito da sua obra, quer também para a sua muito compreensível satisfação pessoal e, até, exaltação ególatra.
Embora não minimize os prémios, quando também considerados na sua faceta de verdadeiras bolsas de criação, e o seu contributo quer para a superação do preconceito amplamente difundido segundo o qual os tempos do labor artístico seriam tempos de “boa vida” porque alegadamente de ócio de preguiçosos compulsivos, quer ainda para o provimento de eventuais necessidades materiais da criatura, do ser humano e do cidadão que, condicionados pelas precisões da carne e do pão de cada dia, pela necessidade de, em suma, “ganhar a vida”, se perfilam por trás do poeta e sustentam o seu tempo disponível tanto para a criação como para a sua “marginal circularidade”. Precisões e necessidades cuja satisfação não pode ser negligenciada, quando se tem especialmente em conta aqueles poetas e escritores, única e tão somente apostados na criativa reivenção do mundo e, eventualmente, embrenhados na subversiva recriação da agreste matéria mundo que, no dizer de José Luís Tavares, é dada ao poeta como matéria informe que somente a ele compete lapidar.
Se, como sacralizou o Cristo, nem só do pão vive o ser humano, essa criatura por excelência- que todavia se almeja se faça outrossim criador-, também nem só de espírito e do ar dos tempos vive o tapoé, como comprovam vários exemplos da história e diversos casos recentes. Casos recentes, nossos conhecidos por tocarem poetas e escritores nossos, grandes mas não imunes à sua humana condição de meros seres, enredados na implacável complexidade da luta pela sobrevivência no quotidiano da vida em sociedade.
Felizmente (infelizmente para alguns), não me pareço e não me confundo com alguns dos “titãs” das nossas praças e esplanadas, meus conterrâneos e, por vezes, contemporâneos.
Esses, sim, esses mesmos que, infelizmente e demasiadas vezes, se habituaram a fazer fretes ao poder (a qualquer poder) e aos seus vários e sucessivos detentores e postulantes políticos, sociais e económicos, ao mesmo tempo que, para os mais incautos, se fingem de poetas malditos, escribas engajados com os desvalidos da sorte e da fortuna e, mais recentemente, com os muito convenientes marginais da globalização.
Esses, sim, esses mesmos que preferem perfilar-se como intelectuais, cronistas ou jornalistas independentes, alegadamente postados contra o poder, que todavia caninamente servem, manhosamente cortejam e/ou ávida e intimamente cobiçam.
Esses, esses mesmos que se postam como vociferantes escritores marginais, sempre avessos às prebendas de que, contudo, quotidiana e sorrateiramente, sempre escorregadiamente se beneficiam.
Já é sabido: o que se cultiva não é a independência de espírito, de critério e de conduta, mas a permanente e manhosa disponibilidade para servir a quem, momentaneamente que seja, esteja no (co) mando político, económico-social ou cultural.
Sem prejuízo todavia da produtividade literária que, reconhecemo-lo sem qualquer reserva, emerge dessa (in)voluntária duplicidade, dessa encenada esquizofrenia que, amiúde, perpassam o cidadão, armadilhado na luta quotidiana pelo seu “pedaço de lugar ao sol” e pelo quinhão das benesses da vida quando o mesmo cidadão, remordido ou comprazido, se embrenha-ou finge embrenhar-se- no acto de criação artística e se transfigura (de forma autêntica ou simulada) no poeta ou no intelectual que deveras é, se considera ou se é suposto ser, ou por que, inadvertidamente, é tido.
Também eu subscrevo a admiração pela condição libertária do criador e reconheço no “canto do poeta” “o espírito do gato” que, “lá no alto”, “não recebe nem atende ordens de ninguém”.
Esse poeta a quem tanto repugna “a voz melíflua dos Petronius” que, em público aplaudem e despudoradamente cortejam a lira dos Neros e de outros eventuais, quiçá involuntários, incendiários da palavra poética, para, em privado, melhor se rirem dessa fraca, quiçá auto-convencida, errada e menoríssima, mas humana e honesta lira, em regra marcada pelo cantalutismo e pelo choralutismo panfletários ou pelo barroco (para não dizer bacoco) espanto ante o indecifrável mistério da palavra.
Esse poeta que, dotado da rectidão de carácter dos homens maiúsculos de Mário Fonseca, porque verticais, é todavia portador privilegiado de dois dons: o dom do fingimento estético que subjaz a toda a criação autêntica e o dom do exemplo da palavra plena e livre que crê poder inocular a todos os incendiários, fortuitos ou não, premeditados ou espontâneos, da casa poética.
Esse poeta a quem repugna a “nojenta gastronomia” dos “ortopoemas”, transitivos na sua instrumentalização utilitária e na sua sujeição às demandas de quem, sempre transitoriamente, manda.
Nisso e no que na obra se consubstancia como libertação, catarse e, até, remorso, da vida vivida, sofrida, conspurcada e meditada e pelo verbo reconstruída é que, segundo creio, reside realmente a condição do poeta autêntico.
Quem nos dera que, para além de artífices, técnicos ou, se se quiser, manipuladores da palavra escrita e da linguagem das artes literárias, todos os cultores da poesia fossem imunes a certos compromissos a que os impelem a sua condição de criaturas socialmente situadas e de cidadãos estético-ideológica, cívica e politicamente comprometidos e , assim fossem (ou quisessem ou pudessem dar-se à liberdade de) ser tão coerentes como Arménio Vieira faz por ser no seu quotidiano e exaustivo exercício de suicídio para se manter como poeta a sério, como poeta somente, enxuto na integridade da sua arte e na sinceridade do seu fingimento estético, apesar dos coices da vida e do vento secamente brumoso que, amiúde, assola a ilha e avassala o peito sitiado do cidadão e do poeta.
Poeta a sério porque na obra autêntico e liberto de demandas alheias às demandas da ética e da estética, mas também sabendo que Setembro dói e sangra na necessidade cidadã, nunca liminar e definitivamente excluída, de encetar compromissos com o outro seu próximo e semelhante, seu correlegionário ou adversário, também “caboverdeano anónimo, humilde, meu irmão” nas atribulações da vida em sociedade e na pugna para vencer todos os desafios rumo a uma vida melhor, porque mais digna e de maior bem-estar material e espiritual. “Ilha a ilha. Dor a a dor. Amor a amor”, como escreveu o também iconográfico Ovídio Martins. Porque, como igualmente assevera Oswaldo Osório, só o tapoé pode “consolar os pobres deste mundo/ com eles repartir o (...)pão”, feito “de leite azedo” e “papas de sucos de ervas”. Porque só o tapoé pode “levar ao tribunal da Humanidade os crimes/ e as mentiras que são milhões/ mas sobretudo compreender o seu (teu) tempo como nenhum e por isso loucamente o amar”.
Ou como o tapoé de Oswaldo Osório que, stalion infatigável na visitação de uterosoutros, na subversão da iconografia vigente, na fraternidade e no amor ao seu tempo, desmesurado porque plenamente comprreendido, é instado a colocar “naquele lugar”os diplomas, as medalhas, os galardões e outras honrarias, por que tanto (ainda que dissimuladamente) pelejam uns tantos “desinteressados”.
Escreve o poeta no livro Clar(a) idade Assombrada, dado à estampa no mesmo ano de 1987, no qual o Movimento Pró-Cultura consolidaria a sua perenidade iniciando a publicação da revista Fragmentos: “só tu podes tapoé (...) insistir em ser tratado por tapoé/elevar-te como um deus/ ou humilhar-te como um anacoreta(...)dos louros que porventura justamente mereceres/ destilar o filtro da gratidão/ que distribuirás aos carecidos de humildade/ (mas aos diplomas e outras honrarias/manuscritas impressas a ouro ou em fino pergaminho/neles limparás o cu”.
Ainda no que respeita à rectidão do carácter:
Nunca dobrei a espinha, servilmente me postando perante nenhum tipo de poder, de magnata, de manipulador de afectos, de chantagista de expectativas, de vociferador de ameaças ou de provedor de promessas açucaradas de cenouras futuras, enfim, do “sagaz” detentor do sorriso e do sangue da hipocrisia, na fugaz transitoriedade das nossas e alheias circunstâncias, nem nos tempos transactos do regime de partido único nem nos tempos pluripartidários, também, em muitos aspectos, assaz apertados, que se lhes seguiram.
Isso tudo, em tempos de meditação, de árdua criação, de bloqueio da palavra falada ou escrita, mas também em situações de recreio, convivialidade e de tertúlia ou, se se quiser, de humanos excessos e, por vezes, de gestos insanos e boémio desvario.


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PARÊNTESE SOBRE A ACTUALIDADE DA QUESTÃO DA INDEPENDÊNCIA DO CRIADOR E DO INTELECTUAL
Anote-se, finalmente, que os efeitos perversos, acima assinalados e resultantes das práticas esquizofrénicas tanto do regime de partido único como também dos seus críticos e opositores, viriam a resultar numa transição pacífica, para o pluripartidarismo e para um regime de democracia plena. A mesma transição, considerada, aliás, exemplar por vários estudiosos e analistas, culminaria, paradoxalmente, na potenciação vencedora por parte da oposição emergente de todos os ressentimentos-os pequenos, os grandes e os inventados-, acumulados nos vários extractos da sociedade caboverdeana.-nalgumas elites, como também nas camadas populares mais humildes e mais despojadas dos bens básicos para a manutenção de uma vida digna.
Dessa potenciação- também predominantemente retórica e ampla e amnesicamente compensatória dos efeitos de inércia oposicionista acima referenciados- resultaria uma transição marcada pela ostensiva e entusiástica colocação da maioria dos caboverdeanos ao lado da oposição política emergente. Curiosamente, uma parte significativa dos mentores e dirigentes internos dessa oposição emergente encontrava-se aparentemente integrada nos sectores apartidários do sistema com a nítida, se bem que inconfessada e nem sempre coerente, pretensão de mudá-lo por dentro, mediante o exercício de inusitadas mas eficazes estratégias de “colaboracionismo crítico e rebelde”.
Também nesses períodos de transição, a retórica permaneceu, em grande medida, fantasmática, sobretudo no que respeita à real dimensão da resistência e da oposição internas ao regime de partido único bem como à inércia induzida pelas suas políticas de sedução e de neutralização políticas de eventuais opositores e críticos internos.
No inadiável e indesperdiçável agora da oportunidade de mudança, essa retórica foi eficazmente utilizada não para justificar a passada inércia dos que muitos-como se verifica no romance “O meu Poeta”, de Germano Almeida- consideram, pejorativa ou jocosamente, como críticos de café, muito possuídos pela cautela, voluntária ou compulsivamente imposta e de que tanto fala Jorge Barbosa, o frustrado panfletário, referindo-se, como é óbvio, a outros, mais obscuros e repressivos tempos e a outros, mais subtis “colaboracionistas rebeldes”.
Ela foi utilizada para, literalmente, usar essa mesma inércia como corpo de delito e prova cabal de feroz e implacável repressão política, social e cultural por parte do antigo regime de partido único, para mais considerado parasitário e necessitado de desmame, e suscitar, nesses tempos de desvelamento das montanhas de arquivos das polícias políticas de Leste, como no caso da Stasi, ou do puro terrorismo de Estado, como no caso da Securitate romena, o asco político das populações sedentas de luz, pão, tecto e da urgência da plena liberdade de expressão política, e, assim, activar-se como actor fundamental da mudança. Deste modo, demonstrou-se essa retórica de uma inesperada eficácia, que, ratificada pelos acontecimentos dos países do Leste europeu e africanos e legitimada pela larga mobilização das ruas, foi, depois, efectivamente sufragada pelos caboverdeanos nas urnas do voto plenamente democrático e livre.
Efectivava-se, assim, a alternância política como momento importante da mudança de regime, consagrada na revisão de Setembro de 1990 da Constituição de 1980 e amplamente ratificada e desenvolvida na Constituição de Setembro de 1992 nos seus pressupostos e nas suas consequências de alternância política. Mudança de regime essa que fora encetada com a abertura polícia de 19 de Fevereiro de 1990 e de início “magnanimamente outorgada” pelo regime autoritário, ainda que em arrogante desespero de causa, porque pensada num tempo aziago e fatal para todos os regimes de partido único, de esquerda como de direita, de orientação socialista como de assumida e neo-colonial orientação capitalista.
Tempos aziagos mesmo para os regimes autoritários mais moderados e mitigados, como as fragilidades estruturais e o contexto histórico-sociológico de Cabo Verde fizeram com que o regime de partido único que lhe coube em sorte tivesse que ser, também muito graças à sagacidade heroificada das elites do mesmo regime e do seu proverbial e muito produtivo pragmatismo.
A reviravolta política da sociedade caboverdeana foi de uma dimensão tal que dela resultaria não só a mudança dos paradigmas políticos, económicos e sociais, vigentes quase consensualmente no pós-independência, mas também um novo questionamento e, até, a mudança dos símbolos identitários do Estado e da Nação caboverdeanos.
Não obstante as mudanças de regime e das suas bases constitucionais e jurídico-legais, permanece actual a questão da independência dos intelectuais e dos criadores nas suas relações com o poder político (o Estado, os partidos políticos e as suas organizações-satélites), o poder económico, o poder da(s) Igreja(s) e outros poderes de facto, muitas vezes de difícil identificação.
Com efeito, a extrema bipolarização político-partidária da sociedade, resultante das condições político-sociais da emergência de uma democracia plena em Cabo Verde, tem-se assinalado como muito perversa nos seus efeitos de condicionamento das relações entre o poder político e a sociedade civil. Maxime no que respeita à problemática da independência dos intelectuais e criadores culturais, senão nas suas opções político-partidárias, pelo menos na condução livre e autónoma dos seus processos de criação e na gestão das suas organizações próprias. Assinale-se essa diferenciação pois que todas e quaisquer opções político-partidárias têm sido formalmente consideradas como igualmente legítimas e, por isso, socialmente aceites num quadro que gosta de se identificar como genuína e plenamente democrático. Formalmente, na medida em que na prática o revanchismo político-social, legitimado na alegada necessidade de extirpação dos resquícios autoritários e socializantes do regime de partido único, bem como a fantasmática projecção de uma imagem exageradamente repressiva do regime autoritário implantado no Cabo Verde independente e a hiperbolização da oposição interna ao mesmo regime conduziram a adopção de medidas de indisfarçável motivação e nítida feição políticas, escassamente sustentadas numa clara e inequívoca fundamentação jurídica (constitucional, penal ou administrativa) e numa credível e verdadeira história da repressão política e cultural no Cabo Verde pós-colonial, porque, como as famosas prateleiras e as arbitrárias transferências largamente comprovaram, eram dirigidas primacialmente para a perseguição e neutralização dos adversários políticos e a desmoralização e a destruição do carácter dos visados, mais renitentes na ovação dos novos dignitários.
A questão da independência dos criadores e intelectuais permanece, pois, premente na sua ambiguidade, tanto mais porque continuam assaz incipientes ou, pelo menos, marcadas por congénitas insuficiências, as convicções, a cultura e a prática democráticas de uma parte importante dos agentes políticos e dos actores sociais, partidariamente muito marcados e muito acossados pelas exigências imediatas da bipolarização político-partidária e, por isso, pouco tolerantes em relação a pretensões vindas de quem não seja da mesma cor política ou, ainda pior, se insinue como independente. Pior, na medida em que o independente, mormente se intelectual, é, amiúde, considerado como pouco previsível ou, até, imprevisível nas suas opções políticas presentes e futuras, e, por isso, pouco fiável (e claramente menos fiável que o adversário ou o correlegionário políticos)
Para mais, continuam porosas e muito sinuosas as relações entre o criador e o intelectual, por um lado, e o Estado, por outro lado, ainda muito intervencionista, mesmo quando portador de um discurso des-interventor e e pela pugna por modelos marcadamente neo-liberais. Considerados por muitos como impraticáveis para o sector cultural nas condições periclitantes e frágeis da sociedade caboverdeana, o discurso e o modelo culturais neo-liberais não têm encontrado grande eco por parte dos mais directos interessados, que são os criadores e produtores culturais.
Por isso, o intervencionismo público parece encontrar justificação e vem-se legitimando por força da fraca, ainda que crescente, pujança das indústrias culturais privadas, da dependência dos criadores e artistas- muito afeitos à manutenção de “laços comestíveis” com o poder, por exemplo por via de encomendas, por vezes contaminadas pelo clientelismo político-partidário-, bem como na urgência sentida no que respeita à necessidade da salvaguarda e da revitalização do património cultural, material (como, por exemplo, o património edificado) e imaterial (como no caso da língua caboverdeana), entre outras questões relevantes.
Para mais, as actividades político-partidárias, designadamente as campanhas eleitorais, e aquelas político-culturais, de promoção da imagem e da identidade caboverdeana, conduzidas pelo Estado, por entidades públicas, para-públicas e privadas e por associações, em regra partidariamente marcadas, têm constituído uma não negligenciável fonte de rendimentos para artistas (musicais, plásticos,etc) e um importante espaço de dignificação material e simbólica de escritores e outros intelectuais.
Deste modo, gozando formalmente de todas as prerrogativas de uma quase ilimitada liberdade de criação e de expressão literária, artística, científica e cultural, o criador caboverdeano parece andar ainda à procura de modos de efectivação prática dessa liberdade, como também, por outras formas e em contextos diferentes, outros segmentos sociais buscam o modo e o lugar, nacional ou diaspórico, de efectivar o exercício dos direitos sociais, económicos e sociais que a Constituição outorga e garante a todos os caboverdeanos, mas que o subdesenvolvimento do país, a pobreza crónica da sociedade e a ignorância de uma significativa parte dos seus titulares e destinatários não permitem usufruir e efectivamente gozar.
Os complexos e pruridos em relação a qualquer forma ostensiva e demonstrativa de censura têm tido positivos efeitos anti-repressivos e têm facilitado a profusão de correntes e de experiências artísticas de grande relevância para a universalização sustentada das artes e letras caboverdeanas, mas também têm dado inusitadas oportunidades de financiamento e mediatização a práticas supostamente culturais de quem não domina os instrumentos e as técnicas elementares das linguagens literárias e artísticas, como infelizmente se tem verificado com certos versejadores e escribas, dotados, por vezes, de muita imaginação criativa, mas pouco municiados com o engenho e a arte que só o estudo aturado e o incansável labor propiciam. É, por exemplo, o caso de alguns que, pretendendo-se lusógrafos, exibem gritantes insuficiências na língua portuguesa dos livros que só os patrocínios e os compadrios permitem publicar.
Pode-se, pois, dizer, que se vai firmando, no chão de Cabo Verde, a tradição da pugna pela liberdade de criação, a qual não sofre, na actualidade, restrições jurídico-legais ou limitações práticas, relevantes nos seus efeitos censórios. Isso, apesar da norma constitucional relativa à inviolabilidade da sacralidade de ícones, símbolos e sentimentos religiosos e, obviamente daquelas outras relativas à tutela da infância, da privacidade (da intimidade da vida privada), da imagem da honra, da reputação e do bom nome das pessoas, bem como de outros valores básicos de um Estado de Direito Democrático, sobretudo se correlacionadas com a liberdade de informação e os instrumentos que a comunicação social (incluindo a digital) põe à disposição da liberdade de imprensa e da liberdade de criação literária, artística, cientifica e intelectual.
Deste modo, a já longa pugna pela liberdade de criação tem-se paulatinamente transferido para o campo menos em vista da efectivação prática dessa liberdade, também mediante a operacionalização de mecanismos, como: a cultivada experienciação de novos caminhos estéticos, tidos por superadores das experiências herdadas, primacialmente claridosas, neo-claridosas e novalargadistas; a adopção de políticas públicas pertinentes em relação à valorização de expressões identitárias fundamentais do povo caboverdeano e compatíveis com a crioula e arquipelágica diversidade das ilhas e diásporas; a optimização da iniciativa privada e dos projectos dos criadores e dos vários segmentos da sociedade civil; a preservação da equidade e da igualdade de oportunidades mediante a prioritária valorização do mérito no que respeita ao financiamento, ao patrocínio e ao reconhecimento público, moral ou pecuniário, da produção e da criação culturais e dos seus autores e protagonistas.
Também, na parte desses tempos que coube ao Movimento Pró-Cultura viver, fez esse movimento tudo para manter a sua independência de pensamento e de acção .Muitos dos seus membros e colaboradores continuariam a pugna pela liberdade de criação em outros quadros mais latos, como por exemplo nop quadro da Associação de Escritores Cabo-Verdianos e de editoras que ajudaram a criar e a fazer sobreviver.



