Tuesday, March 13, 2007

CAPITALIDADES
Um olhar retrospectivo sobre alguns aspectos
da cultura e da história caboverdianas

Brevíssima nota introdutória
Constituem os presentes apontamentos parte de uma reflexão mais vasta inserida na celebração ensaística de algumas datas marcantes da cultura e da história caboverdianas. Pretendem os mesmos ser um pequeno e modesto subsídio às actuais discussões sobre a capitalidade cultural, despoletadas a pretexto das comemorações oficiais do centenário do nascimento da geração claridosa.

Breves anotações sobre o contexto histórico
da emergência das rivalidades entre S. Vicente e a Praia

Em 1856, tem lugar a primeira edição do romance O Escravo, do português radicado e caboverdiano adoptivo José Evaristo de Almeida. Considerado o primeiro romance de temática caboverdiana, O Escravo testemunha, em estilo romântico-realista, tanto as atribulações de um amor condenado pelas barreiras de raça e de classe como a formação de uma sociedade com identidade própria, crioula, prestes a se desembaraçar da escravocracia e dos seus resquícios ideológicos e racialistas.
O essencial do enredo do romance O Escravo decorre, curiosamente, no ano de 1835 num cenário próximo de Monteagarro, lugar onde teve lugar a preparação da malograda insurreição anti-escravocrata protagonizada por um grupo de escravos liderados por Gervásio, Narciso e Francisco. Pretendiam os mentores dessa malograda insurreição liquidar definitivamente a sociedade escravocrata, matando os senhores brancos e tomando conta da ilha de Santiago e, assim, instaurando uma espécie de Haiti caboverdiano na grande ilha. Denunciados, os cabecilhas da tentativa de insurreição foram condenados e, depois, arcabuzados, como comprova António Carreira no monumental Cabo Verde - Formação e Extinção de uma Sociedade Escravocrata e Oswaldo Osório encenou numa peça de teatro (cujo texto continua inédito em livro), no Salão Paroquial da Praia, nos heróicos e eufóricos anos setenta do século XX.
As ocorrências de Monteagarro são precedidas, em 1822, pela revolta dos Engenhos, a qual inaugura, na sequência da revolução liberal portuguesa e da independência do Brasil, um ciclo de revoltas (do contingente açoriano, de inspiração miguelista, de 1835, e retratada no romance O Escravo, da Achada Falcão de 1842, de Ribeirão Manuel, de 1910). Estas e outras dissenções sociais, como as ocorrências de Santo Antão de 1886, marcam de conflitualidade o período da desagregação da sociedade escravocrata e os tempos de emergência do liberalismo monárquico e, depois, do republicanismo, de clara marca nativista em Cabo Verde.
É nesses e nos tempos imediatamente precedentes que emergem ou/se consolidam as sagas dos Valentes de Julangue e de Lázaro, o salteador. Relembre-se, neste contexto, que a lenda relacionada com esta última personalidade foi ficcionada por João de Deus Lopes da Silva na novela homónima, publicada na revista Fragmentos. Anote-se que é também da autoria de João de Deus Lopes da Silva a novela "Revolta de Ribeirão Manuel" também publicada na revista Fragmentos.
O lugar inseguro para o poder colonial em que se transformou a ilha de Santiago nesses anos de oitocentos, insegurança ainda mais agravada devido à relativa desafectação política das elites políticas e possidentes dessa ilha, constituirá o mais importante pretexto que motivará os esforços da Coroa portuguesa no sentido de encontrar uma nova, abrigada e estabilizada capitalidade na ilha de S. Vicente. O interesse por essa ilha é suscitado, para além do mais, por nela se situar o mais importante porto natural de águas profundas de todo o Médio Atlântico. Como explica António Leão Correia e Silva no seu esplêndido Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo, uma nova conjuntura internacional concede um valor acrescido à ilha de S. Vicente e ao seu Porto Grande. Essa nova conjuntura internacional é marcada pela potenciação de novas fontes de energia, designadamente o carvão, e pelo aparecimento de novas tecnologias para a navegação de longo curso, bem como pela independência das nações sul-americanas na sequência da quebra da posse colonial ibérica nesse subcontinente, onde o Império Britânico, à cata de matérias primas e de mercado para a sua pujante indústria, começava a perfilar-se como potência económica dominante. A alegada insalubridade do clima da Vila da Praia nos tempos pantanosos das as-águas será, todavia, o argumento decisivo e definitivo, publicamente utilizado, quer para justificar a (des)localização da capital, marcada pela intermitência e pela itinerância por várias Vilas espalhadas pelas ilhas, quer para sustentar a argumentação da mudança definitiva da capital da Vila da Praia para um Mindelo localizado no futuro, porque ainda por edificar.
