Monday, September 25, 2006




1
Nhu Xinhu
À memória de Nhu Xinhu, tecelão e ancião de Pombal

As mãos
enrugadas
tecem a vagarosa e calada amargura
que do rosto
sulcado de velhice
em fímbrias vegetais se transmuta
para os dias utilitários
das mulheres dos cortadores de cana de açúcar
e ilumina a castanha resplandecência
do milho e de outros frutos de Pombal


Padece a alma
- escalvada
escalavrada ribeira
alagada de pétrea mágoa
e do último suspiro
das águas e da agonia do verde-
onde o rústico coração floresce
e em silêncio amadurece

Fenece a alma
e absorta assombra
o espectro do sobrado
ensombrando o basalto nú e negro
e o humilde colmo do casebre
ajaezado e circular refúgio
em funco estigmatizado
sob a penumbra das montanhas
e do finar da esperança
quando o preto-fino
do rumor irredutível do djato
e do ébano esplendor da valentia
e da pele rebelde
da já antiga altivez dos cabelos crespos da mocidade
se perdem no preto-negro
da serena e já anciã servidão
das mãos tranquilas
e do corpo sentado
sobre os restos
e as cicatrizes do poilão

Descai o rosto
réstia apenas da ribeira crucificada
no altar do riso cúpido do morgadio
e do pelourinho
da repentina violência
das cheias de Agosto
sobre a ferida
da plenitude rubra do tempo
despojado de rancor
indiferente às mãos de Nhu Xinhu
tecendo calosas a memória
da melancolia e o fulgor da acrimónia
escorrendo da sombra cerimoniosa do casebre…

Lisboa, 22 de Junho de 2003


2
ROÇA INOMINADA
à Veninha com ternura

Sob os teus pés
exaurindo descalços
todo o compacto silêncio
dos cieiros e das colinas circundantes do Birianda
ouve-se
o frenesim da dor
pétrea percutindo
em saudade da roça
que lateja longe e penumbrosa
tal útero da casa
erodida porém amada

Foi-se o afago materno
levado pelo sueste
inundado pelo verde corrosivo
das ilhas do Equador
dessendentando até à exaustão do espanto
nas águas do Golfo
e do atroz dilúvio
soterrando as réstias da alma
e do caminho do regresso

E legou-te
a obstinação suplicante
da voz suspensa
e estes trilhos inclementes
aturdidos sob os teus pés cansados
e a negrura da servidão
luzindo no pardo suor do rosto e da pele triste
e os cascos fraternos dos asnos e das bestas de carga
e do seu o redondo e impoluto
que incendeiam as pedras
e contigo partilham a lonjura dos caminhos
a albarda
o odor agridoce dos frutos recentes
e a veemência da ingratidão

E legou-te este verde agreste
que resplandece
nos frutos e outras iguarias de Jaracunda
e na roça inominada
a que te sujeita o teu mudo perfil
e a sua profusão surda sombria
pelo estendal do quintal
e pelo fumegar da cozinha
em vil imagem sonhando
com a alforria


Lisboa, 20 de Outubro de 2004


3

à memória do meu pai António
à minha mãe Júlia
aos meus filhos Z’hay e Sven
aos filhos e netos de António e Júlia

Lembras-te, Davidinho
do dia ungindo-se erecto
todas as tardes
na candura das horas da sombra dos pessegueiros
na lonjura dos caminhos de pombal
quando a alma madrugava enxuta
e toda a fortuna se vislumbrava
no esplendor do grão
(ouro que se olvida e recende
sob os passos insones
das manhãs bronzeadas
retinindo com a saudade sendo)
eram Julho e Júlia
enamorados resplendores
da voz rouca possante
do rosto exacto do corpo largo
das mãos árduas generosas de António?


Todos nós éramos
varões arrebatados
aos olhares petrificados das esquinas
meninos espantalhos resguardados do circundante silêncio
resgatados ao suplício do cieiro e do quotidiano

como esses filhos de Assomada
por seis anos vezes dois retirados
da aragem da poeira da bruma de bolanha

como esse celebrizado violinista
marceneiro arribado prosternado sobre a melancolia
da madeira do violão da ausência da mãe
da memória do monte verde
na desolação sitiada da morna
no degredo da saudade
entre os muros da colónia penal de chão bom

como esse relojoeiro lendário hermafrodita
temido incendiário das casas da pobreza
da cobardia e da rotina do quotidiano
por seis anos escorraçado do convívio
da decência dos homens honrados
e da intimidade da folhagem
do poilão da boa-entrada

como aqueles filhos de jesuíno dâmaso
didi jova alice elisa maria filipa djudju
e tantos outros homens e mulheres grandes
humildes anónimos insubmissos
de almas clandestinas
rebeldes de santa Catarina

por seis anos desterrados da liberdade
e da imprecação contra os pastores
da mãe-pátria rubra-e-verde distante

sentenciados como contra-a-nação
à lenta devastação dos nervos
à cabisbaixa devoração dos ossos
à muda saturação das cordas vocais
ao temido deperecimento da alma
ao ponderado apodrecimento dos olhos
ao olvidado emudecimento dos corpos

confinados à voracidade reclusa da miragem
das noites longas da Assomada
sob o aprisionado mar
do tarrafal de Santiago

Todos nós éramos
pedras sentadas sondando
os destinos deste nosso Destino
destinos inertes destinos parados

Todos nós éramos
pedras brancas pedras negras
gestos brandas mãos do acaso
deslocando-se sóbrios e sábios
entre os desígnios de Deus
entre os vaticínios do cieiro
como enigmas no tabuleiro da dúvida

Todos nós éramos
solilóquios de pedras nuas
diálogos verbos pétreos
velando a geometria encarcerada da vida
sob a ténue sombra dos ciprestes

Todos nós éramos
pétalas de suor pedras de suão
pedras extenuadas palavras sufocadas
reverberando
sob a miraculada grandeza dos poilões

Todos nós éramos
faces pobres folhas podres do destino
velejando pela ilhada orografia da solidão
a ironia e a sageza
a sapiência e a ousadia
da interpelação
ao deus da afronta e das intempéries
nas noites longas da Assomada

(colagem do autor a partir do livro
Assomada Nocturna (poema de NZé di Sant’ yÁgu) Posted by Picasa

0 Comments:

Post a Comment

<< Home