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NOTA CONCLUSIVA

A terminar, gostaria de, mais uma vez, expressar a minha pessoal satisfação pela homenagem da Câmara Municipal da capital do país ao Movimento Pró-Cultura.
Homenagem que, como referido, considero justa e oportuna, ainda que atrasada de um ano, se levarmos em conta que a mesma estaria calendarizada para 2006, ano em que se completaram vinte anos sobre a data em que a cidade da Praia-Maria deu à luz o movimento cultural mais marcante da pujança da nossa geração.
Pujança que, consabidamente, ficou marcada nas páginas da revista “Fragmentos”, fundada em 1987, exactamente no ano em que feneciam tanto o suplemento “Voz di Letra”, onde entre de 1986 e Março de 1987, começara a revelar-se a nossa geração, como também a folha “Sopinha do Alfabeto” e a revista “Ponto e Vírgula”, publicações também marcantes da década de oitenta e da nossa geração.
Geração essa caldeada por tantas experiências estéticas e humanas e protagonizada por gentes oriundas de tantos e diversos lugares do nosso arquipélago cultural, urbanos, suburbanos, semi-urbanos, como também rusticamente remotos!
Geração essa por muitos considerada incontornável no contexto dos actuais desafios da cultura caboverdeana.
A minha satisfação é tanto maior quando, nessa ocasião em que relembramos os actores e os trágicos acontecimentos da noite de 19 de Maio de1974, a Câmara Municipal da Capital também prestou merecida homenagem a outras importantes personalidades e entidades da bem-amada cidade da Praia de Santa Maria da Vitória, como, por exemplo, o poeta, ficcionista e combatente de causas várias Oswaldo Osório, os artistas musicais Tcheca Andrade e Mayra Andrade, a revista “Direito e Cidadania”, o espaço cultural “Quintal da Música”, os cafés-restaurantes “Cachito” e “O Poeta”, tão memoráveis, porque também culturalmente produtivos no passado e no presente.
Lamenta-se, mas compreende-se que, como usualmente e coerente com a sua conhecida aversão a esse tipo de honrarias e éfemeros estrelatos, Arménio Vieira, “pedreiro muito lido” e “calceteiro dolorido”, não tenha querido comparecer ao acto de homenagem camarária.
Almejamos que na próxima grande oportunidade que serão os cento e cinquenta anos da Praia-Cidade, se corrijam as omissões, infelizmente, verificadas, no dezanove de Maio deste ano, não só em relação ao Pró-Cultura (nas acepções de grupo, movimento e, para alguns e mais controversamente, também geração), como eventualmente em relação a outras personalidades, entidades, áreas culturais e sectores de actividade.
Afinal, a Cidade da Praia quer ser, e cada vez mais, viveiro de mulheres e homens de cultura e de cidadãos plenos na assumpção capaz e descomplexada dos desafios da cidade, como agora o comprovaram o Simpósio “Claridade”, o Festival da Gamboa (em que se homenageou Manuel Clarinete, na sequência, aliás, da homenagem no ano passado, a João Henrique de Oliveira Barros), a Praia-Mov 2007 e o Festival Riba Praia.
Com os olhos postos nos seus planaltos, achadas, várzeas e ribeiras e nas pessoas que neles labutam e vivem, os praienses vão, assim, deixando para trás a cidade-repartição que foram, a Praia sábi e bela, mas também e depois a Praia prigu e mal-amada- porque degradada e cercada dos muitos subúrbios, onde pulula(va)m a pobreza, o caos urbanístico e a marginalidade social-para, gradualmente, mas assoberbados de certezas, abraçarem uma Praia-Maria definitivamente bem-amada, porque mais cosmopolita e mais atenta às interpelações da modernidade.

POST-SCRIPTUM, DE MUITO RENITENTE, MAS, QUIÇÁ, NECESSÁRIO E LIMITADO EXERCÍCIO DE “DIREITO DE RESPOSTA”

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Alguns leitores têm, infelizmente, optado pelo soez e vil ataque pessoal, pela difusão de falsidades e pela manipuladora intrusão na vida privada de alguns autores de ensaios e artigos de opinião, assim deliberadamente desvirtuando o espaço reservado ao comentário livre das ideias expendidas por esses e outros autores .
Foi, por exemplo, assim com o meu artigo “O caso Amílcar Cabral”, aliás, objecto de vários elogios públicos e privados.
É agora o caso com um leitor que, andando certamente nas minhas proximidades ou coroído por algum inconfesável ressentimento, se esconde atrás da identidade virtual “Daniel”.
Como resposta a esses leitores, que preferem refugiar-se na obscura impunidade do anonimato, apetece-me, desde logo, parafrasear um muito experiente amigo meu: “o anonimato do ataque sem rosto é uma tocaia que, pretendendo-se assassina, nunca honra o jagunço”.
Dito isto e apesar de, habitualmente, me recusar a responder a ataques pessoais e difamatórios, mormente se provenientes de anónimos, abro uma excepção, não para, ingenuamente, responder a insultos e ofensas de incógnitos, mas para, de alguma forma, contribuir para a dissipação de dúvidas lançadas maldosamente à arena com vista a pôr em causa a independência do Movimento Pró-Cultura e a insinuar a sua instrumentalização administrativa ou político-ideológica. Serve também a cirscunstância para a reafirmação de alguns princípios que sempre guiaram a minha conduta quer como criador quer como participante de movimentos, associações e organismos culturais.

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Assim e quanto às mirabolantes considerações do anónimo que se esconde sob o nome virtual Daniel:
Não diviso como é que “mais uma vez o Zé Hopffer falhou em toda a linha” e o movimento, alegadamente fundado por mim , ”não vincou”, se, como é de todos conhecido, a principal iniciativa do Movimento Pró-Cultura, a revista “Fragmentos”, é apontada por vários estudiosos como uma das importantes publicações culturais surgidas em Cabo Verde. Importância que, penso com plena justiça, é atribuída à revista, devido não só à diversidade das suas propostas ensaísticas, ficcionais e poéticas como também pelo seu papel na recolha da oratura e de outras manifestações do nosso património material e imaterial e na divulgação de muitas páginas inéditas ou esquecidas de escritores caboverdeanos falecidos.
Deste modo, puderam o Movimento Pró-Cultura e a sua revista contribuir de forma não negligenciável para o surgimento de uma nova geração de escritores de poesia, de ficção e de ideias e para a divulgação da obra de muitos artistas plásticos bem como da cultura caboverdeana em geral.
Quanto à muito sonante acusação, segundo a qual o Movimento Pró-Cultura teria sido “uma quinta coluna do ministério da cultura quando era dirigido pelo irmão David Almada”:
Mesmo presumindo que o meu belicoso e amnésico detractor esteja plenamente ciente da falsidade da sua afirmação, ocorre-me refrescar-lhe a memória e dizer-lhe sem constrangimento de espécie alguma:
Também aconteceu que eu tenha sido considerado suspeito e inapto como activista cultural sob a acusação de ser “militante da JAAC” (organização na qual militei, consciente e convictasmente, enquanto estudante liceal).
Também aconteceu que, estavam as fracturas no Pró-Cultura no seu auge, fui acusado por um amigo de um adversário nas lides culturais de ser “catchás do irmão”, na altura desempenhando as funções de Ministro da Informação, Cultura e Desportos
É por demais evidente que, à falta de outros argumentos mais sustentáveis, esse tipo de acusações pretendia e pretende investir na suspeição política e jogar com o grande poder que o nepotismo, o clientelismo e o compadrio têm efectivamente exercido nessa sociedade de “sagazes” (no sentido de desonestos e de oportunistas à cata da primeira oportunidade de socialmente sobressaírem). Sociedade de sagazes e da sua contraparte conformada e mendicante, também sagazmente postada na debicação das migalhas que esses “sagazes mores”, habilidosos corruptores que se prezam em ser, têm “magnânima e condescendentemente” distribuído.
Sociedade de “sagazes” e conformados mendicantes que alguns sectores, felizmente muito minoritários da sociedade caboverdeana, das ilhas e diásporas, persistem em que Cabo Verde e os caboverdeanos sejam no plano ético e moral, para, quiçá fazer jus ao muito difundido e citado ditado “o mundo pertence aos espertos”, aos despertos na astúcia e na artimanha, a esses sabidos que se têm governado tão bem e tanto têm degradado a vida em sociedade nos seus alicerces morais, mesmo naqueles que, alguns, quiçá ingenuamente, consideram como os mais intangíveis.

Sustentado nas minhas opções político-ideológicas bem como na experiência e na formação pessoais que perfazem o meu percurso, orgulho-me de me situar entre os criadores e intelectuais caboverdeanos que, independentes ou partidariamente comprometidos, sempre pugnaram pela liberdade de criação e combateram o dirigismo político-administrativo no domínio da cultura.
Para tanto e com os meios que me eram acessíveis e considerava adequados, para mais conhecendo o desvalor da sua repressão e do seu condicionamento, fiz por praticá-la e para que outros também pudessem efectivamente prática-la.
Essa postura decorre, de forma absolutamente natural, do que quis e me propus convictamente fazer, pelo menos desde os meus tempos de estudante universitário.
Mesmo sabendo que, parafraseando uma amiga, “a independência de pensamento e de acção conduz quase sempre a um lugar solitário e fustigado”, especialmente por aqueles que, arrebanhados e arregimentados por “sagazes” dos mais diferentes quadrantes político-ideológicos e sociais, se deixam eticamente conduzir pela mentalidade de sequazes e lacaios.
Risco de solidão, mas também risco de geral incompreensão, tanto maiores em sociedades (como, infelizmente, é a nossa) muito marcadas pela excessiva partidarização e pela omnipresente bipolarização política da vida social, às quais parece que nem a esfera privada das pessoas logra escapar. A esses conhecidos constrangimentos acrescem, entre nós, outros, umbilicalmente conexos com as exíguas, ainda que diaspóricas, dimensões sociológicas de um meio pequeno, por demais tacanho, porque também propenso para a maledicência, a baixa intriga e a mesquinhez (a mesquinhice) de sentimentos e condutas.
Ainda assim, fiz e faço por simplesmente ser:
Um autor autêntico na sua criação literária e convincente na sua produção ensaística.
Um defensor da independência intelectual dos criadores e da gestão dos processos de produção artística pelos próprios artistas.
Definitivamente: independentemente dos laços de parentesco e da amizade que me possam ligar, e, por vezes, efectivamente ligaram e ligam, a titulares de cargos ministeriais e outros cargos políticos, alguns dos quais muito admiro quer pela verticalidade do carácter quer pela dimensão e qualidade da obra feita.
Por isso sou, e sempre:”nem catxás de irmão, nem tão-pouco irmão inimigo”, “nem lacaio de amigo nem tão pouco seu inimigo intímo e furtivo detractor”.
Simplesmente, alguém que se sabe ligado aos seus irmãos e demais familiares por laços de profunda, solidária e fraternal amizade.
Simplesmente, alguém que sente natural orgulho e se regozija pelos feitos positivos dos parentes e amigos e sofre (mesmo que na mais funda solidão) com os seus eventuais fracassos, insucessos, mágoas e infelicidades.
Enfim: um ser humano que vê no culto genuíno e na reciprocidade de afectos um esteio imprescindível para o equilíbrio pessoal e colectivo, quer no seio da família, quer da mais lata vida em comunidade.
O sucesso de outros, meus companheiros e confrades, meus amigos e, até, meus adversários, nas literaturas (assim como em outras áreas de actividade criativa ou profissional) sempre suscitaram em mim genuína satisfação.
Essa satisfação tem sido tanto maior quando penso que, ainda que modestamente e, nalguns casos, em bastidores pouco dados à visibilidade pública, tenho “dado o meu quinhão” e, por formas várias, contribuído para o sucesso de muitos deles, nomeadamente no que respeita ao (re)conhecimento público da respectiva obra, sobretudo quando literária ou versando outras áreas das ciências sociais afins aos meus interresses intelectuais. Como, aliás, até um outro anónimo, careca (de ética, entenda-se) e travestido de “espanhola” (querendo-se talvez “afro-hispânico”) reconheceu amplamente em recente e rancorosa incursão à minha vida privada, fundamentando a sua argumentação nos conhecidos recursos da inveja, da rivalidade destrutiva, do despeito intelectual, da manipulação mentirosa e da propagação de suposições fundadas em indisfarçáveis complexos identários (como o bairrismo de quem gostaria de ser, nmas não é branco, nem sequer afro-europeu), enfim, em infinitas e improváveis falsidades e, obviamente, se refugiando, mofina, na impunidade do anonimato.
Como sabe quem me conhece (ou me tenha escutado ou lido), tem sido ponto fulcral da ancoragem dessa minha pessoalíssima satisfação pelos sucessos editoriais e mediáticos de outros autores caboverdeanos, que os mesmos sucessos se baseiem exclusiva ou primacialmente no mérito da obra que, segundo julgo, se consegue, regra geral, como resultado da imaginação criativa, mas também e sobretudo de extenuante, porque laborioso esforço intelectual. A minha satisfação é tanto maior quando o engenho e a arte do criador se reflectem no que, na minha visão (subjectiva, é claro), constitui mais-valia estética e ética para o ser humano, no sentido do apuramento dos diversificados caminhos para o belo (sempre relativo, embora), do seu humanismo e do seu “natural instinto à liberdade”.
A contrário, sempre me repugnaram aqueles sucessos, de conhecidos ou desconhecidos, amigos ou adversários, cozinhados em jogos de bastidores e de falsas, ainda que vistosas, aparências, em fogos fátuos e mistificações, também “cantalutistas” ou “choralutistas”, fraudulentamente capitalizados para a notoriedade literária, artística, científica ou político-social, sempre, (mas sempre!) com o intuito expresso ou inconfessado de outras, mais altas candidaturas, mais ambiciosas cavalgaduras (cavalgadas, queria eu dizer), também ampla e comprovadamente manipuladas.
Convença-se, pois, de vez os meus furtivos e obscuros inimigos: tudo o que fiz e defendi no âmbito da cultura, fi-lo e defendi-o por profunda e assumida convicção estético-ideológica, cívica e político-cultural.

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Quanto ao resto, mediante o qual se intenta a intrusão na minha vida privada e se pretende atingir-me no meu bom nome, na minha honra e reputação bem como na minha inteligência racional e emocional, intimo o meu anónimo detractor (e os seus comparsas e sósias que, impunemente porque sem rosto, vêm poluindo e conspurcando a internet com a vil e difamatória baixeza dos seus insultos e ataques pessoais) a fazer eles, sim, um exame de consciência e a, corajosamente, abandonar o covil do covarde anonimato e dar a cara como deve ser a prática e a ética de conduta de criaturas verdadeiramente verticais.

Sem excessivos e maiores temores.
Pois que o que unicamente devia a todos mover-nos (e ser incentivado pela imprensa, independentemente do seu suporte de difusão) é a exposição e debate de ideias bem como a discussão sobre factos, socialmenter relevantes e “realmente acontecidos”e a eventual reposição e clarificação das circunstâncias do seu ser e devir, mas nunca a, em regra ilegítima, intrusão na vida privada e nos eventuais podres públicos e privados do outro, nosso próximo, e a sua sequente e ilegítima sujeição ao pelourinho do escrutínio de uma suposta opinião pública.
Suposta porque por demais volúvel, alcoviteira e integrada pelos que, desguarnecidos de argumentos sustentáveis e espreitando do tugúrio de anónima toca, fazem uso de armas ilegítimas.
Armas ilegítimas, porque, para além de anónimas, recorrem ao insulto pessoal, à calúnia e à mentirosa manipulação da vida privada de quem, amiúde, se mostram sorridentes e públicos amigos, mas de quem, nas costas ou fazendo-se incógnitos, se têm demonstrado como impenitentes, furtivos e traiçoeiros inimigos.
Armas ilegítimas porque moralmente condenável o seu uso que, em regra, é também severamente sancionado pela ética e pelas normas vigentes nos Estados de Direito Democrático, como sei que, por seu mero dever de oficio, sabem (ou deviam saber) alguns dos meu anónimos detractores.


Lisboa, Junho de 2007
José Luís Hopffer C. Almada

Nota do autor: corresponde a presente versão da “Carta Aberta”ao texto integral, inicialmente destinado ao jornal “asemanaonline”, mas cuja publicação nesse jornal electrónico tornou-se inoportuna, por ter sido parcial e prematuramente publicado em “liberal-caboverde.com”.
Ao texto destinado ao “asemanaonline” foi aditado um “post-scriptum” para suplementar esclarecimento de eventuais interessados.
josehopffer@yahoo.com.br
josehopffer@hotmail.com
joseluishopffer@gmail.com

Tuesday, May 29, 2007

CONSIDERAÇÕES A PROPÓSITO DA HOMENAGEM DA CÂMARA MUNICIPAL DA PRAIA AO MOVIMENTO PRÓ-CULTURA

UM BREVE OLHAR RETROSPECTIVO SOBRE O SURGIMENTO DO MOVIMENTO PRÓ-CULTURA

Quando em Dezembro de 1985, um conjunto de quatro pessoas ligadas às artes e letras criaram na residência de Kaká Barbosa, na Achada de Santo António, um grupo a que, por sugestão de Daniel Spencer e do autor destas linhas, denominaram Núcleo Pró-Cultura, as mesmas propuseram-se como tarefa imediata a conclamação de um número significativo de literatos, artistas plásticos, músicos e de outros artistas com vista à criação de um movimento cultural, amplo e pluralista.

Seria objectivo essencial desse movimento a superação da letargia cultural que, alegadamente, assolava a capital do país bem como o combate ao estado de vegetação que, nesses tempos pós-claridosos e pós-cantalutistas, ameaçava recorrentemente “desertificar” a paisagem literária e cultural das ilhas. Letargia e vegetação culturais que, acreditavam, tornaram-se por demais visíveis não obstante o sucesso das revistas “Raízes” e “Ponto e Vírgula” e de várias experiências nos domínios das artes plásticas e musicais, como, por exemplo, as patenteadas por Manuel Figueira, Luísa Queirós e Bela Duarte, na renovação musical ilustrada pelo movimento funaná, pela música erudita de Vasco Martins e pelo labor dos “Tubarõs”, “Bulimundo, entre outros grupos musicais, ou as escritas de João Vário, T. T. Tiofe, Arménio Vieira, Corsino Fortes, Jorge Carlos Fonseca, Oswaldo Osório ou Teixeira de Sousa.

