Tuesday, February 28, 2006

 
Assomada Nocturna:
Este livro é uma edição refeita e reelaborada da que foi publicada com o mesmo título, nos inícios da década de 90. A actual edição é apresentada como «poema de N’Zé di Sant’y Águ», enquanto que na edição anterior havia uma ligeira diferença, como poema de Zé di Sant’y Águ.
José Luís Hopffer Almada Assomada Nocturna (Poema de N’Zé di Sant’y Agu) Cadernos da Lusofonia, Viana do Castelo, 2005

Assim, o autor deste livro assume-se como um heterónimo, ou, pelo menos, como um semi-heterónimo, uma vez que assina simultaneamente o seu próprio nome.
Vejamos, então, o que representa esse heterónimo.
Em O Parto da Sombra, referindo-se a N’Zé di Sant’Y Águ afirma: «Zé sou eu. Um simples signo do Adão e Eva, petrificados no Piku Ntoni, o patriarcal Monte de Santiago de Cabo Verde».
Noutra passagem dizia: «Esse heterónimo simboliza a sacralização dos elementos essenciais da nossa mitologia: os santos (em primeiro lugar, o S. Tiago) e a Água: a ilha, a raiz do Arquipélago.»
Por isso, representando tudo o que está na sua memória, ao nível telúrico, toponímico e literário, significa igualmente um «Eu» colectivo, ético, cultural e estético.
Este conjunto de poemas constituem uma unidade, ou melhor, uma espécie de narrativa poética, onde surgem vários elementos que coincidem com a sua própria vivência.
Inicia-se com a alusão ao seu nascimento e crescimento na terra natal.
O poema intitula-se «Autobiografia ortónima, o que pressupõe um contraponto entre a sua personalidade e outra(s) figura(s) imaginada(s), criada(s), isto é, o(s) seu(s) heterónimo(s).
«Nasci numa aldeia à sombra de um sobrado e da austera penumbra das montanhas
criança ainda galguei as exaustas margens das ribeiras a húmida orografia da Assomada e fiz-me árvore do planalto.»
Depois o poeta sugere uma segunda fase da sua vida, a sua ida da Vila de Assomada para a cidade da Praia:
«O serpentear das estradas onde o poeta fez-me desembocar no mar e desaguar no silêncio junto a uma cidade espraiada em azul e murmúrio.»
Uma terceira fase, a sua partida para a Alemanha, mais concretamente para Leipzig, onde concluiu os seus estudos superiores em Direito.
«de costas para o mar insinuei-me
para além da ilha - na lenta e transparente caminhada das nuvens para de Leipzig beijar a neve com odor a carvão e melancolia para da europa largamente acariciar o níveo e silente frio.»
Esta experiência da diáspora em terras frias da Alemanha não o fez esquecer o seu berço, antes pelo contrário, avivou-lhe a consciência de identidade e, sobretudo, a identificação com a ilha de Santiago, onde se ergue o Pico de António.
«hoje sei que sou um simples signo de Adão e Eva e do seu éden pétreo no pico de António»
«Autobiografia ortónima» que resume alguns dados biográficos, assenta, sobretudo, nessa relação umbilical com a terra que vai ser desenvolvida através de um discurso poético memorialista, iniciado pela interrogação «lembras-te?», em que traz à boca de cena os companheiros de infância da Vila de Assomada, protagonistas com ele das aventuras, das brincadeiras, de toda a vivência própria de uma adolescência passada num meio pequeno, com as características cabo-verdianas.
Perpassam no cenário das longas noites de Assomada meninos como Dhigo, Txikoza, Djidjinho, Juan, Zé Preta, Kaká, António Pedro, Ima, Álvaro, Zélio, Nando, Horácio, Adriano, Djoni, Txantxan, Lalan, Carlinhos, Djonka, Mito, Txide, Loló, Barrusco, Pira, Jorge Padjudo, Totó de Txubinha, Bumba, Julinho, Danny, Zé de Nair, enfim, uma longa lista de nomes que se transformam num «nós» colectivo:
«Todos nós éramos pretos brancos mulatos todos éramos peles-vermelhas de escalpes crioulos.»
Esse grupo de adolescentes representado por «todos nós» vai crescendo, passando das brincadeiras de piratas, das infatigáveis correrias e dos esconderijos, «das bolas saltitando», «dos piões rodopiando» à consciência de que era necessário serem os guardiães das sementeiras, das colheitas, «espantando o azedume/ os corvos os macacos as monas»/ as galinhas de mato as codornizes/ os gatos da serra os pombos selvagens.»
E o poeta lembra a Kaká «das fontonas dos charcos/ das poças de águas pútridas/ infestadas de insectos de vermes/ do cheiro nauseabundo/ boiando nas águas fétidas lamacentas / dos homens afogados/ como Nhô Nando fisgados/ do pântano e do esquecimento» e tudo isso «pela covarde indiferença/ dos senhores dos paços de concelho/ entretidos com o clube/ as concubinas os jogos de fortuna/ e as noites longas de Assomada.»
E se « todos nós éramos Almas em cinza (...) a amargura da fome as sombras da dor nos cabelos crespos e no extenuado resfolegar no coração da tenacidade»
também «todos nós éramos emigrações inscritas nos esqueletos das montanhas. (...) Todos nós éramos Corpos nómadas Sonhando navegar Nas noites hedónicas Inesperadas de amsterdão.»
O sentimento da insularidade insinua-se no sonho da viagem para paragens desconhecidas, inevitável na imaginação dos jovens ilhéus.
Mas já há nesse sentimento e no desejo da partida, a experiência do poeta, da dor da ausência, da saudade do lar materno. E vêm-lhe à mente as raparigas da infância, das primeiras experiências amorosas, «os sorrisos/ tímidos marotos/ e nos ínvios caminhos da arribada/ propícios ao rapto ao amor à intimidade/ do sangue jorrando/ dos hímens rasgados/ destroçados/ sobre a sua terra árida e bufa/ salpicada de verde e de ausência.»