Além disso e depois da perda do Brasil, a ilha de S. Vicente afigura-se às mentes da Rainha Dona Maria II, do Ministro Visconde de Sá da Bandeira e de Joaquim Pereira Marinho, o Governador de Cabo Verde na altura, como lugar de superação de uma escravocracia em ruínas, cuja morte definitiva em 1878 seria decretada em 1869, e de renovação de um colonialismo esfusiante de propósitos liberais e “civilizadores” na sua estratégia de expansão e de construção de novos Brasis em África. Como sustenta António Leão Correia e Silva, no acima referenciado Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo, e João Nobre de Oliveira, em A Imprensa Cabo-Verdiana, São Vicente é agora pensado como entreposto comercial e lugar de localização das indústrias transformadoras de matérias primas a arrecadar na costa vizinha africana, sobretudo no território da Guiné, distrito integrante, até 1979, da província de Cabo Verde, enquanto “colónia da colónia”.
Relembre-se que, anteriormente e sob o impulso de António Pusich, foram empreendidas várias tentativas de povoamento da ilha, até então utilizada como porto de abrigo de barcos de potências adversárias, refúgio de piratas e ilha-montado, na pertinente expressão do historiador António Leão Correia e Silva, para onde os proprietários de Santo Antão e de S. Nicolau mandavam apascentar os seus animais, praticavam contrabando e colhiam ilegalmente urzela.
Foram os casos das tentativas empreendidas pelo morgado foguense João Carlos de Afonseca, em 1795, e Pedro Machado de Miranda, em 1814. O morgado morreu na miséria depois do rotundo fracsasso do seu empreendimento. A segunda tentativa de povoamento teve melhor sucesso. Dela resultou uma pobre aldeia de pescadores, situada à boca do Porto Grande como débil parceira da pétrea solidão do Monte da Cara.
Na sequência desses desaires, chega-se, depois, a alvitrar um povoamento exclusivamente branco para a mesma ilha de S. Vicente.
As várias tentativas de povoamento da ilha fracassaram, absoluta ou relativamente, porque, promovidas com base em pressupostos agrários, foram confrontadas com a notória escassez de recursos hídricos capazes de sustentar a subsistência dos povoadores e de uma economia agrícola, agro-mercantil ou mesmo agro-pecuária de subsistência, como ocorrera nas ilhas de Santiago e do Fogo, de povoamento mais antigo, ou nas ilhas de S. Nicolau, Sto Antão, Brava ou Boavista, ocupadas na segunda fase do povoamento das ilhas, como esclarecer António Correia e Silva em Histórias de um Sahel Insular.
Goradas tanto as tentativas de povoamento da ilha, incluindo o povoamento branco, como a decretada ascensão da sua imaginada e futura cidade do Mindelo à capitalidade político-administrativa, conforme previa o Decreto de Sá da Bandeira de 1838 (curiosamente o ano em que a Praia ascende à categoria de Vila), a ilha de S. Vicente povoar-se-á final e definitivamente de caboverdianos de origens sociais diversas e de todas as ilhas, com destaque para as de Barlavento, reforçados por portugueses, judeus sefarditas e súbditos britânicos, todos reunidos à boca do Porto Grande e dos depósitos carvoeiros introduzidos pelo inglês John Rendall a partir de 1850.