Nessa sequência e devidamente mandatado pelo Núcleo Pró-Cultura (já sem a colaboração de Fátima Monteiro, entretanto residindo nos Estados Unidos da América), o autor do presente texto procedeu ao recenseamento e ao convite dos quase trinta interessados nas coisas culturais que se reuniram, no Lar da Terra Branca, em 22 de Março de 1986, por coincidência exactamente no mesmo mês em que cinquenta anos antes se procedera, na cidade do Mindelo, à publicação do primeiro número da revista “Claridade”.

Depois de um amplo, frutífero e desinibido debate, conduzido sempre sob os signos irrenunciáveis da liberdade de criação e do pluralismo estético-ideológico e versando sobre questões várias correlacionadas com a chamada “crise literária caboverdeana” e de outra índole político-cultural (incluindo as problemáticas da liberdade de criação e da escrita e da dignificação do crioulo), essas mesmas pessoas reunidas nessa tarde memorável criaram o Movimento Pró-Cultura, para cuja direcção foi eleito um Conselho Coordenador constituído por representantes das vertentes literária, das artes plásticas, da música, do teatro bem como da área da documentação e da investigação culturais.
A esse primeiro encontro seguiram-se o segundo e o terceiro Encontros Pró-Cultura no Parque Cinco de Julho da cidade da Praia, nos quais se procedeu ao balanço crítico das actividades entretanto levadas a cabo e novos elementos aderiram aos ideais pluralistas e renovadores do movimento cultural nascente.

ACTIVIDADES, INICIATIVAS, DISPUTAS, CONTROVÉRSIAS E DISSIDÊNCIAS

O movimento recém-criado encetou de imediato a realização de uma série de actividades de animação cultural com destaque para as seguintes: colaboração e dinamização do suplemento literário “Voz di Letra” do jornal “Voz di Povo” (coordenado por Oswaldo Osório e Ondina Ferreira); difusão pela Rádio Nacional de Cabo Verde do programa radiofónico “Gentes, Ideias e Cultura”, co-realizado por Danny Spínola e José Luís Hopffer Almada; realização da Primeira Semana de Arte Integrada, a qual proporcionou, pela primeira vez, a subida aos palcos do Palácio da Assembleia Nacional Popular dos talentos de Nha Násia Gómi, Nhu Ntóni Denti di Oru, Ano Nobo e a sua banda de música tradicional e do grupo cénico OTACA, bem assim a exposição no átrio do mesmo Palácio das pinturas de José Maria Barreto, Osvaldo Azevedo, Péricles Barros, Ruja, Lú di Pala, entre outros, e dos trabalhos dos artesãos do Centro Regional de Artesanato da Praia.
Digna ainda de destaque é a Antologia “Mirabilis- de Veias ao Sol”, organizada, em 1987, pelo autor destas linhas e produzida pelo Movimento Pró-Cultura, a qual, depois de muitas e intermináveis atribulações com a “Editorial Caminho”, viria a ser finalmente publicada na sua forma definitiva e devidamente revista, em 1998, pelo caboverdeano Instituto da Promoção Cultural.

Infelizmente, algumas das actividades programadas desde a fundação do Movimento Pró-Cultura não conheceram desenvolvimentos dignos de nota. São os casos da dinamização nas áreas da documentação, do teatro, da criação de um cine-clube e de uma galeria de arte, e, de certo modo, da vertente musical. Vertente musical constituída por Nhelas Spencer, Kaká Barbosa, Nhonhô Hopffer e Daniel Rendall e de que alguns integrantes ( designadamente Nhelas Spencer e Nhonhô Hopffer) viriam a co-fundar e a integrar o grupo “Fogo”, que se compunha ainda de Betú, Braz Andrade, Djick Oliveira, Hermano Almeida, Elísio Faria, Kim de Pepita, Elisabeth Spear, Betina Lopes, entre outros.

Outras vertentes, como a divulgação das artes literárias e das artes gráficas e plásticas conheceram um invulgar dinamismo, em especial no quadro da divulgação de obras no âmbito do suplemento “Voz di Letra”, da revista “Fragmentos” e do programa radiofónico “Gentes, Ideias, Cultura”.

Por outro lado, tendo ganho uma grande dinâmica, criado uma notável notoriedade pública e suscitado um amplo leque de apoios, o Movimento Pró-Cultura começou, desde muito cedo, a ser também palco de dissensões internas e de lutas pela sua liderança, não sendo poucos os que tentaram apoucá-lo, descredibilizar as suas actividades ou ainda promover a sua desagregação a partir de dentro.

Dessas disputas viriam a resultar algumas saídas e desistências, incluindo daqueles não implicados directamente na criação cultural e de outros que, estamos em crer, encalharam circunstancial e temporariamente nas letras e nas artes.

Das mesmas disputas resultou ainda a primeira e única dissidência no seio do movimento. Essa dissidência foi protagonizada por alguns membros fundadores do movimento como Filinto Elísio Correia e Silva, Mito e Eurico Barros, que criam, com Arnaldo Silva e o talentoso fotógrafo João Nelson, o Grupo de Debates sobre a Arte, responsável editorial pela publicação dos dois números da folha “Sopinha de Alfabeto”.

Deste modo e em face da também notória disparidade na implementação das actividades das várias vertentes do Movimento Pró-Cultura e do patente inactivismo de alguns dos seus membros, o Conselho Coordenador, tal como inicialmente concebido, perdeu progressivamente sentido, deixando os seus membros de se reunir com a regularidade exigível.

DO GRUPO PRÓ-CULTURA E DA DENOMINADA “GERAÇÃO DO MOVIMENTO PRÓ-CULTURA”

Por outro lado, o núcleo essencial do Movimento Pró-Cultura constituído fundamentalmente por elementos ligados às artes literárias e plásticas prosseguiu com as suas actividades, tendo agregado ao seu corpo organizativo novos elementos, como Fernando Monteiro, Djélis (José Luís da Costa Andrade), Péricles Barros, José Maria Barreto, João Henrique de Oliveira Barros, entre outros.

É esse núcleo que se responsabiliza pela criação da revista “Fragmentos” que, formalmente dotado de um director, de um conselho directivo, de um conselho editorial, de uma administração, de uma comissão gráfica e de artes plásticas, de um secretariado e de representantes em várias ilhas do país e na diáspora, publicou, entre os anos de 1987 e 1998, centenas de páginas de artes e letras caboverdeanas de um grande número de poetas, ficcionistas, ensaístas, fotógrafos e artistas plásticos das novas gerações, para além de textos inéditos de Jorge Barbosa e de João de Deus Lopes da Silva, bem como de criadores de gerações mais antigas e de autores estrangeiros. É esse papel na dimazinamização e divulgação literárias e artísticas que justifica que a revista “Fragmentos” seja considerada uma das importantes revistas caboverdeanas de toda a nossa contemporaneidade.

Esse grupo responsável pela continuidade das actividades do Movimento Pró-Cultura contribuiu, assim e de forma decisiva, para o surgimento e para a consolidação de uma nova geração literária e cultural, generosa nos seus propósitos de promoção cultural e nas suas propostas de renovação estética, plural no seu modus faciendi e na sua criatividade, porque laborando sempre sob o signo reiteradamente afirmado da liberdade de criação artística, científica e cultural, nesses tempos esquizofrénico de vigência de um regime autoritário de partido único.

É talvez nesse sentido e somente nesse sentido que se reconhece alguma pertinência conceitual àqueles que pretendem falar de uma Geração Pró-Cultura que, nascida na Praia nos anos 86/87 e apostando na continuidade das lições positivas colhidas de iniciativas anteriormente surgidas no pós-independência, como as protagonizadas pelas revistas “Raízes” e “Ponto e Vírgula” e por folhas liceais e juvenis, como “Podogó” e “Despertar”, se teria consolidado à volta do ineditismo renovador das novas vozes reveladas pelas publicações que também resultaram do activismo e das movimentações remanescentes dos que participaram na fundação do Movimento Pró-Cultura inicial, como o suplemento “Voz di Letra” e as revistas “Sopinha de Alfabeto” e “Fragmentos”.

Mesmo admitindo a existência de uma Geração do Movimento Pró-Cultura, que, aliás, só honraria todos os que dela foram protagonistas e co-demirgos, estamos, todavia, em crer que, devido à sua extensão, à sua diversidade e ao seu modus faciendi, não se confunde essa geração com o grupo necessariamente mais restrito denominado Movimento Pró-Cultura e activo até ao segundo semestre do ano de 1998.

Tanto mais que o amplo leque dos colaboradores das iniciativas do movimento (com destaque para a revista “Fragmentos” e para a antologia panorâmica por ele organizada), residentes nas ilhas e nas diásporas, extravasa de longe o elenco dos fundadores e dos membros formais dos diversos corpos constituintes da orgânica do movimento e, em particular, da sua revista.

São os casos, por exemplo, de José Vicente Lopes ou Valdemar Velhinho Rodrigues, ambos colaboradores assíduos (quase permanentes) da revista “Fragmentos” (bem como de outras publicações periódicas contemporâneas), nas áreas da poesia, do ensaio e da ficção, mas então avessos a qualquer lógica de pertença formal a grupos, e, por isso, necessariamente ausentes das estruturas organizadas do grupo dinamizador desse movimento literário-cultural, de todo o modo mais marcado pela informalidade e pela prevalência da efectividade da praxis da criação literária e artística do que pela normatividade associativa.

São também os casos de colaboradores oriundos de outras gerações, como Luís Romano, Arnaldo França, Mário Fonseca, Arménio Vieira, João Henrique de Oliveira Barros, Osvaldo Osório, João Vário, César Fernandes, Ano Nobo, Jorge Carlos Fonseca, Tomé Varela da Silva ou Manuel Veiga, ou de outros espaços culturais, como o Brasil, Angola ou Portugal.

A crescente maturidade geracional e os remédios que o distanciamento temporal felizmente sempre proporciona encarregaram-se de permitir o reencontro no terreno concreto que mais conta, designadamente o da criação literária e artística, dos antigos rivais do Movimento Pró-Cultura e do Grupo de Debates sobre a Arte como colaboradores plurais tanto da revista “Fragmentos” e da antologia “Mirabilis-de Veias ao Sol” como também de outras iniciativas culturais que iam tendo lugar em Cabo Verde e na diáspora.

DA PERTINÊNCIA E DA OPORTUNIDADE DA HOMENAGEM PRESTADA PELA CAMÂRA MUNICIPAL DA PRAIA

O contributo do Movimento Pró-Cultura para a renovação das letras e das artes islenhas e para a consolidação do papel da ilha de Santiago e da cidade da Praia como lugares de criação artística no quadro das disputas pelos atributos da capitalidade cultural foi por demais evidente, valendo-lhe, por isso, a frequente hostilidade difamatória dos “bairristas de serviço”.

Por outro lado e como testemunha um certo frenesim actual em torno dos eventuais pergaminhos do Movimento Pró-Cultura, mesmo alguns dos seus antigos e públicos detractores parecem reconhecer, desde há alguns anos, esse e outros papéis desempenhados por esse grupo e movimento culturais.

Daí considerarmos como carregado de justiça, iluminado de justeza e plenamente pertinente e oportuna a homenagem prestada ao Movimento Pró-Cultura pela edilidade da capital do país.
Mesmo sabendo, como o tapoé de Oswaldo Osório, que as medalhas e outras honrarias não constituem nem “salários do poeta” nem “lugares do seu reconhecimento próprio e intímo”, destinando-se, por isso e em regra, a outros lugares reconhecidamente mais esconsos por também serem, e muito frequentementemente, mais consentâneos com os objectivos e fins prosseguidos pelos políticos profissionais que, bem ou mal aconselhados, escolhem o modo e o tempo da sua atribuição do que com a desinteressada exaltação e o genuíno reconhecimento público do poder criativo do artista e do homem e da mulher de cultura.

Mesmo se nesse concreto acto de reconhecimento público se detecta uma clara, quiçá deliberada ainda que inconfessada, confusão entre o grupo denominado Movimento Pró-Cultura e a chamada Geração Pró-Cultura.

Realce-se novamente que, talvez por força de um certo comodismo de linguagem, o qual todavia o não isenta de controvérsias, de discordâncias e de equívocos, este último termo vem sendo actualmente usado por algumas pessoas para denominar quer, mais latamente, a geração literária revelada nos auspiciosos anos de 1986 e 1987 (muito, diga-se, devido às actividades do Movimento Pró-Cultura), quer, mais restritamente, a tertúlia praiense de “titãs da utopia literária e cultural” que, nesse período marcado pela sobrevalorização da afirmação pessoal e geracional, gravitava à volta dos restaurantes “Flor de Lys” e “O Poeta” da cidade da Praia, onde os seus membros amiúde navegavam, afundando-se, por vezes, nas águas da irreverência, da arrogância criativa e da egolatria.

Mesmo se foi por demais notório o erro de casting na escolha de uma ou outra pessoa (e/ou na lamentável omissão de outras que certamente gozam de maior legitimidade) para representar, não a geração literária denominada de geração do movimento pró-cultura, de que são, aliás, dignas e competentes co-obreiras, porque co-autoras do seu prestígio actual, mas o Movimento Pró-Cultura.

Neste concreto contexto, referimo-nos, pois, ao Movimento Pró-Cultura enquanto denominação do grupo literário-cultural que, por mais de uma década, se pôde afirmar como um dos mais importantes grupos promotores de dinâmicas literárias e culturais na história da ilha de Santiago e de Cabo Verde, mesmo se frequentemente obrigado a remar contra as marés e os ventos, por vezes traiçoeiros, oriundos de algumas vozes outrora inconformadas com o dinamismo cultural que ia conquistando a cidade da Praia e com o papel que esse grupo ia desempenhando nesse processo.

Movimento Pró-Cultura, pois, como significando o grupo literário-cultural que algumas antigas vozes fundadoras abandonaram e passaram a combater, mesmo que, com maior e mais inusitado denodo, pelo período que durou a sua agora não assumida dissidência.

Nesta óptica, teria sido quiçá mais pertinente e oportuno distinguir e homenagear nominal e inequivocamente não só o Movimento Pró-Cultura como também outros grupos e iniciativas protagonizadas pela hoje considerada incontornável geração de 86/87 ou, se se quiser, dos anos oitenta de novecentos. Incontornável porque fautora plural de várias iniciativas literárias e culturais, por vezes concorrentes, mas todas de inquestionável significado para a afirmação da nossa geração, para a renovação das artes literárias e de outras áreas artísticas, e, assim, para o enriquecimento da cultura caboverdeana.

Geração cujos integrantes mais proeminentes são hoje, pela dimensão das obras literária, ensaística, plástica e/ou artística, credores mais do que justos do reconhecimento tanto da nação global caboverdeana, como também da cidade praiana que, como ambiência, morada ou lugar de laboração criativa, os viu nascer, amadurecer e/ou fez crescer como homens e mulheres de cultura e indefectíveis amantes e criadores das letras e das artes.

Nesta óptica, cremos que o rigor e a honestidade intelectuais bem como o respeito pela veracidade histórica devem ser os únicos critérios e as máximas balizas norteadoras dos actos públicos de reconhecimento também dos feitos artísticos e culturais. Do mesmo modo, que deveriam igualmente constituir os limites à, por vezes, insaciável sede de protagonismo que, infeliz e inconfessadamente, ainda caracteriza alguns dos reconhecidos actores da saga literária e cultural iniciada ou tornada pública nesses já longínquos anos oitenta de novecentos.

Sede de protagonismo que, todavia e em caso algum, deve constituir óbice a que a sua obra, meritória e, por vezes, valiosa, seja devidamente reconhecida pelos poderes públicos, em contraponto ao que terá ocorrido com a preterição de alguns desses literatos, investigadores e criadores com a “saga das medalhas” por ocasião do trigésimo aniversário da independência nacional.

No que nos diz respeito, só nos podemos orgulhar pelo papel que nos coube desempenhar, quer como criador quer como promotor cultural, em todo o processo literário-cultural que muito contribuiu para a agitação das letras caboverdeanas nos anos oitenta e noventa do século passado. Para tanto, terá certamente contribuído, e muito, a persistência de que imbuímos o espírito de generosidade de que nunca prescindimos e nem pretendemos prescindir. Espírito de generosidade que, apesar das desilusões e dos dissabores vários, nos tem trazido o conforto espiritual que nos alimenta nesta crença inabalável na honestidade intelectual e na lealdade que achamos devem ser cultivadas como valores imprescindíveis nas relações entre os seres humanos, os caboverdeanos, os intelectuais, os criadores e os confrades que, felizmente, prezamos ser.

É com saudosas lembranças de Djélis (José Luís da Costa Andrade), um dos principais promotores da revista “Fragmentos” e seu responsável gráfico, para além de cartoonista de mérito, que escrevo estas linhas de despretensioso esclarecimento, para concluir: da próxima vez, lembrem-se desse incansável criador e gráfico para uma homenagem póstuma. Uma forma digna de prestação dessa homenagem seria a edição, nos cento e cinquenta anos da cidade da Praia, dos inúmeros cartoons que foi dando à estampa em publicações como “Unidade e Luta”, “Fragmentos”, “Tribuna”, etc. Edição que, nessa data festiva, poderia também contemplar, por exemplo, a obra poética desse praiense de todos os costados que foi João Henrique de Oliveira Barros e visar especialmente livros que tenham como temática as várias facetas da evolução da cidade da Praia e da perspectivação do seu futuro ou contribuam para reforçar o seu papel de capital (também cultural) do país e para colmatar os seus notórios défices em determinadas áreas, como, por exemplo, na prosa de ficção.

Lembrem-se também dos seus companheiros Fernando Monteiro, Lú di Pala, Kaká Barbosa, entre muitos outros protagonistas, maiores e menores, mais ou menos constantes na persistência criativa e no activismo cultural, quando se propuserem homenagear o Movimento Pró-Cultura, as suas iniciativas culturais bem como os seus fundadores, promotores e colaboradores, sem cujo contributo não seria sequer possível estar agora a perorar sobre o grupo que tivemos a oportunidade de integrar ou a tecer loas à geração dele contemporânea.

A verdade, a gratidão e a honestidade intelectual ovacionariam efusivamente.
Finalmente, apraz-nos registar a homenagem prestada pela edilidade praiense ao poeta Oswaldo Osório, “uma das mais lídimas vozes da poesia caboverdeana”, no dizer de Arnaldo França.

Oswaldo Osório que, com Ondina Ferreira e o então director do jornal “Voz di Povo”, Carvalho Santos, nos disponibilizou as páginas do “Voz di Letra” desde o seu segundo número de Março de 1986, e, assim, contribuiu para a revelação dos literatos que, como Euricles Rodrigues, Filinto Elísio, Mito, Eurico Barros, Eurico Correia Monteiro, Naiz di Itanta, Pedro Freire, L-3, Alírio Kinóru, Fernando Monteiro, Zé di Sant'' y Águ, entre muitos outros, então emergiam com o Movimento Pró-Cultura.

Memorável é também a publicação, pela primeira vez no “Voz di Letra”, das muito irreverentes e corajosas caricaturas do Mito. Mito, que, com Lú di Pala, construiu o rosto gráfico desse suplemento cultural do jornal “Voz di Povo”, enquanto Oswaldo Osório, Mateus Fernandes (o compositor do “Voz di Povo”) e eu próprio, enquanto representante do Movimento Pró-Cultura junto da coordenação do “Voz di Letra” e contando amiúde com a colaboração do Danny Spínola , tratávamos , por vezes a altas horas da noite, dos aspectos práticos relacionados com a colaboração dos membros do Movimento Pró-Cultura nesse interessante e primordial, conquanto muito desigual, instrumento de revelação da nova geração literária de 1986/1987.

