Tuesday, May 09, 2006

 


"A linguagem do escritor não tem por incumbência representar o real, mas significá-lo." - Roland Barthes

Disse um dia o escritor queniano Ngugi Wa Thiong’o, romancista e ensaísta e um dos maiores intelectuais africanos vivos (infelizmente a viver nos Esatdos Unidos), que só falava do passado principalmente porque estava preocupado com o futuro. Afirmação polémica, poderia pensar-se, se a História, isto é, o discurso de reflexão sobre o passado, não visasse precisamente a construção do futuro.

É o que acontece neste livro de José Luís Hopffer Almada, Assomada Nocturna, a que o autor quis regressar – metaforica e geograficamente – numa atitude de inusitada convocação simultaneamente lírica, de dominante elegíaca, e épica, de dominante conativa. Isto é, no processo de rememoração do passado da infância e juventude, o sujeito faz a celebração de um grupo, não propriamente através do que realmente tenha acontecido, mas sim através de uma vivência fictícia, isto é, através da significação da lembrança do vivido. Bem lembra Roland Barthes , que “a linguagem do escritor não tem por incumbência representar o real, mas significá-lo” (Barthes, 1978: 205). Isto é, ainda que o longo drama narrativo) de oitenta e nove segmentos que é Assomada Nocturna (quando o primeiro Assomada Nocturna tinha apenas trinta e dois) pareça referir eventos acontecidos nas mil e uma noites solarangas da então vila de Assomada, com actores que conhecemos e com os quais privamos, com uma disposição eventualmente em progressão factual (vêm-se disseminados sinais do acontecido), a sua ligação com a história (realidade sujeita ao desenrolar cronológico) ganha um carácter que ultrapassa a simples função de comunicar ou exprimir para – de novo Barthes – “impor um além da linguagem que é ao mesmo tempo a História e o partido que nela se toma” (Barthes, 1997: 11). Este tempo pode considerar-se a fase de “conhecimento do mundo” – que se fez tanto nas noites de leitura do Padre António Vieira à História das ilhas feita de grilhetas e engenhos, do yé–yé, rock n roll, twist, rumba, merengue, cúmbia, coladera à imaginação do maravilhoso e fabulosa:

Io ioi Irondina
N ba ta pasa na Matu Njenhu
N atxa kuatu boi na gera
dos ta da
dos ta npara
kel ki npara
ki ê más balenti
más balenti ê Nhônhô Rita
Nhônhô Rita di bongolon
sabola berdi ádju madur
io ioi Irondina

Tempo de aprendizagem após o qual todos se disseminaram pelas quatro partidas do Mundo e pelos vários trilhos da Vida: estas figuras não funcionam mais do que metonímias da História da Assomada, microcosmos, por sua vez, da nação cabo-verdiana. Este poema é, assim, um hino a uma Assomada original em que a “comunidade” era, de facto, o produto de um desideratum que existia performativamente...

Se é verdade que a narrativa é a modalidade discurso que melhor permite representar o passado, uma vez que é uma arte essencialmente temporal, a poesia é a modalidade privilegiada para a expressão de sentimentos, mesmo se no caso estamos perante recordações que advêm das vivências afectivas e históricas, humanas e espácio-temporais, sonhos e aspirações geradas na mátria santacatarinense, cujo núcleo uterino é a Assomada. Sobretudo se essa poesia se faz presentificação de eventos, acontecidos ou imaginados, através de estratégias verbais próprias do discurs framático – pois sabemos que as categorias “real” e “imaginável” podem ser fundamentos da veridicidade e da verosimilhança, mas não da história e da literatura.
Existe, de facto, nesta Assomada Nocturna a exponenciação de uma dinâmica temporal em dois movimentos (o passado e o presente em actividade rememorativa): logo o primeiro poema, “Autobiografia ortónima” (poema que antes, na Assomada Nocturna de 1993, se intitulava apenas “Autobiografia”), é um poema em que se torna evidente o transcrescimento do sujeito enunciador e, simultaneamente, se anuncia a expansão espacial (isto é, geográfica) e espiritual e cultural da criança que um dia cresceu e se aventurou por outros horizontes, exteriores à “comunidade imaginada”:

criança ainda
galguei as exaustas margens das ribeiras
a húmida orografia da Assomada
e fiz-me árvore do planalto
(...)

de costas para o mar
insinuei-me
- para além da ilha -
na lenta e transparente
caminhada das nuvens
para de Leipzig beijar
a neve com odor
a carvão e melancolia
para da Europa
longamente acariciar
o níveo e silente frio

É tão importante este “manifesto de vida” que a partir deste momento o longo poema vai ler-se como a rememoração de um ritual de iniciação de cujo aprendizado os iniciados se serviriam para resistir às “noites em marcha”, “noites várias/ estilhaçadas/ no alvorecer/ das esporas guerreiras/ no amanhecer/ das esporas diurnas/ no estremecer/ do canto exacto amotinado/ dos galos da Assomada”. Neste processo mais não foi, perceberá mais tarde o sujeito, de aprendizagem da vida juntamente com os inúmeros amigos de infância, seus interlocutores, de entre os quais se destaca Digho, como o paradigma desse processo de presentificação do passado, pois que é interpelado no início e no final da narração rememorativa: e não é despiciendo facto de, no final, o enunciador se dirigir a Digho com uma fina amargura, num tom subtimente elegíaco: “Lembras-te ainda, Digho?” (meu sublinhado).