É assim que a povoação do Mindelo (antigamente denominada povoação de D. Rodrigo e, depois, de Dona Leopoldina) ascende à categoria de Vila, em 1858, conjuntamente com Bissau (capital do distrito da Guiné, então dirigido por um governador dependente do Governo Geral da Província de Cabo Verde, sedeado definitivamente na Praia, desde 1855) pelo mesmo Decreto régio que promove a Praia, detentora da categoria de Vila desde 1838, a Cidade.
As nascentes desavenças em torno da capitalidade político-administrativa saldar-se-ão por um empate técnico, quando a vila do Mindelo, agora pujante e economicamente dinâmica, é final e definitivamente promovida a cidade em 1878. Mesmo sem lograr tornar-se sede do poder administrativo da colónia, a urbe do Porto Grande consagrar-se-á, no decorrer da segunda metade do século XIX, como “pulmão económico de Cabo Verde”, enquanto seu principal centro económico-comercial, e, no dizer de Manuel Lopes, como “janela aberta ao mundo e aos ventos da civilização”, devido ao papel preponderante que o seu porto desempenha na encruzilhada das rotas marítimas entre três continentes (antes de ser suplantado, nos anos noventa de oitocentos, pelos portos de Dakar e das Canárias). Correlativamente, a cidade do Mindelo converte-se em foco de convergência de migrantes, em busca de trabalho e de outros biscaites propiciados por uma cidade-porto, e de negociantes sazonais de outras ilhas, fornecedores dos produtos agro-pecuários de que careciam tanto a população, residente numa ilha hidricamente marcada pela esterilidade, como também os inúmeros barcos surtos no porto. A par disso, o Mindelo transforma-se, a pouco e pouco, em polo de atracção das elites económicas, oriundas sobretudo das ilhas do Barlavento. A isso acrescem, para além de outra população flutuante, a estadia temporária de emigrantes europeus e asiáticos a caminho das Américas, a instalação do pessoal dos corpos técnicos e administrativos do cabo submarino e de importantes companhias telegráficas, inglesas e italianas, bem como funcionários e agentes de representações consulares de vários países. A fisionomia da população da urbe em acelerado crescimento é marcada assim por um inusitado cosmopolitismo e um variegado cromatismo racial.
Os desenvolvimentos acima referenciados marcariam duradouramente a vida cultural cabo-verdiana, pendular e competitivamente bicéfala entre a cidade da Praia e a cidade do Mindelo, os seus centros culturais mais importantes a partir dos anos trinta do século XX.

As vicissitudes histórico-sociais da capitalidade cultural,a itinerância administrativa e a preponderância praiense
Com efeito, a itinerância administrativa e a multipolaridade cultural, que se despoletaram com o progressivo abandono, a partir dos fins do século XVIII, do berço da cultura e da intelectualidade caboverdiana, a antiga cidade da Ribeira Grande de Santiago (doravante chamada Cidade Velha), carimbaram com a sua marca característica o século XIX caboverdiano e o seu liberalismo monárquico, tendo-se prolongado até à mudança definitiva da capital para a cidade da Praia, de facto em 1855 e de jure em 1858, e arrastado pelos tempos da agonia da monarquia até à implantação da República, em 1910.
Contemporizando com esse estado de coisas, a Cidade da Praia marcara com a sua hegemonia cultural os períodos germinal e áureo da imprensa caboverdiana. Essa marca começara por se configurar, em 1855, com a fixação definitiva da capital na Praia e com a tranferência para a mesma da Escola Principal do Ensino Primário, depois de, em 1845, ter sido fundada e ter funcionado na ilha Brava. Segue-depois, em 1860, a instalação na nova cidade do Lyceo Nacional, o primeiro de Cabo Verde.