Lisboa, 24 de Maio de 2007

José Luís Hopffer C. Almada
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joseluishopffer@gmail.com
josehopffer@hotmail.com

Tuesday, March 13, 2007

CAPITALIDADES
Um olhar retrospectivo sobre alguns aspectos
da cultura e da história caboverdianas

Brevíssima nota introdutória
Constituem os presentes apontamentos parte de uma reflexão mais vasta inserida na celebração ensaística de algumas datas marcantes da cultura e da história caboverdianas. Pretendem os mesmos ser um pequeno e modesto subsídio às actuais discussões sobre a capitalidade cultural, despoletadas a pretexto das comemorações oficiais do centenário do nascimento da geração claridosa.

Breves anotações sobre o contexto histórico
da emergência das rivalidades entre S. Vicente e a Praia

Em 1856, tem lugar a primeira edição do romance O Escravo, do português radicado e caboverdiano adoptivo José Evaristo de Almeida. Considerado o primeiro romance de temática caboverdiana, O Escravo testemunha, em estilo romântico-realista, tanto as atribulações de um amor condenado pelas barreiras de raça e de classe como a formação de uma sociedade com identidade própria, crioula, prestes a se desembaraçar da escravocracia e dos seus resquícios ideológicos e racialistas.
O essencial do enredo do romance O Escravo decorre, curiosamente, no ano de 1835 num cenário próximo de Monteagarro, lugar onde teve lugar a preparação da malograda insurreição anti-escravocrata protagonizada por um grupo de escravos liderados por Gervásio, Narciso e Francisco. Pretendiam os mentores dessa malograda insurreição liquidar definitivamente a sociedade escravocrata, matando os senhores brancos e tomando conta da ilha de Santiago e, assim, instaurando uma espécie de Haiti caboverdiano na grande ilha. Denunciados, os cabecilhas da tentativa de insurreição foram condenados e, depois, arcabuzados, como comprova António Carreira no monumental Cabo Verde - Formação e Extinção de uma Sociedade Escravocrata e Oswaldo Osório encenou numa peça de teatro (cujo texto continua inédito em livro), no Salão Paroquial da Praia, nos heróicos e eufóricos anos setenta do século XX.
As ocorrências de Monteagarro são precedidas, em 1822, pela revolta dos Engenhos, a qual inaugura, na sequência da revolução liberal portuguesa e da independência do Brasil, um ciclo de revoltas (do contingente açoriano, de inspiração miguelista, de 1835, e retratada no romance O Escravo, da Achada Falcão de 1842, de Ribeirão Manuel, de 1910). Estas e outras dissenções sociais, como as ocorrências de Santo Antão de 1886, marcam de conflitualidade o período da desagregação da sociedade escravocrata e os tempos de emergência do liberalismo monárquico e, depois, do republicanismo, de clara marca nativista em Cabo Verde.
É nesses e nos tempos imediatamente precedentes que emergem ou/se consolidam as sagas dos Valentes de Julangue e de Lázaro, o salteador. Relembre-se, neste contexto, que a lenda relacionada com esta última personalidade foi ficcionada por João de Deus Lopes da Silva na novela homónima, publicada na revista Fragmentos. Anote-se que é também da autoria de João de Deus Lopes da Silva a novela "Revolta de Ribeirão Manuel" também publicada na revista Fragmentos.
O lugar inseguro para o poder colonial em que se transformou a ilha de Santiago nesses anos de oitocentos, insegurança ainda mais agravada devido à relativa desafectação política das elites políticas e possidentes dessa ilha, constituirá o mais importante pretexto que motivará os esforços da Coroa portuguesa no sentido de encontrar uma nova, abrigada e estabilizada capitalidade na ilha de S. Vicente. O interesse por essa ilha é suscitado, para além do mais, por nela se situar o mais importante porto natural de águas profundas de todo o Médio Atlântico. Como explica António Leão Correia e Silva no seu esplêndido Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo, uma nova conjuntura internacional concede um valor acrescido à ilha de S. Vicente e ao seu Porto Grande. Essa nova conjuntura internacional é marcada pela potenciação de novas fontes de energia, designadamente o carvão, e pelo aparecimento de novas tecnologias para a navegação de longo curso, bem como pela independência das nações sul-americanas na sequência da quebra da posse colonial ibérica nesse subcontinente, onde o Império Britânico, à cata de matérias primas e de mercado para a sua pujante indústria, começava a perfilar-se como potência económica dominante. A alegada insalubridade do clima da Vila da Praia nos tempos pantanosos das as-águas será, todavia, o argumento decisivo e definitivo, publicamente utilizado, quer para justificar a (des)localização da capital, marcada pela intermitência e pela itinerância por várias Vilas espalhadas pelas ilhas, quer para sustentar a argumentação da mudança definitiva da capital da Vila da Praia para um Mindelo localizado no futuro, porque ainda por edificar.
Além disso e depois da perda do Brasil, a ilha de S. Vicente afigura-se às mentes da Rainha Dona Maria II, do Ministro Visconde de Sá da Bandeira e de Joaquim Pereira Marinho, o Governador de Cabo Verde na altura, como lugar de superação de uma escravocracia em ruínas, cuja morte definitiva em 1878 seria decretada em 1869, e de renovação de um colonialismo esfusiante de propósitos liberais e “civilizadores” na sua estratégia de expansão e de construção de novos Brasis em África. Como sustenta António Leão Correia e Silva, no acima referenciado Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo, e João Nobre de Oliveira, em A Imprensa Cabo-Verdiana, São Vicente é agora pensado como entreposto comercial e lugar de localização das indústrias transformadoras de matérias primas a arrecadar na costa vizinha africana, sobretudo no território da Guiné, distrito integrante, até 1979, da província de Cabo Verde, enquanto “colónia da colónia”.
Relembre-se que, anteriormente e sob o impulso de António Pusich, foram empreendidas várias tentativas de povoamento da ilha, até então utilizada como porto de abrigo de barcos de potências adversárias, refúgio de piratas e ilha-montado, na pertinente expressão do historiador António Leão Correia e Silva, para onde os proprietários de Santo Antão e de S. Nicolau mandavam apascentar os seus animais, praticavam contrabando e colhiam ilegalmente urzela.
Foram os casos das tentativas empreendidas pelo morgado foguense João Carlos de Afonseca, em 1795, e Pedro Machado de Miranda, em 1814. O morgado morreu na miséria depois do rotundo fracsasso do seu empreendimento. A segunda tentativa de povoamento teve melhor sucesso. Dela resultou uma pobre aldeia de pescadores, situada à boca do Porto Grande como débil parceira da pétrea solidão do Monte da Cara.
Na sequência desses desaires, chega-se, depois, a alvitrar um povoamento exclusivamente branco para a mesma ilha de S. Vicente.
As várias tentativas de povoamento da ilha fracassaram, absoluta ou relativamente, porque, promovidas com base em pressupostos agrários, foram confrontadas com a notória escassez de recursos hídricos capazes de sustentar a subsistência dos povoadores e de uma economia agrícola, agro-mercantil ou mesmo agro-pecuária de subsistência, como ocorrera nas ilhas de Santiago e do Fogo, de povoamento mais antigo, ou nas ilhas de S. Nicolau, Sto Antão, Brava ou Boavista, ocupadas na segunda fase do povoamento das ilhas, como esclarecer António Correia e Silva em Histórias de um Sahel Insular.
Goradas tanto as tentativas de povoamento da ilha, incluindo o povoamento branco, como a decretada ascensão da sua imaginada e futura cidade do Mindelo à capitalidade político-administrativa, conforme previa o Decreto de Sá da Bandeira de 1838 (curiosamente o ano em que a Praia ascende à categoria de Vila), a ilha de S. Vicente povoar-se-á final e definitivamente de caboverdianos de origens sociais diversas e de todas as ilhas, com destaque para as de Barlavento, reforçados por portugueses, judeus sefarditas e súbditos britânicos, todos reunidos à boca do Porto Grande e dos depósitos carvoeiros introduzidos pelo inglês John Rendall a partir de 1850.
É assim que a povoação do Mindelo (antigamente denominada povoação de D. Rodrigo e, depois, de Dona Leopoldina) ascende à categoria de Vila, em 1858, conjuntamente com Bissau (capital do distrito da Guiné, então dirigido por um governador dependente do Governo Geral da Província de Cabo Verde, sedeado definitivamente na Praia, desde 1855) pelo mesmo Decreto régio que promove a Praia, detentora da categoria de Vila desde 1838, a Cidade.
As nascentes desavenças em torno da capitalidade político-administrativa saldar-se-ão por um empate técnico, quando a vila do Mindelo, agora pujante e economicamente dinâmica, é final e definitivamente promovida a cidade em 1878. Mesmo sem lograr tornar-se sede do poder administrativo da colónia, a urbe do Porto Grande consagrar-se-á, no decorrer da segunda metade do século XIX, como “pulmão económico de Cabo Verde”, enquanto seu principal centro económico-comercial, e, no dizer de Manuel Lopes, como “janela aberta ao mundo e aos ventos da civilização”, devido ao papel preponderante que o seu porto desempenha na encruzilhada das rotas marítimas entre três continentes (antes de ser suplantado, nos anos noventa de oitocentos, pelos portos de Dakar e das Canárias). Correlativamente, a cidade do Mindelo converte-se em foco de convergência de migrantes, em busca de trabalho e de outros biscaites propiciados por uma cidade-porto, e de negociantes sazonais de outras ilhas, fornecedores dos produtos agro-pecuários de que careciam tanto a população, residente numa ilha hidricamente marcada pela esterilidade, como também os inúmeros barcos surtos no porto. A par disso, o Mindelo transforma-se, a pouco e pouco, em polo de atracção das elites económicas, oriundas sobretudo das ilhas do Barlavento. A isso acrescem, para além de outra população flutuante, a estadia temporária de emigrantes europeus e asiáticos a caminho das Américas, a instalação do pessoal dos corpos técnicos e administrativos do cabo submarino e de importantes companhias telegráficas, inglesas e italianas, bem como funcionários e agentes de representações consulares de vários países. A fisionomia da população da urbe em acelerado crescimento é marcada assim por um inusitado cosmopolitismo e um variegado cromatismo racial.
Os desenvolvimentos acima referenciados marcariam duradouramente a vida cultural cabo-verdiana, pendular e competitivamente bicéfala entre a cidade da Praia e a cidade do Mindelo, os seus centros culturais mais importantes a partir dos anos trinta do século XX.

As vicissitudes histórico-sociais da capitalidade cultural,a itinerância administrativa e a preponderância praiense
Com efeito, a itinerância administrativa e a multipolaridade cultural, que se despoletaram com o progressivo abandono, a partir dos fins do século XVIII, do berço da cultura e da intelectualidade caboverdiana, a antiga cidade da Ribeira Grande de Santiago (doravante chamada Cidade Velha), carimbaram com a sua marca característica o século XIX caboverdiano e o seu liberalismo monárquico, tendo-se prolongado até à mudança definitiva da capital para a cidade da Praia, de facto em 1855 e de jure em 1858, e arrastado pelos tempos da agonia da monarquia até à implantação da República, em 1910.
Contemporizando com esse estado de coisas, a Cidade da Praia marcara com a sua hegemonia cultural os períodos germinal e áureo da imprensa caboverdiana. Essa marca começara por se configurar, em 1855, com a fixação definitiva da capital na Praia e com a tranferência para a mesma da Escola Principal do Ensino Primário, depois de, em 1845, ter sido fundada e ter funcionado na ilha Brava. Segue-depois, em 1860, a instalação na nova cidade do Lyceo Nacional, o primeiro de Cabo Verde.
A preponderância praiense sofre um duro golpe com a transferência para a ilha de S. Nicolau quer da Escola Principal do Ensino Primário, quer ainda da sede da Diocese de Cabo Verde. Dessa última transferência resulta a consequente instalação do Seminário-Liceu na ilha de S. Nicolau e a emergência desta mesma ilha como um dos pólos da primeira expressão das bicefalia cultural caboverdiana, então dividida entre a cidade da Praia e a Vila da Ribeira Brava. Apesar de partilhar a preponderância cultural com a ilha de S. Nicolau, o papel da cidade da Praia torna-se cada vez mais visível com a fundação, em 1877, de O Independente, o primeiro jornal privado cabo-verdiano, a que se seguem todos os outros jornais, privados, publicados em Cabo Verde até 1899.
Para além disso, é na cidade da Praia que, na altura, se concentram os mais relevantes círculos culturais e gabinetes de leitura bem como as mais importantes infra-estruturas culturais, como a Imprensa Nacional, a Biblioteca-Museu Nacional e o Teatro Africano.
É, por isso, que, como se lê em A Formação da Nação Cabo-verdiana-Análise da Imprensa entre 1877 e 1975, de Manuel Brito Semedo, é na Praia que tem lugar a primeira impressão de livros em terras cabo-verdianas, designadamente dos livros de poemas Mal de Amor e Santificação do Beijo, de Eugénio Tavares, que são editados em 1916.
É também na Praia que se despoleta o modernismo cultural (literário e plástico) com a publicação do livro Diário, de António Pedro, o qual ostenta um desenho de Jaime de Figueiredo, intelectual que prega um modernismo de forte inspiração presencista, e, em 1931, cria, com Jorge Barbosa, João Lopes, Francisco Torres e Julião Quintinha (metropolitano de passagem por Cabo Verde), o grupo Atlanta, o primeiro grupo (ou “tertúlia”, como prefere Arnaldo França) caboverdiano assumidamente modernista.


A emergência do Mindelo como centro cultural

O papel cultural do Mindelo começou a delinear-se a partir dos fins do século XIX, com a publicação nessa cidade, de vários jornais, de entre os quais o célebre Revista de Cabo Verde, fundado em 1899 por Luís Loff de Vasconcellos, seu proprietário e director. Esse primeiro jornal sanvicentino conta com a colaboração do próprio Luís Loff de Vasconcellos bem como de Eugénio Tavares, José Lopes e outros proeminentes intelectuais nativistas.
Fortemente apoiada por esse jornal e pelos seus articulistas bravenses Eugénio Tavares e Luís Loff de Vasconcellos (autor de livros e outros textos desassombrados como Memorial do povo da Ilha de s. Vicente de Cabo Verde, A Exterminação de Cabo Verde - Pavorosas Revelações e A Perdição da Pátria, para além da obra ficcional Ecos de Aldeia) na defesa do seu porto e de outros interesses como ilha caboverdiana bem como nas suas reivindicações e pretensões de mudança em seu favor da capital da província, a cidade do Mindelo perfilar-se-á, depois, como culturalmente preponderante quando consegue que o Liceu criado, em 1917, na sequência da extinção, em 1916, do Seminário-Liceu de S. Nicolau, fosse localizado no seu território. Essa localização fica a dever-se em grande medida à acção de Augusto Vera- Cruz, senador da República portuguesa, nascido na ilha do Sal e estabelecido no Mindelo como grande comerciante. Com efeito, o senador Vera-Cruz pôs a sua vivenda da Praça Nova à disposição das autoridades para a instalação do novo estabelecimento de ensino.
A localização no Mindelo do recém-criado Liceu veio contrariar os insistentes pedidos das elites praienses, simbolizadas em João de Deus Tavares Homem (o caboverdiano mais rico da altura), pedidos esses fundamentados no passado da Praia como sede do primeiro Liceu de Cabo Verde, nos pergaminhos da mesma como capital da província, para mais detentora de maior dinâmica cultural por essa época áurea da imprensa republicana e situada numa ilha (Santiago) e numa região (o Sotavento) onde se concentrava a maior parte da população caboverdiana. Grande revés sofre também S. Nicolau, ilha, , aliás, para a qual esteve primeiramente prevista a instalação do novo templo do saber que viria substituir o seu Seminário-liceu, ainda segundo Manuel Brito Semedo, constou expressamente do diploma legal que instituiu o liceu.
A partir da fundação do seu Liceu, em 1917, a cidade do Mindelo consagrar-se-á também como lugar de relativa democratização do ensino secundário, como, em 1952, constata Amílcar Cabral no Boletim Cabo Verde (“Breves apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana”), e, com a implantação da Escola Técnica, de acesso à formação técnico-profissional.
A par disso, o Mindelo vai consolidando o seu papel de lugar de convergência de letrados (e das suas memórias, experiências e vivências insulares originárias) e de centro de efervescência cultural.
A criação do liceu Infante Dom Henrique assinala outrossim o duradouro crepúsculo socio-cultural de outros centros e ilhas do Barlavento caboverdiano, como S. Nicolau, Boavista e Santo Antão. Essas ilhas, que se vêm juntar à vila de Nova Sintra da Brava e a que, em certa medida, acresce a cidade da Praia de Santiago, foram sucessivamente alienadas e despojadas das suas funções políticas, judiciais, culturais e/ou económicas em favor de S. Vicente, muito favorecida pelas dinâmicas económicas e sociais suscitadas pelo seu Porto Grande. Anote-se que, posteriormente as elites da s ilhas do Barlavento passaram a rever-se, em grande medida, em S. Vicente, ilha com a qual as suas elites passaram pragmaticamente a identificar-se, nela por vezes se estabelecendo e aos seus negócios. Essa identificação ocorre depois de alguma relutância inicial em ver criada uma cidade naquilo que, até então, consideravam como sua coutada para a criação pecuária. Muito ajudava ao estabelecimento e à plena adaptação dos recém-chegados o facto de a cidade e a sua população se encontrarem em processo urbano de edificação sociológica e de construção de uma identidade própria, nas quais os oriundos de todas as ilhas e proveniências podiam participar na busca de um lugar ao sol, mesmo que modesto para não dizer mísero. Ponto é que renunciassem à ostentação da sua identidade insular originária, se deixassem absorver pelas solicitações da nova ilha caboverdiana em construção, também identitária, e se envolvessem e identificassem com os seus interesses e propósitos. Propósitos cada vez mais alinhados na busca de uma centralidade rival à da cidade da Praia e da ilha de Santiago, doravante identificadas com atraso cultural (porque alegadamente sinónimo de maior negro-africanidade), conservadorismo social e parasitismo administrativo.Correlativamente, passaram os habitantes e originários da ilha de Santiago a ser pejorativamente apodados de badios. Relembre-se que esse termo, com o qual actualmente os habitantes de Santiago se identificam plena, orgulhosa e reivindicativamente, é etimologicamente originário do vocábulo português "vadio", utilizado inicialmente para desqualificar os negros fujões e os pretos forros de todas as ilhas habitadas, então avessos e renitentes à clausura escravocrata e resistentes à submissão a uma economia capitalista de plantação que viesse substituir a economia escravocrata, como ocorrera, por exemplo, em S.Tomé e Príncipe, no Brasil ou nas Caraíbas.A fundamentação culturalista da suposta "exemplaridade negativa" e da ostracização cultural de Santiago (em especial do seu interior) bem como de uma alegada dicotomia sociológica entre o Barlavento e o Sotavento foi largamente empreendida por alguns claridosos e seus contemporâneos, com destaque para João Lopes e Baltasar Lopes da Silva, pesem embora duas importantíssimas circunstâncias, nomeadamente:
a) o indisfarçável fascínio de Baltasar Lopes da Silva pelo folclore poético da ilha maior e a sua preferência pelo crioulo de Santiago como base da construção de um padrão literário em crioulo;
b) a atenção de João Lopes pela rebeldia dos negros da grande ilha, anteriormente acusados de serem portadores de complexos de inferioridade por alegadamente serem produtos de uma sociedade patriarcal latifundiária, tendo, por isso, alegadamente beneficiado menos da miscigenação biológica e cultural ocorrida no Barlavento minifundiário. As teses da dicotomia sociológico-cultural caboverdiana e da alegada e única diluição de Àfrica na configuração da crioulidade caboverdiana foram, como é sabido, severamente atacadas no célebre ensaio Consciencialização na Literatura Cabo-verdiana, de 1963. Elas foram recentemente retomadas no ensaio "Subsídios para a regionalização em Cabo Verde", constante do livro A Democracia em Cabo Verde, de Onésimo Silveira, que as reclica para fundamentar uma alegada superioridade cultural do Barlavento (depois supostamente consolidada no Mindelo) sobre um Sotavento, considerado sulista e agrário.
Anote-se que o Liceu Infante Dom Henrique muda mais tarde de nome para Liceu de Gil Eanes. Tal mudança ocorre depois da extinção do mesmo liceu, em Outubro de 1937, e sua refundação doze dias depois, a nove de Novembro (curiosamente, em conjunção com a criação da Escola Comercial e Técnica do Mindelo e da Escola Agrícola de S. Jorge dos Órgãos, em Santiago). Decisiva para essa reabertura foi a reacção pronta das autoridades provinciais e locais e dos protestos uníssonos da muito activa sociedade mindelense, representada pela Associação Comercial, Industrial e Agrícola do Barlavento, pelos Falcões de Cabo Verde, de Bento de Oliveira, bem como pelos Promotores da União Nacional, como elencam João Nobre de Oliveira, no monumental A Imprensa Cabo-verdiana, e Manuel Brito Semedo na obra supra-referenciada.
A instituição do Liceu em S. Vicente assegurará uma predominância da cidade do Mindelo nas dinâmicas literário-culturais caboverdianas que se prolongará pelo período situado entre os anos trinta e os anos cinquenta do século XX. Essa preponderância literáro-cultural opera-se doravante no quadro de uma bicefalia cultural marcada pela rivalidade entre a cidade portuária nortenha e a capital administrativa de Cabo Verde.
Relembre-se que com o desaparecimento da República, esgotada em crises e dissenções várias, e a emergência do Estado Novo num Portugal agora entendido, nos termos do Acto Colonial, de 1930, como “uno e indivisível”, “de Minho a Timor, são sufocadas as vozes nativistas outrora concentradas na cidade da Praia, à volta de vários jornais, com destaque para os rivais A Voz de Cabo Verde e O Futuro de Cabo Verde, e também sonantes em outras ilhas, como S. Vicente e o Fogo, onde Pedro Cardoso cria o Manduco. Por outro lado, são liquidadas no ovo todas as tentativas de reforma ou de rebeldia contra o estado crísico das coisas, como comprovaram tanto a não autorização de uma União Regionalista Cabo-Verdiana, projectada em 1932, em S. Vicente, como a repressão da revolta de 1934, contra a miséria e a fome, consubstanciada nos assaltos aos armazéns alfandegários e privados de géneros alimentícios e liderada pelo marceneiro Ambrósio. Deportado para Angola, Ambrósio é depois mitificado por Gabriel Mariano no poema "Capitão Ambrósio", de fortes ressonâncias épicas, e ficcionalmente recuperado por vários escritores caboverdianos que passaram pela cidade nortenha.
Os efeitos despoletados pelo Liceu na atracção de professores e outros letrados instruídos esssencialmente no Seminário-Liceu de S. Nicolau, na formação dos aprendizes de intelectuais que eram os seus estudantes e de um público leitor, interessado, esclarecido e constituído maioritariamente por funcionários públicos, empregados comerciais, membros de profissões liberais e de outras elites económicas e sociais, bem como as suas repercussões na apreensão para as temática literárias e para as reinvenções musicais e outras reelaborações culturais da ilha de S. Vicente e das vivências das suas e de outras gentes chegadas de outras ilhas, bastas vezes nhanhidas ainda que inundadas de alegria carnavalesca, somam-se àqueles induzidos por uma centralidade económica que girava à volta do Porto Grande e dos seus ciclos crísicos, tornados crises crónicas a partir da superação das suas vantagens comparativa pelos mais competitivos portos das Canárias e de Dakar.
A nascente primazia literário-cultural do Mindelo fica atestada na existência do jornal Notícias de Cabo Verde (o mais longevo jornal cabo-verdiano (1931-1962) do período colonial), nas primeira, segunda e terceira séries da revista Claridade (de 1937 a 1838, de 1947 a 1949, de 1958 e 1960, respectivamente) e nas folhas estudantis e juvenis que intermitentemente iam surgindo. São os casos de :
a) Juventude, em 1936, folha liceal que assinala o nascimento de Teixeira de Sousa para a vida literária;
b) Certeza, em 1944, revista que marca o surgimento da segunda vaga claridosa, ao mesmo tempo que indicia a Nova Largada com o “poema de amanhã”, de António Nunes;
c) Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes, em 1959, o qual marca o baptismo poético de Corsino Fortes e as repercussões do nacionalismo político na geração mobilizada por Abílio Duarte em torno do Grupo Cultural do Terceiro Ciclo;
d) Seló, suplemento literário do jornal Notícias de Cabo Verde, criado em 1962, sob influência e com o apoio de Manuel Duarte e que marca as estreias literárias de Oswaldo Osório, Rolando Vera-Cruz Martins e Jorge Miranda Alfama e tem a colaboração de Maria Margarida Mascarenhas, Mário Fonseca e Arménio Vieira, anteriormente revelados no Boletim Cabo Verde.