Na verdade, esta oração (no sentido da oratória, da arte de discursar, da eloquência, ou seja, no sentido de fala eloquente em ocasião solene) tem uma dinâmica que se projecta no futuro, em nostalgia de um tempo cujo significado não terá sido entendido no presente daquele passado e que o sujeito quer recuperar na sua significação histórica, discorrendo, neste balanço, pelos trilhos de uma linguagem testamentária, no final dessa viagem rememorativa.
Nesse processo de vazamento rememorativo, a poesia, embora muito intimista (daí o intenso lirismo deste poema), resulta pungente e corrosiva não raro, feita de linguagem de transbordante ludismo retórico, em que o equilíbrio entre o sobredito e o entredito é, por vezes, desigual, acabando, de certa maneira, por desorientar a imaginação crítica. A significação tece-se de muitos subentendidos que se reportam à História, como nos cinco trechos (p. 96-100) que se referem a Gustavo e Homero (de cuja memória se faz a história de Assomada):

1. Ai noites de Assomada
noites de Homero e Gustavo
sob as vestes da noite
proclamando
o sagrado do chão trilhado do chão beijado
por Nho Naxo e pelas suas palavras
ricocheteando másculas como provérbios
percutindo prematuras e ascéticas como profecias
ali ben tenpu
ki orina di bránku
nen pa ramédi
ka ta atxadu
(…)

2. Noites de Homero e Gustavo
inclinando-se
reverentes
em veneração
dos cadáveres imaginários
de Gervásio Francisco e Narciso
arcabuzados
traídos
na sua exangue
na sua alucinada visão
de um Santo Domingo badio
de um Haiti verdiano
irrompendo da noite de monte agarro
e das grilhetas da ilha
de Santiago de Cabo Verde
(...)

3. Noites de Homero e Gustavoperfilando-se
solenes
em rememoração
da lucidez de Nho Nhonhô Landim
ladino chefe dos rabelados
(...)

4.Noites de Homero e Gustavo
deslumbrando-se
com a parcimónia sem mácula
despida de pânico
das courelas de terra
(...)

5. Noites de Gustavo e Homero
proclamando
na primeira das esquinas
o advento de Amílcar vivo
(...)

É significativo o facto de esta citação da História terminar em e com Amílcar. Amílcar Cabral que se quer e se mantém vivo: os tempos de vivência, reportando-se aos anos de juventude, ganham significado da consciência histórica do enunciador (anos depois, ainda jovem, em espaço-tempo de formação, então Leipzig) e na representação do cerzir do espaço cabo-verdiano, agora em espaço-tempo de reflexão: não é possível ignorar o facto de o poeta ser, hoje, uma voz pertinente na actividade pensativa da nação. Ganha, por isso, signifcação extratextual um dos últimos trechos da peroração (p. 80):

Todos nós éramos
artefactos de barro
por mãos rudes rigorosas
por mãos negras neolíticas
torneados
por mãos divinas
moldados
e inoculados com o sopro da alegria

Existe nesta enunciação uma dimensão nitidamente adâmica, primordial. Quer dizer, o sujeito enunciador apresenta-se e apresenta a sua geração como entidades moldadas por mãos contaminadas pelo poder criador da divinidade até, porém por mãos que funcionam como sinédoques do Homo Faber, pensado na sua materialidade, na sua espiritualidade e na sua culturalidade, e animadas por um sopro mágico: da nação por vir. Isto reforça a dimensão iniciática desse tempo, da Assomada nocturna que se representa através de uma geografia identitária, a nível sócio-político, ideológico e afectivo, identidades que se expandem em cartografias outras e solapam o tempo da vila, hoje cidade, insular e nacional.

Em texto que serviu prefácio a este livro de José Luís Hopffer Almada, a que dei o título de “Corografias da memória” (2005: 7), afirmei que a convocação dos vários actores do tempo de infância e juventude, “nos seus diversos e diferentes meandros espácio-temporais, gera uma sinergia centrípeta que culmina na mais eufórica solaridade, antecedida da evocação dos tempos de convivência e comunhão (que na edição de 1992 era reforçada pela convocação dos lugares de memória infanto-juvenil, numa original apoteose toponímica)”.

Noites solarengas

Noites claras
explodindo
evidentes
no cântico
ridente
estridente
de repente
em manhãs verdes
às portas abertas de chão bom
às portas libertas despertas das ilhas
na alvorada da Assomada

Lembram-se, mocinhos?

Esta convocação intenta, no entanto, uma revitalização do seu próprio ser, da sua condição de agente da história. É como se o sujeito, nesse processo de expressão apelativa (“Lembras-te?), quisesse, ele próprio, não esquecer e reenergizar-se com o fio das suas palavras. É, por isso, significativo que logo no início, no primeiro poema, “Autobiografia ortónima”, o enunciador nos informe que:

hoje sei que sou
um simples signo de adão e eva
e do seu éden pétreo no pico de antónio

– reforçando, com a citação explícita aos míticos primeiros homens, Adão e Eva, a dimensão demiúrgica, formativa do rapaz que viveu a voragem das mil e uma noites da Assomada matricial.
Esta Assomada Nocturna acaba, por ser, afinal, um convite ao conhecimento da geração daqueles meninos que mais não são metonímia da caminhada do país, Cabo Verde.

Inocência Mata - Professora da Faculdade de Letras de Lisboa
Queluz, 25 de Novembro de 2005 Posted by Picasa

Monday, May 08, 2006

 
 


 


 

Fotos por ocasião do Lançamento do último Livro de Teixeira de Sousa. Posted by Picasa