A preponderância praiense sofre um duro golpe com a transferência para a ilha de S. Nicolau quer da Escola Principal do Ensino Primário, quer ainda da sede da Diocese de Cabo Verde. Dessa última transferência resulta a consequente instalação do Seminário-Liceu na ilha de S. Nicolau e a emergência desta mesma ilha como um dos pólos da primeira expressão das bicefalia cultural caboverdiana, então dividida entre a cidade da Praia e a Vila da Ribeira Brava. Apesar de partilhar a preponderância cultural com a ilha de S. Nicolau, o papel da cidade da Praia torna-se cada vez mais visível com a fundação, em 1877, de O Independente, o primeiro jornal privado cabo-verdiano, a que se seguem todos os outros jornais, privados, publicados em Cabo Verde até 1899.
Para além disso, é na cidade da Praia que, na altura, se concentram os mais relevantes círculos culturais e gabinetes de leitura bem como as mais importantes infra-estruturas culturais, como a Imprensa Nacional, a Biblioteca-Museu Nacional e o Teatro Africano.
É, por isso, que, como se lê em A Formação da Nação Cabo-verdiana-Análise da Imprensa entre 1877 e 1975, de Manuel Brito Semedo, é na Praia que tem lugar a primeira impressão de livros em terras cabo-verdianas, designadamente dos livros de poemas Mal de Amor e Santificação do Beijo, de Eugénio Tavares, que são editados em 1916.
É também na Praia que se despoleta o modernismo cultural (literário e plástico) com a publicação do livro Diário, de António Pedro, o qual ostenta um desenho de Jaime de Figueiredo, intelectual que prega um modernismo de forte inspiração presencista, e, em 1931, cria, com Jorge Barbosa, João Lopes, Francisco Torres e Julião Quintinha (metropolitano de passagem por Cabo Verde), o grupo Atlanta, o primeiro grupo (ou “tertúlia”, como prefere Arnaldo França) caboverdiano assumidamente modernista.


A emergência do Mindelo como centro cultural

O papel cultural do Mindelo começou a delinear-se a partir dos fins do século XIX, com a publicação nessa cidade, de vários jornais, de entre os quais o célebre Revista de Cabo Verde, fundado em 1899 por Luís Loff de Vasconcellos, seu proprietário e director. Esse primeiro jornal sanvicentino conta com a colaboração do próprio Luís Loff de Vasconcellos bem como de Eugénio Tavares, José Lopes e outros proeminentes intelectuais nativistas.
Fortemente apoiada por esse jornal e pelos seus articulistas bravenses Eugénio Tavares e Luís Loff de Vasconcellos (autor de livros e outros textos desassombrados como Memorial do povo da Ilha de s. Vicente de Cabo Verde, A Exterminação de Cabo Verde - Pavorosas Revelações e A Perdição da Pátria, para além da obra ficcional Ecos de Aldeia) na defesa do seu porto e de outros interesses como ilha caboverdiana bem como nas suas reivindicações e pretensões de mudança em seu favor da capital da província, a cidade do Mindelo perfilar-se-á, depois, como culturalmente preponderante quando consegue que o Liceu criado, em 1917, na sequência da extinção, em 1916, do Seminário-Liceu de S. Nicolau, fosse localizado no seu território. Essa localização fica a dever-se em grande medida à acção de Augusto Vera- Cruz, senador da República portuguesa, nascido na ilha do Sal e estabelecido no Mindelo como grande comerciante. Com efeito, o senador Vera-Cruz pôs a sua vivenda da Praça Nova à disposição das autoridades para a instalação do novo estabelecimento de ensino.
A localização no Mindelo do recém-criado Liceu veio contrariar os insistentes pedidos das elites praienses, simbolizadas em João de Deus Tavares Homem (o caboverdiano mais rico da altura), pedidos esses fundamentados no passado da Praia como sede do primeiro Liceu de Cabo Verde, nos pergaminhos da mesma como capital da província, para mais detentora de maior dinâmica cultural por essa época áurea da imprensa republicana e situada numa ilha (Santiago) e numa região (o Sotavento) onde se concentrava a maior parte da população caboverdiana. Grande revés sofre também S. Nicolau, ilha, , aliás, para a qual esteve primeiramente prevista a instalação do novo templo do saber que viria substituir o seu Seminário-liceu, ainda segundo Manuel Brito Semedo, constou expressamente do diploma legal que instituiu o liceu.