O Notícias de Cabo Verde, o mais longevo jornal caboverdiano de todos os tempos

O mais importante jornal caboverdiano desses primeiros tempos pós-republicanos, o sanvicentino Notícias de Cabo Verde, reflecte os tempos crísicos do Mindelo e do Cabo Verde da altura ao mesmo tempo que funciona como porta-voz de uma pretensão de liderança e de primazia no quadro provinciano caboverdiano. O sempre afirmado cosmopolitismo dos sanvicentinos, alegadamente de feição ocidental, e a mal digerida questão da capitalidade da Praia, exacerbada por um alegado parasitismo das outras ilhas caboverdianas e da capital da província à volta das receitas do Porto Grande marcam especialmente as intervenções deste jornal.
(Breve parêntese. “A Praia come no prato sanvicentino”, exclamaria recentemente o santantonense António Jorge Delgado, paladino europeísta das ilhas macaronésicas (todas as ilhas antigamente ditas sampadjudas com a óbvia excepção de Santiago) e convicto e confesso detractor da ilha da capital ( desconsiderada antigamente como badia, e, actualmente, como a única africana). Nessa nova visão, pode o antigo ministro da cultura contar com o inestimável apoio teórico e as correcções tácticas do seu rival das eleiçoes autárquicas, Onésimo Silveira, mais afiladas com uma contraposição sociológico-culturalista entre o Barlavento nortenho, considerado culturalmente mais avançado, e o Sotavento sulista, tido por mais atrasado).
Tal postura surge, aliás, em conformidade com os pontos de vista de várias personalidades mindelenses da época, como Francisco Xavier da Cruz (B. Lèza), João Cleofas Martins (Nho Djunga), os irmãos Duarte da Silva ou Manuel (Leça) Ribeiro de Almeida, proprietário e director do jornal, em defesa da divisão de Cabo Verde em dois distritos directamente dependentes do Governo Central metropolitano. A defesa dos interesses da província, muito centrados na necessidade da modernização do Porto Grande e na criação de alterrnativas para debelar as fomes e outras crónicas crises caboverdianas, caminham a par da reivindicação de um estatuto da adjacência a Portugal, idêntico ao estatuto da Madeira e dos Açores. Do mesmo modo, a reivindicação da crioulidade caboverdiana caminha a par da reiteração da necessidade da desafricanização político-cultural de Cabo Verde e da reafirmação da portugalidade das ilhas achadas pelos portugueses e que melhor comprovariam a excelência da colonização lusitana e da capacidade civilizacional insíta no “mundo que o português criou”.

O Notícias de Cabo Verde começou por coexistir, nos anos trinta, com outros jornais, como os praienses Eco de Cabo Verde e Mocidade Cabo-Verdiana, o Ressurgimento santantonense, A Defesa sanicolauense, para depois passar a existir quase solitariamente por um largo período, nos fins dos anos trinta e nos anos quarenta do século XX. . Embora detentora das oficinas nas quais são impressas o Notícias de Cabo Verde, a revista Claridade, o primeiro número da revista Certeza bem como outros boletins culturais sanvicentinos e jornais do Barlavento, o livro Arquipélago, de Jorge Barbosa (chancela das Edições Claridade), a Sociedade de Tipografia e Publicidade, Lda, não logra suplantar as gráficas sedeadas na capital da província no que respeita à edição de livros. É assim que os dois derradeiros números da revista Certeza, o livro Ambiente, de Jorge Barbosa, o livro Devaneios, de António Nunes, as Memórias e Reflexões, de Juvenal Cabral, os Cadernos Luso-Cabo-Verdianos, de Pedro Cardoso, Cabo Verde visto por Gilberto Freyre, de Baltasar Lopes da Silva, Cabo Verde e a sua Gente, de Teixeira de Sousa, as noveletas de António Aurélio Gonçalves, entre outras publicações, são impressos e dados à estampa na Praia pela Imprensa Nacional e pela Minerva de Cabo Verde, nesses anos trinta, quarenta e cinquenta de grande carestia editorial.

O lugar da revista Claridade e o seu contexto histórico-cultural

A fundação das revistas Claridade e Certeza é, em regra, considerada a prova mais evidente da efervescência literária mindelense.
Anote-se que a efervescência despoletada pela revista Claridade é largamente tributária de circunstancisalismos da mais diversa índole, com destaque para:
a) o magistério intelectual do Seminário-Liceu de S. Nicolau, onde se formou uma parte dos seus mentores, promotores e colaboradores(como Jaime de Figueiredo, Baltasar Lopes da Silva ou António Aurélio Gonçalves);
b) as experiências nativistas na defesa dos interesses da terra e na reivindicação de uma cidadania que, querendo-se plenamente portuguesa, se movimentava no âmbito da “cissiparidade pátrida” (na terminologia de Manuel Ferreira) da ambivalência da dupla lealdade à “pátria monumental portuguesa” (na expressãode Gabriel Fernandes) e da mátria caboverdiana crioula.
Nesta óptica, e tendo em conta os constrangimentos advenientes de um tempo de bloqueio, censura, policiamento político e reafirmação contundente do carácter imperial da noção salazarista da nação portuguesa como vocacionada para “civilizar” (asssimilar) os povos coloniais sob o seu domínio, os claridosos preferiram transferir a sua escrita do plano do jornalismo reivindicativo para o plano da construção de uma regionalidade literária caboverdiana, sintonizada com a revolução estética despoletada pelo modernismo presencista e alumbrada pela telurização temática brasileira nordestina e pelos realismos norte-americano, russo, francês e português.
No plano das concepções político-culturais, os claridosos permaneceram no campo do ideário nativista da adjacência política e cultural a Portugal. Dão-lhe, todavia, fundamentações novas e de efeitos contraditórios, como ocorrem com as teorias de Baltasar Lopes relativas à única “diluição de África” na formação da nossa crioulidade e ao primordial papel do caboverdiano como arquitecto principal na estruturação e na autonomização cultural da sociedade das ilhas bem como na criação da principal componente da sua identidade regional, o idioma caboverdiano.
As reivindicações adjacentistas protagonizadas ou induzidas pelos claridosos, voluntaria ou involuntariamente mutiladas da componente autonomista, representam, de certo modo, um retrocesso em relação aos nativistas, e entram em colisão quer com as afirmações da plena originalidade crioula da cultura caboverdiana, mesmo quando esta é interpretada como um caso de regionalismo cultural europeu, quer com as repercussões objectivamente nacionalizantes e emancipalistas provocadas pela obra literária por eles arduamente construída.
A plena caboverdianização temática, de carácter exclusivista e excludente de outros e diferentes olhares literários sobre o ser caboverdiano, culmina e reflecte-se na invenção de um português literário, o qual, ainda que esteticamente artificioso, se aproxima mais das mundivências do “caboverdiano anónimo, humilde, meu irmão”.
Para além de proclamação da independência literária caboverdiana (para fazer uso de uma feliz expressão utilizada por Aristides Pereira por ocasião das comemorações do cinquentenário da revista Claridade), tais estratégias político-literárias consubstanciam uma relevante, porque fracturante, deriva literária do nativismo (como fundamenta Onésimo Silveira no ensaio “O Nativismo cabo-verdiano: o caso de Amílcar Cabral”).
Anote-se neste contexto que, a par da sua obra cívica e da sua poética, diversamente conjugadora do hesperitanismo, do romantismo e do patriotismo camoneano, republicano e lusitano-crioulo (na expressão de José Carlos Gomes dos Anjos), os nativistas deram um contributo de valor para a teluricização e a crioulização da literatura caboverdiana, como se verifica em vários poemas, romances e outra obra narrativa , ficcional e dramatúrgica dados à estampa por José Evaristo de Ameida, Guilherme Dantas, Luis Loff de Vaconcellos, Félix Lopes da Silva, António de Arteaga, Eugénio Tavares, José Bernardo Alfama, João José Nunes, Juvenal Cabral, entre outros. A poesia em crioulo de vários nativistas, com destaque para a de Eugénio Tavares, e os estudos ensaísticos de António da Paula Brito, Pedro Cardoso, entre outros, denotam de forma insofismável, o desejo e a praxis de sintonização literária com o homem e a terra caboverdianos, mesmo se fazendo uso, por vezes com provinciano atraso, dos recursos linguísticos e das técnicas da linguagem então disponíveis no mundo ocidental e na sua periferia caboverdiana. Relembre-se, aliás, que também os claridosos, os nova-largadistas e os novíssimos de todas as épocas literárias fizeram uso dos meios linguísticos e estéticos disponíveis no seu tempo para falar de coisas nossas ou para nós, de alguma forma, relevantes.
c) A disponibilização dos meios estéticos ocorrida das dinâmicas despoletadas por processos anteriores de divulgação modernista protagonizada pelo grupo Atlanta, fundado na Praia, por Jaime de Figueiredo, Jorge Barbosa, João Lopes e Henrique Torres, a que acresce a cumplicidade solidária do português Julião Quintinha, de passagem pelas nossas ilhas.
Esses processos surgem na sequência da publicação, em Portugal das revistas Orfeu e Presença e da edição, em 1929, na Praia, do livro de poemas Diário, de António Pedro Costa. Este último livro marca a fundação do modernismo poético caboverdiano, sendo, por isso, justo considerar o seu autor como o principal precursor contemporâneo do modernismo telúrico claridoso. Relembre-se que foi intenso e altamente profícuo o convívio entre o modernista luso-caboverdiano António Pedro (mais tarde surrealista notável e proeminente Homem-Teatro de Portugal) e o presencista Jaime de Figueiredo. Tanto assim é que Jaime de Figueiredo concebeu a capa do Diário, no qual estampa, em figuração verde-ouro, uma mulher tipica das ilhas, enquanto que António Pedro o faz entrar com algumas obras pictóricas (algumas depois reproduzidas em A Casa dos Mastros, de Orlanda Amarilis) no metropolitano Salão dos Independentes. Jaime de Figueiredo terá sido o mais importante promotor do modernismo (de feição presencista ) nesse Cabo Verde dos anos vinte e trinta do século vinte. A sua erudição torna-o no mais importante ensaísta da poesia caboverdiana desses tempos tardo-coloniais como comprovam as suas incursões pela obras de Osvaldo Alcântara e António Nunes ou o seu prefácio à Antologia dos Modernos Poetas Cabo-Verdianos, de 1961, por ele organizada.
Importante papel na promoção da necessidade da incorporação do modernismo na literatura caboverdiana desempenhou, segundo Manuel Ferreira, a pugna de Quirino Spencer Salomão contra o classissismo de Pedro Cardoso e José Lopes, nativistas muito avessos ao bolchevismo literário que para eles seria o modernismo poético. Eles que faziam profissão de fé pelo poeta como técnico do verso construido à medida do metro e da rima e embebido de grandiloquência e classisismo greco-latinos.
Como refere Manuel Ferreira na “Introdução” à edição fac-similada da revista Claridade, datada de 1986, também relevantes são as experiências modernistas empreendidas nesses princípios dos anos trinta por vários poetas caboverdianos, como Jorge Barbosa ou Manuel Serra. Nessas experiências releva a conjugação da liberdade psicológica do sujeito poético com uma linguagem marcada pelo desprendimento rítmico nascido dessa liberdade do poeta, pela superação da grandiloquência vocabular e da retórica neo-classissizante bem como pela transitória manutenção de formas fixas como o soneto ou a rima.
A plena transição para um telurismo versilibrista, de feição claridosa, ocorre pela primeira vez com a publicação de Arquipélago, de Jorge Barbosa, livro em cuja badana Jaime de Figueiredo escreve um curto, mas memorável, texto de exaltação da singularidade atlântica e da originalidade antropológica da cultura caboverdiana.
Na prosa narrativa, relevam as experiências de Manuel Lopes, fixadas, em 1932, em “Paúl”, e os excertos do romance Chiquinho que Baltasar Lopes publica, ainda em 1935, na imprensa metropolitana.
A dinâmica claridosa ocorre, outrossim, pelo activismo de intelectuais originários de várias ilhas como resposta cívica e literária a um tempo de crises várias:
a) crise da navegação, a qual ameaçava hipotecar duradouramente o futuro periclitante do Porto Grande;
b) crise das as-águas que dizimava as populações das ilhas;
c) crise da emigração, quando, interditada a entrada de negros e analfabetos nos Estados Unidos da América, se fecham todas as portas da salvação caboverdiana, salvo as que conduziam para as terras do Sul, úberes de verde tragédia.
Anote-se a origem santiaguense de Jorge Barbosa e a origem sanicolauense de (para além de Pedro Corsino Azevedo) Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes e João Lopes, os claridosos-fundadores. Se bem que, no caso de Manuel Lopes, se deva ter em conta que ele se assumia convicatamente como sanvicentino, pois que nascido, por vicissitudes familiares, em S. Nicolau, ilha de onde era originária a mãe, foi na ilha do Porto Grande que foi registado e baptizado e onde formou a sua personalidade humana. Aliás, o autor de Os Flagelados do Vento Leste, Chuva Braba, O Galo Cantou na Baía, Poemas de quem Ficou e Crioulo e outros Poemas assume, em entrevista a Danny Spínola, como preponderante na sua cosmovisão caboverdiana um inequívoco triângulo S. Nicolau, S. Vicente e Santo Antão.
Anote-se ainda ainda que, na altura da fundação da revista Claridade e da saída a público da sua primeira série de 1936/37, o tardo-claridoso António Aurélio Gonçalves encontrava-se fixado em Lisboa, onde, à semelhança de muitos nativistas da velha guarda e outros mais jovens, como Júlio Monteiro Júnior, Baltasar Lopes da Silva ou, até, o finalista liceal Félix Monteiro, colaborava em jornais pan-africanistas. António Aurélio Gonçalves só regressaria a Cabo Verde nos fins dos anos trinta, depois de quase vinte anos de ausência. Tal como Teixeira de Sousa, Aguinaldo Fonseca e alguns próceres da revista Certeza, como Nuno Miranda ou Arnaldo França, o futuro e emérito autor das noveletas mindelenses só iniciará, em 1947, a colaboração na Claridade, a partir da sua segunda série (de 1947/48/49), e só iniciará a publicação das suas noveletas a partir do número cinco de 1948. Toda a sua obra ficcional dada à estampa no tempo colonial será publicada pela Imprensa Nacional da Praia.
Como é sabido, a revista Claridade viria a agregar nas suas páginas sucessivas gerações de escritores caboverdianos, os quais se iam revelando em publicações várias, com destaque para as revistas Certeza e Boletim Cabo Verde.
Deste modo, a revista torna-se cada vez mais eclética, do ponto de vista estético-ideológico, embora conservando a primacial matriz modernista, e cada vez mais abrangente, do ponto de vista temático, das vivências de ilhas, como Santiago e o Fogo, não incorporadas ficcionalmente na sua primeira série. Relembre-se que na poesia, o estro de Jorge Barbosa divagava por todas as ilhas e tragédias caboverdianas, ao mesmo tempo que no ensaio Santiago era sempre referência incontornável das reflexões de Baltasar Lopes e João Lopes sobre o nosso ser e devir histórico-culturais. A partir da segunda série Teixeira de Sousa e Félix Monteiro debruçar-se-ão longamente sobre as ilhas do Fogo e Santiago.
Deste modo, constituem-se:
a) a tardo-claridosidade de António Aurélio Gonçalves, Sérgio Frusoni ou B. Lèza (o compositor inovador e autor das letras/poemas da morna que não o autor Francisco Xavier da Cruz, o qual deve ser considerado mais próximo de um tardo-nativismo hesperitano do que do modernismo clarisoso, não só quanto às concepções bipátridas, às preocupações culturais em relação ao folclore caboverdiano como também no que respeita ao estilo e estética da sua poesia em português, muito próxima de Pedro Cardoso).
b) as novas vagas claridosas de autores provenientes das seguintes ilhas: S. Nicolau, com Gabriel Mariano; S. Vicente, com Nuno Miranda, Aguinaldo Fonseca, Félix Monteiro, Onésimo Silveira, Francisco Lopes da Silva, Sérgio Frusoni e Yolanda Morazzo; Fogo, com Henrique Teixeira de Sousa e Mário Macedo Barbosa; Santo Antão, com Tomás Martins, Guilherme Rocheteau e Vírginio de Melo; Sal com Jorge Pedro Barbosa; Santiago, com Arnaldo França e Virgílio Pires.
Outros escritores contemporâneos dessas novas vagas de colaboradores claridosos, provenientes das revistas Certeza e Boletim Cabo Verde e dos boletins liceais, permaneceram à margem da revista Claridade. Alguns, como Luís Romano, Orlanda Amarílis e Euclides Menezes, preferiram a solidão dos caminhos editoriais. Outros privilegiaram o Boletim Cabo Verde ( lugar de revelação de muitos colaboradores da revista Claridade), como Maria Helena Spencer e Pedro Duarte, e a rádio ou a clandestinidade editorial, como foi o caso de João Cleofas Martins. Alguns desses autores podem ser, aliás, considerados esteticamente claridosos de segunda vaga, em contraste com alguns colaboradores da segunda e da terceira série da revista, os quais se encontravam em plena ruptura estético-ideológica com a claridosidade na busca de uma nova largada da literatura caboverdiana. São os casos de Aguinaldo Fonseca, Gabriel Mariano, OvídioMartins ou Onésimo Silveira. Anote-se que a colaboração de Gabriel Mariano e de Jorge Pedro Barbosa na revista Claridade cingiu-se a poemas em crioulo de Santiago, estilizados a partir do cânone tradicional ínsito no folclore poético da grande ilha.