E de lembrança em lembrança, o poeta chama os seus amigos um por um e vai-se tornando adulto com eles, com a vida, com os sonhos, vendo passar como num painel, a puberdade, os primeiros anos da juventude, com os seus anseios, os bailes de fim de ano, por entre os fraques e os longos vestidos, as mornas, as mazurcas, as polcas e o maxixe, o violão, o cavaquinho e a rabeca.
O poeta traz igualmente à memória, com toda a tragicidade, a miséria da ilha, as mulheres de amor comprado, as noites de álcool, a «dor derramada/ nos lombos de Patxitxa / carregador de sacos/ carregador da noite/ carregador do funaná.»
«As noites de Assomada de paraísos sonegados de infernos esconjurados no leito de Olívia refugo e refúgio de rico e de pobre sombra e semente de todos os pudores desflorados de todas as virtudes desgraçadas suicidas explodindo
no êxtase da carne na euforia da coxa.».
E lembra também os mortos por inanição ou de queda em fundos precipícios, no passado, mas no âmbito da emigração recente, as prisões sobrelotadas, os rostos escuros devolutos nos bairros degradados em Portugal. Deste modo, compara a morte física com outra espécie de morte que é a emigração forçada pelas condições económicas.
O discurso poético vai-se adensando , à medida que a obra progride. O verso alonga-se, o poeta, tomado de uma febre catártica, qual um Álvaro de Campos, vociferando, delirando e é todo o Cabo Verde, com os seus operários emigrantes derramados nas ruas de Lisboa ou da Amadora, «da pedreira dos húngaros da cova da moura/ de santa Filomena da azinhaga dos besouros/ nos estaleiros derruídos de Alcântara/ (...) nas mãos laboriosas madrugadoras/ benzendo as escolas as pontes as autoestradas.»
Mas é igualmente o contraste de classes. Por um lado, os meninos de família, «amodorrados no conforto» a que ele e muitos dos seus companheiros pertenciam, «bastardos da cor/ excessivamente clara/ bastardos da cor/ excessivamente escura/ brancos da terra/ descendentes dos venerandos moradores de Santiago/ filhos das secas e de outras intempéries/ encurralados entre o salão e o quintal.» (todos nós éramos/ meninos bonitos / «prisioneiros da primogenitura/ dos agasalhos da família enobrecida» e, por outro, os pobres da terra. ( «os infantes carregadores/ da lenha do sisal/ do massapé» e as «mulheres artesãs de fonte de lima » , «palmilhando os caminhos pedregosos».
À interpelação do poeta a um «tu», «lembras-te?» responde um «nós colectivo» , «todos nós» que se assume como um coro de tragédia clássica, reflexo da voz do povo, da voz da razão , da sabedoria , e da memória. («todos nós éramos).
E é no tom entre a tragédia e a epopeia que se desenha a saga do povo cabo-verdiano, resgatando o passado, a história, preservando um património humano e cultural, no binómio entre o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo, isto é, entre a embriaguez, a festa, a pulsão sexual, a desmesura e, por outro lado, o sonho, o sentido da harmonia e da beleza.
«Todos nós éramos doloridas silhuetas de achadas escalvadas de colinas escaveiradas
Todos nós éramos Alucinações imponentes colinas azuis Biriandas erguidas sobre a terra mulata e estéril como memoriais de paciência e perseverança contra a seca e a miséria confundindo-se com o perfil das rochas.»
Nas longas noites de Assomada , erguem-se os espectros do passado de negros, mouros, judeus, árabes, bárbaros indo-europeus, corsários, rebelados das ilhas, negros fujões. As noites metaforizam-se e são tempo. O tempo que faz a história, que é a vida rolando. E se o discurso poético se desenvolve num «crescendo» e tal como uma ária musical, num lirismo grave e solene, servindo-se de todos os instrumentos que, no poema, são as palavras na sua potencialidade, a metáfora, a hipérbole, o verbo, as assonâncias, enfim, toda a catedral estilística, vai terminar num «descendo», em fina harmonia lírica. O verso encurta de novo, torna-se mais contido, sustentado pelas anáforas «noites» e «lembras-te», esta já mais espaçada, mas sobretudo o gerúndio, tornando presentes as longas noites de Assomada na sua história e vivência.
Aliás, a música não se pode dissociar da poesia. É o génio musical que dá origem ao nascimento da tragédia clássica e a comprovar a existência do coro.
José Luís Hopffer Almada manifesta uma grande sabedoria ao compor esta obra poética, bebendo das fontes clássicas e orquestrando o poema com belíssimas imagens, transfiguradoras da realidade social e histórica de Cabo Verde.
Mitificando o povo, ora elevado à categoria de herói, ora mostrando-o na sua face de anti-herói e trabalhando o ritmo nas suas variações, o poeta oferece-nos esta bela peça poética, por vezes, alternando o patético com a contenção, a exuberância da imagem com a sobriedade , mas tendo sempre em atenção a harmonia, a sonoridade, a virtualidade lexical, a força emotiva, dotando a obra de uma qualidade que o coloca ao nível dos grandes poetas de Cabo Verde , enriquecendo, com este valioso contributo, a sua literatura.
Parabéns, José Luís!

Elsa Rodrigues dos Santos
Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa Posted by Picasa