A revista Claridade ficou marcada por uma intermitência consubstanciada em nove números publicados em vinte e quatro anos. Essa intermitência, a que se seguiu o óbito da revista em 1960, ficou a dever-se, presumivelmente, aos efeitos de uma situação de bloqueio político-cultural (sobretudo a partir dos anos sessenta), a intransponíveis dificuldades financeiras (não obstante o mecenato de Manuel Velosa), bem como à dispersão dos seus colaboradores. É a situação de bloqueio político-cultural que determina a radicalização da poesia de Jorge Barbosa e a sua passagem à quase clandestinidade. A dispersão dos colaboradores marca a revista desde os seus primórdios, tendo sido ditada pelas transferências administrativas dos seus membros para outras ilhas da província e outros lugares metropolitanos, como os Açores e Lisboa no caso de Manuel Lopes. A essas transferências só escapou Baltasar Lopes da Silva (para além, é claro, de António Aurélio Gonçalves), que continuou a residir no Mindelo até à sua morte em 1989.
A intermitência da revista Claridade e a efemeridade das outras publicações literárias que se lhe seguiram no Mindelo (dois números publicados da revista Certeza (o terceiro já impresso nas oficinas da Minerva foi apreendido pelas autoridades), um número para o Boletim do Liceu Gil Eanes, um número para o Suplemento Cultural, dois números para o suplemento Seló), propiciaram o papel de referência que o Boletim Cabo Verde passou a desempenhar.
Alicerçada na detenção de importantes infra-estruturas culturais como o único Liceu de Cabo Verde, a única Escola Técnica, Industrial e Comercial e o mais importante jornal privado da província e sustentada no prestígio da revista Claridade, que mesmo na sua exasperante intermitência, continuava a funcionar como lugar raro de consagração literária, a primazia literário-cultural do Mindelo perdura, incontestável e incontestada, pelo menos, até à fundação, em 1949, na cidade da Praia, da revista Cabo Verde (denominado Boletim de propaganda e informação e dirigida pelo Dr. Bento Levy).
Ela começa a evanescer-se, na sua vertente educacional, com a criação, em 1960, do Liceu Adriano Moreira, a que antecedeu a inauguração, em 1956, do Seminário de S. José, ambos na capital de Cabo Verde.

O Boletim Cabo Verde,
a mais eclética e importante revista cultural caboverdiana do período colonial
O Boletim Cabo Verde, publicado religiosamente todos os meses do calendário, de 1949 a 1964, viria a comprovar-se como a mais importante e regular revista cabo-verdiana do período colonial. Essa qualificação advém dos seguintes factores: a) a revista pôde agregar um leque de colaboradores que, apesar do carácter oficioso da mesma enquanto órgão do governo provincial e dos inerentes compromissos com as políticas oficiais, era assaz plural e abrangente de todas as gerações e tendências político-ideológicas; b) a revista pôde constituir-se no maior e mais importante repositório do saber intelectual caboverdiano da altura e nas mais variadas áreas.
É assim que a mesma revista se transformou não só em principal órgão de colaboração de mestres pré-claridosos (com destaque para José Lopes) e de difusão da produção claridosa (sobretudo a de Jorge Barbosa), como também no mais importante instrumento de revelação das novas gerações neo-claridosas e da Nova Largada, como atestam as colaborações de Maria Helena Spencer, Teixeira de Sousa, Gabriel Mariano, Amílcar Cabral, entre muitos outros. Um grande número de autores das décadas de cinquenta e sessenta, como Maria Helena Spencer, Pedro Duarte, Jorge Pedro Barbosa, Gabriel Mariano (na vertente ficcional), Luísa Ferro Ribeiro, Virgílio Pires, Onésimo Silveira, Mário Fonseca, Arménio Vieira, Maria Margarida Mascarenhas, entre muitos outros, foi no Boletim Cabo Verde que primeiramente se revelaram.
Para mais, é no quadro do Boletim Cabo Verde que é publicado o Suplemento Cultural, revista que, no seu número único e conjuntamente com alguns números anteriores do próprio Boletim (a revista-mãe) e os dois últimos números da revista Claridade (o número oito, de 1958, e o número nove, de 1960), marca a aparição pública de alguns colaboradores da Geração da Nova Largada, cujo grupo homónimo, segundo reiterados testemunhos de José Leitão da Graça, foi criado, em 1963, em Lisboa por Manuel Duarte, Gabriel Mariano, Aguinaldo Fonseca, Ovídio Martins, José Araújo, José Leitão da Graça, Francisco Lopes da Silva, Silvia Crato Monteiro entre outros, inclusive alguns agregados mais tarde como colaboradores do Suplemento Cultural, como Yolanda Morazzo, Carlos Alberto Monteiro Leite ou José Monteiro Pinto.
Anote-se que a circunstância de na Praia se localizarem não só a a Imprensa Nacional como a tipografia privada Minerva de Cabo Verde proporciona, então, a esta cidade o papel mais proeminente na edição cabo-verdiana de livros, quer dos hesperitanos e nativistas, como Pedro Cardoso, João José Nunes ou Juvenal Cabral, quer de claridosos, como Jorge Barbosa, António Aurélio Gonçalves, António Nunes ou Baltasar Lopes da Silva, quer de novíssimos como Gabriel Mariano quer ainda de obras de referência, como a Antologia de Ficção Cabo-Verdiana, organizada por Baltasar Lopes da Silva e da qual constam um "comentário" de António Aurélio Gonçalves e uma "Introdução" de Manuel Ferreira, a Antologia da Modernos Poetas Cabo--Verdianos, organizada e prefaciada por Jaime de Figueiredo, ou Os Rabelados da Ilha de Santiago de Cabo Verde , de Júlio Monteiro Júnior .
Desaparecidos na voracidade dos tempos repressivos e na omnipresença do rosto impiedoso da polícia política e dos seus infornadores, mais conhecidos por galinhas, bem como da irredutível desconfiança (“tudo pela nação, nada contra nação”, proclama Salazar) e do desnorteamento de um Estado Novo doravante confrontado com a negação tanto das pretensões adjacentistas das elites caboverdianas, ultrapassadas pelos tempos, como do dogma da indivisibilidade da nação portuguesa e do Portugal de aquém e de além-mar, posto à prova pelas rupturas nacionalistas dos campos de batalha das guerras de libertação nacional e das hecatombes da clandestinidade e dos tarrafais do império, o Notícias de Cabo Verde e o Boletim Cabo Verde são suplantados e/ou substituídos, o primeiro em 1962 e o segundo em 1964, pelo inefável, e frequentemente execrável, jornal Arquipélago. Arquipélago que, inchado de colonial-fascista oficiosidade, ousa ostentar, de início, uma página literária, perdurando incólume até ser engolido pelos ventos de mudança e pela fúria saneadora subsequentes aos eventos despoletados pela revolução dos cravos de 1974.

Tempos de consciencialização nacionalista de intelectuais, estudantes e trabalhadores mais esclarecidos ou mais cansados da quotidiana opressão e do diário bloqueio, esses serão também tempos de muita confrontação com os tugas presentes na nossa terra (mondrongues, diz-se a norte do arquipélago), de intensa sátira social, da alegre comédia dos grupos de teatro amadores que pululam nos urbanos anos cinquenta e sessenta, da irreverência quase subversiva e frequentemente malcriada dos estudantes do liceu Gil Enes e do liceu Adriano Moreira (finalmente criado em 1960 contra o franzir do sobrolho dos supostos benefeciários do monopólio educacional e o parecer negativo de quem, de origens ruralisticamente periféricas, não se esperava (?) tal desfeita).

Do mesmo modo que os pés descalços estavam interditados de frequentar a praça (a grande, da Praia, e a nova, da morada mindelense) e as suas cobiçadas esplanadas, os candidatos à subversão político-ideológica, à fractura dos costumes coloniais ou simplesmente interessados na valorização da cultura caboverdiana tiveram que entrar no mundo do silêncio público, da clandestinidade político-literária, do exílio, da emigração, da luta armada ou da prisão ou voltar-se para áreas menos suspeitas, como, por exemplo, a música, para mais facilmente disfarçável em paródia, festa e picapada. Ressalte-se, todavia, que as manifestações musicais consideradas mais ostensivamente afro-crioulas estavam proibidas de subir à Riba Praia, e os seus cultores permanentemente ameaçados de excomunhão ou pelo menos de não usufruir dos sagrados sacramentos católicos, caso persistissem com o culto de manifestações consideradas pagãs, selvagens, gentilícas ou, simplesmente, obscenas e indecorosas . Até as serenatas estavam ameaçadas de proibição, como então, em poema, lamenta Jorge Barbosa.

Esses tempos de perseguição e ostracização das manifestações culturais tidas por mais manifesta e ofensivamente afro-crioulas são também tempos da fundação e do apogeu da coladera pela aceleração rítmica da morna da Boavista. Anteriormente, a morna de Nho Eugénio renovara-se em moldes musicais novos por força do poder criativo de B. Lèza, compositor e poeta que não desdenha o uso do crioulo de Sotavento para melhor apurar a beleza vocálica das letras.
Coladera, cujos compositores e intérpretes mais populares, como Ti Gói, Antone Tchitche, Tchuf, Lela de Maninha, Palapa, mereceram a veneração dos intelectuais ou aprendizes de intelectuais mais conscientes, como Gabriel Mariano, Corsino Fortes ou T. T. Tiofe, acedendo, assim, às páginas do heroísmo anónimo da ficção e da poesia telúrica da nova largada, depois de a sua música ter entretido o povo nas suas múltiplas tentativas de driblar o destino nas armadilhas da alegria.
Coladera que se espalha pelo arquipélago e encontra terreno propício na criatividade de compositores e trovadores de várias ilhas, como Santo Antão como Manuel de Novas ou a ilha de Santiago com Ano Nobo e Bilocas e músicas como "Maninha nha Carlota", "Chapéu di padja" e outras depois celebrizadas nos bailes populares e na discografia do conjunto Voz de Cabo Verde.
Esses são também tempos de embrenhamento dos habitantes das cidades e vilas de Cabo Verde nos ritmos trepidantes do twist, do rock' roll, do soul, da cúmbia, do merengue e de outas sonoridades importadas de todo o mundo, por onde trilham os pés nómadas dos emigrantes, estudantes e exilados caboverdianos .
Os mais intelectuais, subversivos, informados e urbanizados preferem as sonoridades orgulhosas do jazz e do blues, do black is beatiful, aprendido na capital do império e outras cidades e periferias metropolitanas.
Surgem assim os conjuntos Ritmos Cabo-Verdianos, Voz de Cabo Verde, Os Apollos, Os Tubarões...
A diáspora, eterna candidata cultural a uma centralidade que vem efectivamente exercendo, e desde há muito, na vida económica e social das ilhas, começa a perfilar-se como voz actuante e presente na valorização e na divulgaçãoo da cultura caboverdiana. Primeiramente, ao frio extenuante das Américas, onde os black portugueses e os bravas conjugavam a morna com o jazz e o blues da distância e de Horace Silver, e nas roças do Sul Abaixo, onde o violão se enlaçava, cúmplice, à gaita e ao ferrinho para juntos chorarem a amargura da terra longe, a revolta contra a palmatória do feitor, as rebeldias islenhas adiadas. Ainda nas exposiçoes coloniais de 1934 e 1940, com Luis Rendall, B. Lèza e outros. Depois nas rádios, televisões e discos. A Fernando Quejas, o primeiro a gravar em disco a música caboverdiana, corriam os anos lisboetas de 1952, juntam-se Amândio Cabral, Titina Rodrigues, os míticos Voz de Cabo Verde, Humbertona, Valdemar Lopes da Silva, Kaoguiamo, e, agora e para sempre inolvidáveis aos ouvidos do vasto mundo, Norberto Tavares, Paulino Vieira, Danny Silva, Cesária Évora, Ildo Lobo, Zeca di Nha Reinalda, Vasco Martins, Lura, Tcheca, Tito Paris, Manu Lima...
A candidatura natural da diáspora a uma centralidade cultural partilhada com os lugares pátrios de dinamização cultural é tanto mais legítima se se tiver em conta que é no estrangeiro que, até recentemente, os caboverdianos têm buscado as competências técnicas e científicas e produzido o essencial dos conhecimentos nessas áreas, necessárias, senão indispensáveis, para o seu desenvolvimento pessoal e a viabilização económica, social e política do país Foi assim com António Carrreira ou, mais recentemente, com a equipa da História Geral de Cabo Verde, tem sido assim com o grosso das teses científicas, defendidas maioritariamente em universidades e institutos de investigação estrangeiros.
Foi assim com António Nunes, Manuel Lopes, Teixeira de Sousa e tantos outros escritores, artistas e criadores culturais caboverdianos...
Foi assim com aqueles que, dessacralizadores do onirismo tido pragmaticamente por inconsequente e evasionista da pasárgada, procuraram em terras estrangeiras e nas suas mãos fraternalmente estendidas, os caminhos que pudessem conduzir à liberdade pátria e à construção de uma outra terra dentro da nossa terra....
A diáspora tem-se provado, assim, como lugar imprescindível de preservação e recomposição da identidade caboverdiana e de difusão internacional da nossa singularidade crioula africana.
Nesta óptica, ela tem-se comprovado comom locus de revitalização de manifestações repetidamente condenadas por alguns à extinção, como o batuco ou o colá sanjon, e como loca de busca de novos caminhos libertários e de evidenciação de novas experiências criativas.
É o que atestam as novas gerações de músicos, pintores, escultores e outros criadores nascidos nas diásporas dos seus países natais de acolhimento, e as suas re-experienciações da dupla lealdade e da cissiparidade pátrida outrora dilematicamente vividas pela autenticidade dos nativistas e agora assumidas como dupla (múltipla) e cosmopolita pertença identitária a um mundo híbrido e de porosas fronteiras identitárias.

A bicefalia cultural no passado e no presente

A bicefalia cultural entre a Praia e o Mindelo ocorre depois de, no século XIX, várias vilas (da Praia de Santa Maria da Esperança, da Ribeira Brava de S. Nicolau, da Ribeira Grande de Santo Antão, de Nova Sintra da Brava, de Sal-Rei da Boavista) terem renhidamente disputado as capitalidades económica, eclesiástica, cultural e administrativa (esta mesmo na sua expressão itinerante). É, assim, por exemplo, que a Vila de Sal-Rei foi, em 1842, o lugar da publicação dos primeiros números do Boletim Oficial, enquanto que a Vila de Nova Sintra logrou ser o lugar da inauguração da Escola Principal da Instrução Primária, a primeira de nível secundário em Cabo Verde, com efeitos decisivos na constituição das elites cabo-verdianas e na formulação do nativismo, como se afere do facto de grande parte dos intelectuais da altura serem de origem bravense. Fenómeno semelhante ocorre depois com a Vila da Ribeira Brava que conseguiu ser, por mais de meio século, a sede do Bispado e da Diocese de Santiago de Cabo Verde, e, consequentemente, do célebre Seminário-Liceu, em detrimento da Praia, cidade capital de jure desde 1858 e capital de facto desde os fins do século XVIII, abandonada que fora a antiga Cidade da Ribeira Grande de Santiago, doravante denominada Cidade Velha. Foi também na Vila na Ribeira Brava que o Cónego António da Costa Teixeira, depois do activismo escolar boavistense, concebeu o Almanaque Luso-Africano (1890 e 1895) e publicou, em 1901, o seu suplemento literário, a revista Esperança, a primeira publicação periódica literária cabo-verdiana.
Perdurando até hoje, a supra-referenciada bicefalia cultural entre as cidades da Praia e do Mindelo vem sendo fortemente marcada, nos tempos pós-independência, pela crise aberta da alegada (e, segundo alguns cépticos, muito auto-sugerida) primazia cultural do Mindelo, a qual, relembre-se, se fez particularmente sentir entre os anos trinta e os anos cinquenta do século XX. Essa recente e pública crise deve-se à circunstância de a cidade da Praia se ter tornado não só capital política da república soberana, como também no principal centro populacional, social e económico de Cabo Verde e cidade detentora das mais importantes infra-estruturas culturais. Esta última cicunstância começou a divisar-se com mais evidência na segunda metade dos anos oitenta do século vinte, para se tornar notórias e plenamente nítida a partir dos anos noventa do século transacto.
Neste contexto de potencial, senão efectiva, primazia cultural da cidade capital, a tradicional bicefalia cultural vem adquirindo certas facetas de especialização cultural.
Assim, a cidade do Mindelo vem experimentando a sua transformação em centro principal em determinadas áreas culturais e artísticas. São os casos, por exemplo, do carnaval, das artes plásticas (com o admirável trabalho desenvolvido, a partir da segunda metade dos anos setenta, pelo Centro Nacional de Artesanato e seus dinamizadores e artistas plásticos de mérito Manuel Figueira, Luísa Queirós e Bela Duarte, bem como pelo Atelier Mar e seu responsável Leão Lopes, a partir dos anos oitenta) bem como o teatro, com o colossal trabalho desenvolvido por João Branco e pelo Mindelact, a partir da segunda metade dos anos noventa.
A cidade da Praia tem desempenhado, por seu lado, papel primacial na revelação de novas gerações de literatos, ensaístas, artistas plásticos, músicos e dançarinos, na valorização científica e literária da língua caboverdiana, na recuperação das tradições musicais e outras afro-crioulas, na valorização da grande diversidade cultural da ilha de Santiago (a maior de Cabo Verde) e das potencialidades de cidade capital para onde vêm confluindo gentes de todos os rincões de Cabo Verde.
É o que patenteiam o labor pioneiro de Carlos Alberto Martins, Orlando Pantera ou Zezé di Nha Reinalda, e os trabalhos colectivos de pesquisa, estilização e modernização dos míticos conjuntos Tubarões, Bulimundo e Finason bem como dos conjuntos Abel Djassi, Simentera e Ferro Gaita.
Anote-se que essa recuperação abrangeu também a valorização da fisionomia tradicional das tradições poético-musicais, particularmente por Tomé Varela da Silva e pelo departamento de tradições orais do instituto público ligado à preservação do património cultural. Dessa recuperação resultou a celebrização de finaderas e cultores do batuco como Nha Bibinha Kabral, Nha Gida Mendi, Nhu Ntoni Denti di Oru, ou, com mais notoriedade, Nha Nasia Gomi, e cultores do funaná, como Codé di Dona, Sema Lopi ou Bitóri Nha Bibinha.
Tornaram-se também visíveis nessa recuperação uma vertente cénica, com o grupo Korda Kaoberdi, fundado em 1976 por Francisco Fragoso (Kwame Konde), e a reabilitação da tabanca, com a estilização da sua música pelos Tubarões, a organização de festivais alusivos a essa manifestação cultural, a pesquisa e a publicação de livros com ela relacionada.
Essa revitalização cultural tem, outrossim, tido repercussões positivas na incorporação dos ritmos afro-crioulos na dança contemporânea como atesta o exemplo do grupo Raiz di Polon.
Tornou-se igualmente notória a actual partilha da liderança cultural entre as duas cidades principais em várias áreas culturais. Denota-se, assim, que, na área da música, autores e intérpretes residentes no Mindelo foram pioneiros na introdução dos festivais musicais a céu aberto (depois espalhados pelo país, destacando-se os festivais da Gamboa, na cidade da Praia, e de Santa Maria, no Sal, ou adquirindo feições outras, como nos casos dos festivais do batuco, do funaná tradicional e da morna) , do mesmo modo que compositores residentes nas duas cidades experimentaram novos e inovadores caminhos. São os casos da música erudita de Vasco Martins, da morna e coladera de Ano Nobo, Manel d' Novas, Daniel Rendall, Nhelas Spencer ou Betú, do funaná de Zezé e Zeca de Nha Reinalda, de Zé Henrique, de Kim de Santiago ou dos Ferro Gaita, do funamba de Zezé di Nha Reinalda e de Kaká Barbosa, ou dos novos sons de Vlu, Voginha, Mário Lúcio, Djinho Barbosa, Kim Alves, Tcheca Andrade. Ou, ainda e com mais acuidade, a revolução musical em curso protagonizada pela Geração Pantera.
Essa partilha de liderança e/ou protagonismo alarga-se às artes plásticas e à editoração privada (tanto a nível de livros como também de folhas, suplementos e revistas, como Ariópe (suplemento do jornal independentista Alerta), Raízes, Folhas Verdes, Mudjer, Ponto e Vírgula, Voz di Letra, Sopinha de Alfabeto, Fragmentos, VP-Caderno 2, Pre-Textos, Artiletra, Anais, Direito e Cidadania, Revista Científica de Estudos Cabo-Verdianos, etc).
No plano da produção de conhecimentos cientifícos, a situação caracteriza-se também pela bicefalia, no nosso entender. É assim que se os principais institutos de investigação agrária, cultural e na área das ciências sociais e humanas se localizam na capital do país, cidade onde se encontram sedeadas as reitorias da Universidade Pública de Cabo Verde e de outras instituiçoes universitárias privadas, é na cidade do Mindelo que se situam as principais instituições ligadas às engenharias, às pescas e às ciências empresariais e as direcções de algumas instituições universitárias e politécnicas privadas.
Sem prejuízo quer do papel crucial que os centros universitários e técnicos das duas cidades vêm desempenhando no ensino e na investigação, quer da diversidade da proveniência insular dos actuais produtores de conhecimentos e de cultura, são notórias as vantagens advenientes do estatuto da capitalidade da cidade da Praia e do seu papel de atracção de quadros de todo país, particularmente nos domínios da imprensa privada e da editoração pública.È assim que as principais editoras, os principais jornais e revistas e os principais, senão únicos, meios de comunicação audiovisual têm encontrado na cidade da Praia a sua localizaçao predilecta, da independência a esta parte. Relembre-se que das mais de sessenta publicações periódicas inventariadas por Brito Semedo para o período comprendido entre 1877 e 1975, mais de metade foram dadas à estampa na cidade da Praia.
Nem as políticas de desenvolvimento tripolar (Praia, S. Vicente e Sal) e de massificação cultural da primeira república levadas a cabo em especial pelas organizações de massas do período do regime de partido único (ilustradas, por exemplo, nos populares Festivais Todo o Mundo Canta), nem as políticas de municipalização e descentralização cultural, mais típicas da segunda república, visíveis, por exemplo, na protecção do património histórico-cultural de todas as ilhas, na edição de revistas regionais, como Dja d' Sal, Magma ou Ekhos do Paúl, e a construção de infra-estruturas culturais fora dos centros populacionais principais, consubstanciada, por exemplo, na edificação de centros culturais municipais, nem sequer o carácter arquipelágico do país e a percepção insularizada da sua unitária identidade crioula têm logrado desmontar a herdada bicefalia caboverdiana e as correlativas rivalidades entre as cidades da Praia e do Mindelo.
Rivalidades demasiadas vezes impregnadas de um bairrismo amiúde fundado em derivas culturalistas de fundo essencialista, racista ou heterofóbico, e, as mais das vezes, de natureza irracional e doentia, se bem que presumivelmente teleguiado por interesses escusos dos que se vêm frustados nas suas alegadas tradições bem como nas suas expectativas e pretensões de hegemonia económica e político-cultural, amiúde mitificadas em irrenunciáveis e trancendentes vocações histórico-culturais.

As lições da história caboverdiana

No entanto, o que comprova a história caboverdiana é que diferentes polos do nosso arquipélago exerceram, isolada ou conjuntamente e em tempos históricos diversos, papéis decisivos na modelação do nosso ser e no resgate da nossa personalidade colectiva.
Assim, houve os tempos da Ribeira Grande de Santiago, de Nova Sintra da Brava, de Sal- Rei da Boavista, da Ribeira Brava de S. Nicolau, da Ribeira Grande e do Paul de Sto Antão, da Praia de Santa Maria de Santiago, do Mindelo de S. Vicente, da ilha do Sal...
Tempos em que esses lugares e as pessoas deles habitantes e as elites neles residentes, originárias, quase sempre, de diversas regiões do país e, até, das diásporas, desempenharam importantíssimos papéis de liderança.
Mesmo quando lançado na terra-longe pelas crises, pelas fomes, pela busca incessante de melhores condições de vida ou pelo espírito de aventura e vivendo entre gentes gentio e gentes gentis, o povo, esse, (quase) sempre permaneceu enraizado no solo pátrio da terra e da identidade, praticando a nossa cultura, falando a língua que ele próprio inventou, sacacoteando-se ou evanescendo-se langorosamente ao som da nossa música, degustando a nossa gastronomia, tantas vezes arrancada à imprevisibilidade dos tempos e da meteorologia. Enfim, eternizando a crioulidade. Crioulidade de que foi, aliás, o arquitecto principal quando, sujeito à intermitência das chuvas e à árida abundância das secas e colocado na dolorosa encruzilhada da escravatura, da dominação colonial e das suas desiguais trocas económicas, culturais e simbólicas, teve ainda que sobreviver em face de uma natureza madrasta e de conjunturas quase sempre desfavoráveis.
Todavia, sem excessivas angústias identitárias, tanto mais que soube crer nas próprias forças e nas capacidades de liderança das suas elites, nascidas e crescidas no seu seio.
Consegue-se a independência muito por causa da capacidade de resistência cultural do povo e da sagacidade das elites caboverdianas que, reconheça-se, souberam interpretar os anseios populares e, em tempo oportuno, fizeram funcionalizar a nossa identidade no sentido mais favorável à valorização da nossa dignidade humana.
Tanto mais que essa identidade sempre se mostrou muito vulnerável a determinados sindromas de orfandade continental ao mesmo tempo que também se demonstrou como muito atreito a aproveitar as potencialidades insítas nas heranças culturais matriciais e a explorar as capacidades dialógicas com a margens continentais que a circundam, a alimentam e a enriquecem.
Conseguida a independência e chegados os tempos tanto dos dissensos democráticos como dos consensos sobre questões vitais para o progresso da nação crioula, convém que cheguem também tempos plena e diversamente caboverdianos, na exacta medida da "doce guerra", de Antero Simas.
Que possamos, pois, todos incorporar e assumir o que pertence à história caboverdiana, no seu todo, como são os casos do nativismo, do movimento claridoso, do movimento da nova largada, dos movimentos que vieram com a independência e dos outros que hão-de despontar no futuro.
Tanto mais que os mesmos resultaram da experiência histórica colectiva de todo o povo caboverdiano e foram protagonizados por actores de diversas proveniências insulares caboverdianas. Actores, cujas vidas caracterizaram-se, muitas vezes, pela itinerância inter-insular e pelos mundos da diáspora. Todos, dignos lugares de rememoração, de comemoração e de celebração.
Tanto mais ainda que qualquer ilha, mesmo se diaspórica, porque também actriz da história e espaço onde o nosso povo vive e sobrevive, pode orgulhar-se de ter sido o lugar de nascimento, da vivência, da memória, da imaginação e também da morte de caboverdianos, célebres ou simplesmente dignos no anonimato da luta quotidiana.
Os umbigos desses dignos caboverdianos encontram-se certamente enterrados no chão da ilha onde vieram ao mundo mas também na alma crioula da dignidade de cada conterrâneo, a cada dia ressurecta, a cada dia insurrecta contra o aviltamento, contra a humilhação.
Que seja, pois, banido de vez o bairrismo, esse nacionalismo anão daqueles que se pretendem reis que reinam e reivindicam!

Lisboa, Março de 2007

José Luís Hopffer C. Almada

Monday, September 25, 2006




1
Nhu Xinhu
À memória de Nhu Xinhu, tecelão e ancião de Pombal

As mãos
enrugadas
tecem a vagarosa e calada amargura
que do rosto
sulcado de velhice
em fímbrias vegetais se transmuta
para os dias utilitários
das mulheres dos cortadores de cana de açúcar
e ilumina a castanha resplandecência
do milho e de outros frutos de Pombal


Padece a alma
- escalvada
escalavrada ribeira
alagada de pétrea mágoa
e do último suspiro
das águas e da agonia do verde-
onde o rústico coração floresce
e em silêncio amadurece

Fenece a alma
e absorta assombra
o espectro do sobrado
ensombrando o basalto nú e negro
e o humilde colmo do casebre
ajaezado e circular refúgio
em funco estigmatizado
sob a penumbra das montanhas
e do finar da esperança
quando o preto-fino
do rumor irredutível do djato
e do ébano esplendor da valentia
e da pele rebelde
da já antiga altivez dos cabelos crespos da mocidade
se perdem no preto-negro
da serena e já anciã servidão
das mãos tranquilas
e do corpo sentado
sobre os restos
e as cicatrizes do poilão

Descai o rosto
réstia apenas da ribeira crucificada
no altar do riso cúpido do morgadio
e do pelourinho
da repentina violência
das cheias de Agosto
sobre a ferida
da plenitude rubra do tempo
despojado de rancor
indiferente às mãos de Nhu Xinhu
tecendo calosas a memória
da melancolia e o fulgor da acrimónia
escorrendo da sombra cerimoniosa do casebre…

Lisboa, 22 de Junho de 2003


2
ROÇA INOMINADA
à Veninha com ternura

Sob os teus pés
exaurindo descalços
todo o compacto silêncio
dos cieiros e das colinas circundantes do Birianda
ouve-se
o frenesim da dor
pétrea percutindo
em saudade da roça
que lateja longe e penumbrosa
tal útero da casa
erodida porém amada

Foi-se o afago materno
levado pelo sueste
inundado pelo verde corrosivo
das ilhas do Equador
dessendentando até à exaustão do espanto
nas águas do Golfo
e do atroz dilúvio
soterrando as réstias da alma
e do caminho do regresso

E legou-te
a obstinação suplicante
da voz suspensa
e estes trilhos inclementes
aturdidos sob os teus pés cansados
e a negrura da servidão
luzindo no pardo suor do rosto e da pele triste
e os cascos fraternos dos asnos e das bestas de carga
e do seu o redondo e impoluto
que incendeiam as pedras
e contigo partilham a lonjura dos caminhos
a albarda
o odor agridoce dos frutos recentes
e a veemência da ingratidão

E legou-te este verde agreste
que resplandece
nos frutos e outras iguarias de Jaracunda
e na roça inominada
a que te sujeita o teu mudo perfil
e a sua profusão surda sombria
pelo estendal do quintal
e pelo fumegar da cozinha
em vil imagem sonhando
com a alforria


Lisboa, 20 de Outubro de 2004


3

à memória do meu pai António
à minha mãe Júlia
aos meus filhos Z’hay e Sven
aos filhos e netos de António e Júlia

Lembras-te, Davidinho
do dia ungindo-se erecto
todas as tardes
na candura das horas da sombra dos pessegueiros
na lonjura dos caminhos de pombal
quando a alma madrugava enxuta
e toda a fortuna se vislumbrava
no esplendor do grão
(ouro que se olvida e recende
sob os passos insones
das manhãs bronzeadas
retinindo com a saudade sendo)
eram Julho e Júlia
enamorados resplendores
da voz rouca possante
do rosto exacto do corpo largo
das mãos árduas generosas de António?


Todos nós éramos
varões arrebatados
aos olhares petrificados das esquinas
meninos espantalhos resguardados do circundante silêncio
resgatados ao suplício do cieiro e do quotidiano

como esses filhos de Assomada
por seis anos vezes dois retirados
da aragem da poeira da bruma de bolanha

como esse celebrizado violinista
marceneiro arribado prosternado sobre a melancolia
da madeira do violão da ausência da mãe
da memória do monte verde
na desolação sitiada da morna
no degredo da saudade
entre os muros da colónia penal de chão bom

como esse relojoeiro lendário hermafrodita
temido incendiário das casas da pobreza
da cobardia e da rotina do quotidiano
por seis anos escorraçado do convívio
da decência dos homens honrados
e da intimidade da folhagem
do poilão da boa-entrada

como aqueles filhos de jesuíno dâmaso
didi jova alice elisa maria filipa djudju
e tantos outros homens e mulheres grandes
humildes anónimos insubmissos
de almas clandestinas
rebeldes de santa Catarina

por seis anos desterrados da liberdade
e da imprecação contra os pastores
da mãe-pátria rubra-e-verde distante

sentenciados como contra-a-nação
à lenta devastação dos nervos
à cabisbaixa devoração dos ossos
à muda saturação das cordas vocais
ao temido deperecimento da alma
ao ponderado apodrecimento dos olhos
ao olvidado emudecimento dos corpos

confinados à voracidade reclusa da miragem
das noites longas da Assomada
sob o aprisionado mar
do tarrafal de Santiago

Todos nós éramos
pedras sentadas sondando
os destinos deste nosso Destino
destinos inertes destinos parados

Todos nós éramos
pedras brancas pedras negras
gestos brandas mãos do acaso
deslocando-se sóbrios e sábios
entre os desígnios de Deus
entre os vaticínios do cieiro
como enigmas no tabuleiro da dúvida

Todos nós éramos
solilóquios de pedras nuas
diálogos verbos pétreos
velando a geometria encarcerada da vida
sob a ténue sombra dos ciprestes

Todos nós éramos
pétalas de suor pedras de suão
pedras extenuadas palavras sufocadas
reverberando
sob a miraculada grandeza dos poilões

Todos nós éramos
faces pobres folhas podres do destino
velejando pela ilhada orografia da solidão
a ironia e a sageza
a sapiência e a ousadia
da interpelação
ao deus da afronta e das intempéries
nas noites longas da Assomada

(colagem do autor a partir do livro
Assomada Nocturna (poema de NZé di Sant’ yÁgu) Posted by Picasa

Tuesday, May 09, 2006

 


"A linguagem do escritor não tem por incumbência representar o real, mas significá-lo." - Roland Barthes

Disse um dia o escritor queniano Ngugi Wa Thiong’o, romancista e ensaísta e um dos maiores intelectuais africanos vivos (infelizmente a viver nos Esatdos Unidos), que só falava do passado principalmente porque estava preocupado com o futuro. Afirmação polémica, poderia pensar-se, se a História, isto é, o discurso de reflexão sobre o passado, não visasse precisamente a construção do futuro.

É o que acontece neste livro de José Luís Hopffer Almada, Assomada Nocturna, a que o autor quis regressar – metaforica e geograficamente – numa atitude de inusitada convocação simultaneamente lírica, de dominante elegíaca, e épica, de dominante conativa. Isto é, no processo de rememoração do passado da infância e juventude, o sujeito faz a celebração de um grupo, não propriamente através do que realmente tenha acontecido, mas sim através de uma vivência fictícia, isto é, através da significação da lembrança do vivido. Bem lembra Roland Barthes , que “a linguagem do escritor não tem por incumbência representar o real, mas significá-lo” (Barthes, 1978: 205). Isto é, ainda que o longo drama narrativo) de oitenta e nove segmentos que é Assomada Nocturna (quando o primeiro Assomada Nocturna tinha apenas trinta e dois) pareça referir eventos acontecidos nas mil e uma noites solarangas da então vila de Assomada, com actores que conhecemos e com os quais privamos, com uma disposição eventualmente em progressão factual (vêm-se disseminados sinais do acontecido), a sua ligação com a história (realidade sujeita ao desenrolar cronológico) ganha um carácter que ultrapassa a simples função de comunicar ou exprimir para – de novo Barthes – “impor um além da linguagem que é ao mesmo tempo a História e o partido que nela se toma” (Barthes, 1997: 11). Este tempo pode considerar-se a fase de “conhecimento do mundo” – que se fez tanto nas noites de leitura do Padre António Vieira à História das ilhas feita de grilhetas e engenhos, do yé–yé, rock n roll, twist, rumba, merengue, cúmbia, coladera à imaginação do maravilhoso e fabulosa:

Io ioi Irondina
N ba ta pasa na Matu Njenhu
N atxa kuatu boi na gera
dos ta da
dos ta npara
kel ki npara
ki ê más balenti
más balenti ê Nhônhô Rita
Nhônhô Rita di bongolon
sabola berdi ádju madur
io ioi Irondina

Tempo de aprendizagem após o qual todos se disseminaram pelas quatro partidas do Mundo e pelos vários trilhos da Vida: estas figuras não funcionam mais do que metonímias da História da Assomada, microcosmos, por sua vez, da nação cabo-verdiana. Este poema é, assim, um hino a uma Assomada original em que a “comunidade” era, de facto, o produto de um desideratum que existia performativamente...

Se é verdade que a narrativa é a modalidade discurso que melhor permite representar o passado, uma vez que é uma arte essencialmente temporal, a poesia é a modalidade privilegiada para a expressão de sentimentos, mesmo se no caso estamos perante recordações que advêm das vivências afectivas e históricas, humanas e espácio-temporais, sonhos e aspirações geradas na mátria santacatarinense, cujo núcleo uterino é a Assomada. Sobretudo se essa poesia se faz presentificação de eventos, acontecidos ou imaginados, através de estratégias verbais próprias do discurs framático – pois sabemos que as categorias “real” e “imaginável” podem ser fundamentos da veridicidade e da verosimilhança, mas não da história e da literatura.
Existe, de facto, nesta Assomada Nocturna a exponenciação de uma dinâmica temporal em dois movimentos (o passado e o presente em actividade rememorativa): logo o primeiro poema, “Autobiografia ortónima” (poema que antes, na Assomada Nocturna de 1993, se intitulava apenas “Autobiografia”), é um poema em que se torna evidente o transcrescimento do sujeito enunciador e, simultaneamente, se anuncia a expansão espacial (isto é, geográfica) e espiritual e cultural da criança que um dia cresceu e se aventurou por outros horizontes, exteriores à “comunidade imaginada”:

criança ainda
galguei as exaustas margens das ribeiras
a húmida orografia da Assomada
e fiz-me árvore do planalto
(...)

de costas para o mar
insinuei-me
- para além da ilha -
na lenta e transparente
caminhada das nuvens
para de Leipzig beijar
a neve com odor
a carvão e melancolia
para da Europa
longamente acariciar
o níveo e silente frio

É tão importante este “manifesto de vida” que a partir deste momento o longo poema vai ler-se como a rememoração de um ritual de iniciação de cujo aprendizado os iniciados se serviriam para resistir às “noites em marcha”, “noites várias/ estilhaçadas/ no alvorecer/ das esporas guerreiras/ no amanhecer/ das esporas diurnas/ no estremecer/ do canto exacto amotinado/ dos galos da Assomada”. Neste processo mais não foi, perceberá mais tarde o sujeito, de aprendizagem da vida juntamente com os inúmeros amigos de infância, seus interlocutores, de entre os quais se destaca Digho, como o paradigma desse processo de presentificação do passado, pois que é interpelado no início e no final da narração rememorativa: e não é despiciendo facto de, no final, o enunciador se dirigir a Digho com uma fina amargura, num tom subtimente elegíaco: “Lembras-te ainda, Digho?” (meu sublinhado).

Na verdade, esta oração (no sentido da oratória, da arte de discursar, da eloquência, ou seja, no sentido de fala eloquente em ocasião solene) tem uma dinâmica que se projecta no futuro, em nostalgia de um tempo cujo significado não terá sido entendido no presente daquele passado e que o sujeito quer recuperar na sua significação histórica, discorrendo, neste balanço, pelos trilhos de uma linguagem testamentária, no final dessa viagem rememorativa.
Nesse processo de vazamento rememorativo, a poesia, embora muito intimista (daí o intenso lirismo deste poema), resulta pungente e corrosiva não raro, feita de linguagem de transbordante ludismo retórico, em que o equilíbrio entre o sobredito e o entredito é, por vezes, desigual, acabando, de certa maneira, por desorientar a imaginação crítica. A significação tece-se de muitos subentendidos que se reportam à História, como nos cinco trechos (p. 96-100) que se referem a Gustavo e Homero (de cuja memória se faz a história de Assomada):

1. Ai noites de Assomada
noites de Homero e Gustavo
sob as vestes da noite
proclamando
o sagrado do chão trilhado do chão beijado
por Nho Naxo e pelas suas palavras
ricocheteando másculas como provérbios
percutindo prematuras e ascéticas como profecias
ali ben tenpu
ki orina di bránku
nen pa ramédi
ka ta atxadu
(…)

2. Noites de Homero e Gustavo
inclinando-se
reverentes
em veneração
dos cadáveres imaginários
de Gervásio Francisco e Narciso
arcabuzados
traídos
na sua exangue
na sua alucinada visão
de um Santo Domingo badio
de um Haiti verdiano
irrompendo da noite de monte agarro
e das grilhetas da ilha
de Santiago de Cabo Verde
(...)

3. Noites de Homero e Gustavoperfilando-se
solenes
em rememoração
da lucidez de Nho Nhonhô Landim
ladino chefe dos rabelados
(...)

4.Noites de Homero e Gustavo
deslumbrando-se
com a parcimónia sem mácula
despida de pânico
das courelas de terra
(...)

5. Noites de Gustavo e Homero
proclamando
na primeira das esquinas
o advento de Amílcar vivo
(...)

É significativo o facto de esta citação da História terminar em e com Amílcar. Amílcar Cabral que se quer e se mantém vivo: os tempos de vivência, reportando-se aos anos de juventude, ganham significado da consciência histórica do enunciador (anos depois, ainda jovem, em espaço-tempo de formação, então Leipzig) e na representação do cerzir do espaço cabo-verdiano, agora em espaço-tempo de reflexão: não é possível ignorar o facto de o poeta ser, hoje, uma voz pertinente na actividade pensativa da nação. Ganha, por isso, signifcação extratextual um dos últimos trechos da peroração (p. 80):

Todos nós éramos
artefactos de barro
por mãos rudes rigorosas
por mãos negras neolíticas
torneados
por mãos divinas
moldados
e inoculados com o sopro da alegria

Existe nesta enunciação uma dimensão nitidamente adâmica, primordial. Quer dizer, o sujeito enunciador apresenta-se e apresenta a sua geração como entidades moldadas por mãos contaminadas pelo poder criador da divinidade até, porém por mãos que funcionam como sinédoques do Homo Faber, pensado na sua materialidade, na sua espiritualidade e na sua culturalidade, e animadas por um sopro mágico: da nação por vir. Isto reforça a dimensão iniciática desse tempo, da Assomada nocturna que se representa através de uma geografia identitária, a nível sócio-político, ideológico e afectivo, identidades que se expandem em cartografias outras e solapam o tempo da vila, hoje cidade, insular e nacional.

Em texto que serviu prefácio a este livro de José Luís Hopffer Almada, a que dei o título de “Corografias da memória” (2005: 7), afirmei que a convocação dos vários actores do tempo de infância e juventude, “nos seus diversos e diferentes meandros espácio-temporais, gera uma sinergia centrípeta que culmina na mais eufórica solaridade, antecedida da evocação dos tempos de convivência e comunhão (que na edição de 1992 era reforçada pela convocação dos lugares de memória infanto-juvenil, numa original apoteose toponímica)”.

Noites solarengas

Noites claras
explodindo
evidentes
no cântico
ridente
estridente
de repente
em manhãs verdes
às portas abertas de chão bom
às portas libertas despertas das ilhas
na alvorada da Assomada

Lembram-se, mocinhos?

Esta convocação intenta, no entanto, uma revitalização do seu próprio ser, da sua condição de agente da história. É como se o sujeito, nesse processo de expressão apelativa (“Lembras-te?), quisesse, ele próprio, não esquecer e reenergizar-se com o fio das suas palavras. É, por isso, significativo que logo no início, no primeiro poema, “Autobiografia ortónima”, o enunciador nos informe que:

hoje sei que sou
um simples signo de adão e eva
e do seu éden pétreo no pico de antónio

– reforçando, com a citação explícita aos míticos primeiros homens, Adão e Eva, a dimensão demiúrgica, formativa do rapaz que viveu a voragem das mil e uma noites da Assomada matricial.
Esta Assomada Nocturna acaba, por ser, afinal, um convite ao conhecimento da geração daqueles meninos que mais não são metonímia da caminhada do país, Cabo Verde.

Inocência Mata - Professora da Faculdade de Letras de Lisboa
Queluz, 25 de Novembro de 2005 Posted by Picasa

Monday, May 08, 2006

 
 


 


 

Fotos por ocasião do Lançamento do último Livro de Teixeira de Sousa. Posted by Picasa

Tuesday, February 28, 2006

 
Assomada Nocturna:
Este livro é uma edição refeita e reelaborada da que foi publicada com o mesmo título, nos inícios da década de 90. A actual edição é apresentada como «poema de N’Zé di Sant’y Águ», enquanto que na edição anterior havia uma ligeira diferença, como poema de Zé di Sant’y Águ.
José Luís Hopffer Almada Assomada Nocturna (Poema de N’Zé di Sant’y Agu) Cadernos da Lusofonia, Viana do Castelo, 2005

Assim, o autor deste livro assume-se como um heterónimo, ou, pelo menos, como um semi-heterónimo, uma vez que assina simultaneamente o seu próprio nome.
Vejamos, então, o que representa esse heterónimo.
Em O Parto da Sombra, referindo-se a N’Zé di Sant’Y Águ afirma: «Zé sou eu. Um simples signo do Adão e Eva, petrificados no Piku Ntoni, o patriarcal Monte de Santiago de Cabo Verde».
Noutra passagem dizia: «Esse heterónimo simboliza a sacralização dos elementos essenciais da nossa mitologia: os santos (em primeiro lugar, o S. Tiago) e a Água: a ilha, a raiz do Arquipélago.»
Por isso, representando tudo o que está na sua memória, ao nível telúrico, toponímico e literário, significa igualmente um «Eu» colectivo, ético, cultural e estético.
Este conjunto de poemas constituem uma unidade, ou melhor, uma espécie de narrativa poética, onde surgem vários elementos que coincidem com a sua própria vivência.
Inicia-se com a alusão ao seu nascimento e crescimento na terra natal.
O poema intitula-se «Autobiografia ortónima, o que pressupõe um contraponto entre a sua personalidade e outra(s) figura(s) imaginada(s), criada(s), isto é, o(s) seu(s) heterónimo(s).
«Nasci numa aldeia à sombra de um sobrado e da austera penumbra das montanhas
criança ainda galguei as exaustas margens das ribeiras a húmida orografia da Assomada e fiz-me árvore do planalto.»
Depois o poeta sugere uma segunda fase da sua vida, a sua ida da Vila de Assomada para a cidade da Praia:
«O serpentear das estradas onde o poeta fez-me desembocar no mar e desaguar no silêncio junto a uma cidade espraiada em azul e murmúrio.»
Uma terceira fase, a sua partida para a Alemanha, mais concretamente para Leipzig, onde concluiu os seus estudos superiores em Direito.
«de costas para o mar insinuei-me
para além da ilha - na lenta e transparente caminhada das nuvens para de Leipzig beijar a neve com odor a carvão e melancolia para da europa largamente acariciar o níveo e silente frio.»
Esta experiência da diáspora em terras frias da Alemanha não o fez esquecer o seu berço, antes pelo contrário, avivou-lhe a consciência de identidade e, sobretudo, a identificação com a ilha de Santiago, onde se ergue o Pico de António.
«hoje sei que sou um simples signo de Adão e Eva e do seu éden pétreo no pico de António»
«Autobiografia ortónima» que resume alguns dados biográficos, assenta, sobretudo, nessa relação umbilical com a terra que vai ser desenvolvida através de um discurso poético memorialista, iniciado pela interrogação «lembras-te?», em que traz à boca de cena os companheiros de infância da Vila de Assomada, protagonistas com ele das aventuras, das brincadeiras, de toda a vivência própria de uma adolescência passada num meio pequeno, com as características cabo-verdianas.
Perpassam no cenário das longas noites de Assomada meninos como Dhigo, Txikoza, Djidjinho, Juan, Zé Preta, Kaká, António Pedro, Ima, Álvaro, Zélio, Nando, Horácio, Adriano, Djoni, Txantxan, Lalan, Carlinhos, Djonka, Mito, Txide, Loló, Barrusco, Pira, Jorge Padjudo, Totó de Txubinha, Bumba, Julinho, Danny, Zé de Nair, enfim, uma longa lista de nomes que se transformam num «nós» colectivo:
«Todos nós éramos pretos brancos mulatos todos éramos peles-vermelhas de escalpes crioulos.»
Esse grupo de adolescentes representado por «todos nós» vai crescendo, passando das brincadeiras de piratas, das infatigáveis correrias e dos esconderijos, «das bolas saltitando», «dos piões rodopiando» à consciência de que era necessário serem os guardiães das sementeiras, das colheitas, «espantando o azedume/ os corvos os macacos as monas»/ as galinhas de mato as codornizes/ os gatos da serra os pombos selvagens.»
E o poeta lembra a Kaká «das fontonas dos charcos/ das poças de águas pútridas/ infestadas de insectos de vermes/ do cheiro nauseabundo/ boiando nas águas fétidas lamacentas / dos homens afogados/ como Nhô Nando fisgados/ do pântano e do esquecimento» e tudo isso «pela covarde indiferença/ dos senhores dos paços de concelho/ entretidos com o clube/ as concubinas os jogos de fortuna/ e as noites longas de Assomada.»
E se « todos nós éramos Almas em cinza (...) a amargura da fome as sombras da dor nos cabelos crespos e no extenuado resfolegar no coração da tenacidade»
também «todos nós éramos emigrações inscritas nos esqueletos das montanhas. (...) Todos nós éramos Corpos nómadas Sonhando navegar Nas noites hedónicas Inesperadas de amsterdão.»
O sentimento da insularidade insinua-se no sonho da viagem para paragens desconhecidas, inevitável na imaginação dos jovens ilhéus.
Mas já há nesse sentimento e no desejo da partida, a experiência do poeta, da dor da ausência, da saudade do lar materno. E vêm-lhe à mente as raparigas da infância, das primeiras experiências amorosas, «os sorrisos/ tímidos marotos/ e nos ínvios caminhos da arribada/ propícios ao rapto ao amor à intimidade/ do sangue jorrando/ dos hímens rasgados/ destroçados/ sobre a sua terra árida e bufa/ salpicada de verde e de ausência.»
E de lembrança em lembrança, o poeta chama os seus amigos um por um e vai-se tornando adulto com eles, com a vida, com os sonhos, vendo passar como num painel, a puberdade, os primeiros anos da juventude, com os seus anseios, os bailes de fim de ano, por entre os fraques e os longos vestidos, as mornas, as mazurcas, as polcas e o maxixe, o violão, o cavaquinho e a rabeca.
O poeta traz igualmente à memória, com toda a tragicidade, a miséria da ilha, as mulheres de amor comprado, as noites de álcool, a «dor derramada/ nos lombos de Patxitxa / carregador de sacos/ carregador da noite/ carregador do funaná.»
«As noites de Assomada de paraísos sonegados de infernos esconjurados no leito de Olívia refugo e refúgio de rico e de pobre sombra e semente de todos os pudores desflorados de todas as virtudes desgraçadas suicidas explodindo
no êxtase da carne na euforia da coxa.».
E lembra também os mortos por inanição ou de queda em fundos precipícios, no passado, mas no âmbito da emigração recente, as prisões sobrelotadas, os rostos escuros devolutos nos bairros degradados em Portugal. Deste modo, compara a morte física com outra espécie de morte que é a emigração forçada pelas condições económicas.
O discurso poético vai-se adensando , à medida que a obra progride. O verso alonga-se, o poeta, tomado de uma febre catártica, qual um Álvaro de Campos, vociferando, delirando e é todo o Cabo Verde, com os seus operários emigrantes derramados nas ruas de Lisboa ou da Amadora, «da pedreira dos húngaros da cova da moura/ de santa Filomena da azinhaga dos besouros/ nos estaleiros derruídos de Alcântara/ (...) nas mãos laboriosas madrugadoras/ benzendo as escolas as pontes as autoestradas.»
Mas é igualmente o contraste de classes. Por um lado, os meninos de família, «amodorrados no conforto» a que ele e muitos dos seus companheiros pertenciam, «bastardos da cor/ excessivamente clara/ bastardos da cor/ excessivamente escura/ brancos da terra/ descendentes dos venerandos moradores de Santiago/ filhos das secas e de outras intempéries/ encurralados entre o salão e o quintal.» (todos nós éramos/ meninos bonitos / «prisioneiros da primogenitura/ dos agasalhos da família enobrecida» e, por outro, os pobres da terra. ( «os infantes carregadores/ da lenha do sisal/ do massapé» e as «mulheres artesãs de fonte de lima » , «palmilhando os caminhos pedregosos».
À interpelação do poeta a um «tu», «lembras-te?» responde um «nós colectivo» , «todos nós» que se assume como um coro de tragédia clássica, reflexo da voz do povo, da voz da razão , da sabedoria , e da memória. («todos nós éramos).
E é no tom entre a tragédia e a epopeia que se desenha a saga do povo cabo-verdiano, resgatando o passado, a história, preservando um património humano e cultural, no binómio entre o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo, isto é, entre a embriaguez, a festa, a pulsão sexual, a desmesura e, por outro lado, o sonho, o sentido da harmonia e da beleza.
«Todos nós éramos doloridas silhuetas de achadas escalvadas de colinas escaveiradas
Todos nós éramos Alucinações imponentes colinas azuis Biriandas erguidas sobre a terra mulata e estéril como memoriais de paciência e perseverança contra a seca e a miséria confundindo-se com o perfil das rochas.»
Nas longas noites de Assomada , erguem-se os espectros do passado de negros, mouros, judeus, árabes, bárbaros indo-europeus, corsários, rebelados das ilhas, negros fujões. As noites metaforizam-se e são tempo. O tempo que faz a história, que é a vida rolando. E se o discurso poético se desenvolve num «crescendo» e tal como uma ária musical, num lirismo grave e solene, servindo-se de todos os instrumentos que, no poema, são as palavras na sua potencialidade, a metáfora, a hipérbole, o verbo, as assonâncias, enfim, toda a catedral estilística, vai terminar num «descendo», em fina harmonia lírica. O verso encurta de novo, torna-se mais contido, sustentado pelas anáforas «noites» e «lembras-te», esta já mais espaçada, mas sobretudo o gerúndio, tornando presentes as longas noites de Assomada na sua história e vivência.
Aliás, a música não se pode dissociar da poesia. É o génio musical que dá origem ao nascimento da tragédia clássica e a comprovar a existência do coro.
José Luís Hopffer Almada manifesta uma grande sabedoria ao compor esta obra poética, bebendo das fontes clássicas e orquestrando o poema com belíssimas imagens, transfiguradoras da realidade social e histórica de Cabo Verde.
Mitificando o povo, ora elevado à categoria de herói, ora mostrando-o na sua face de anti-herói e trabalhando o ritmo nas suas variações, o poeta oferece-nos esta bela peça poética, por vezes, alternando o patético com a contenção, a exuberância da imagem com a sobriedade , mas tendo sempre em atenção a harmonia, a sonoridade, a virtualidade lexical, a força emotiva, dotando a obra de uma qualidade que o coloca ao nível dos grandes poetas de Cabo Verde , enriquecendo, com este valioso contributo, a sua literatura.
Parabéns, José Luís!

Elsa Rodrigues dos Santos
Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa Posted by Picasa