A partir da fundação do seu Liceu, em 1917, a cidade do Mindelo consagrar-se-á também como lugar de relativa democratização do ensino secundário, como, em 1952, constata Amílcar Cabral no Boletim Cabo Verde (“Breves apontamentos sobre a poesia cabo-verdiana”), e, com a implantação da Escola Técnica, de acesso à formação técnico-profissional.
A par disso, o Mindelo vai consolidando o seu papel de lugar de convergência de letrados (e das suas memórias, experiências e vivências insulares originárias) e de centro de efervescência cultural.
A criação do liceu Infante Dom Henrique assinala outrossim o duradouro crepúsculo socio-cultural de outros centros e ilhas do Barlavento caboverdiano, como S. Nicolau, Boavista e Santo Antão. Essas ilhas, que se vêm juntar à vila de Nova Sintra da Brava e a que, em certa medida, acresce a cidade da Praia de Santiago, foram sucessivamente alienadas e despojadas das suas funções políticas, judiciais, culturais e/ou económicas em favor de S. Vicente, muito favorecida pelas dinâmicas económicas e sociais suscitadas pelo seu Porto Grande. Anote-se que, posteriormente as elites da s ilhas do Barlavento passaram a rever-se, em grande medida, em S. Vicente, ilha com a qual as suas elites passaram pragmaticamente a identificar-se, nela por vezes se estabelecendo e aos seus negócios. Essa identificação ocorre depois de alguma relutância inicial em ver criada uma cidade naquilo que, até então, consideravam como sua coutada para a criação pecuária. Muito ajudava ao estabelecimento e à plena adaptação dos recém-chegados o facto de a cidade e a sua população se encontrarem em processo urbano de edificação sociológica e de construção de uma identidade própria, nas quais os oriundos de todas as ilhas e proveniências podiam participar na busca de um lugar ao sol, mesmo que modesto para não dizer mísero. Ponto é que renunciassem à ostentação da sua identidade insular originária, se deixassem absorver pelas solicitações da nova ilha caboverdiana em construção, também identitária, e se envolvessem e identificassem com os seus interesses e propósitos. Propósitos cada vez mais alinhados na busca de uma centralidade rival à da cidade da Praia e da ilha de Santiago, doravante identificadas com atraso cultural (porque alegadamente sinónimo de maior negro-africanidade), conservadorismo social e parasitismo administrativo.Correlativamente, passaram os habitantes e originários da ilha de Santiago a ser pejorativamente apodados de badios. Relembre-se que esse termo, com o qual actualmente os habitantes de Santiago se identificam plena, orgulhosa e reivindicativamente, é etimologicamente originário do vocábulo português "vadio", utilizado inicialmente para desqualificar os negros fujões e os pretos forros de todas as ilhas habitadas, então avessos e renitentes à clausura escravocrata e resistentes à submissão a uma economia capitalista de plantação que viesse substituir a economia escravocrata, como ocorrera, por exemplo, em S.Tomé e Príncipe, no Brasil ou nas Caraíbas.A fundamentação culturalista da suposta "exemplaridade negativa" e da ostracização cultural de Santiago (em especial do seu interior) bem como de uma alegada dicotomia sociológica entre o Barlavento e o Sotavento foi largamente empreendida por alguns claridosos e seus contemporâneos, com destaque para João Lopes e Baltasar Lopes da Silva, pesem embora duas importantíssimas circunstâncias, nomeadamente:
a) o indisfarçável fascínio de Baltasar Lopes da Silva pelo folclore poético da ilha maior e a sua preferência pelo crioulo de Santiago como base da construção de um padrão literário em crioulo;
b) a atenção de João Lopes pela rebeldia dos negros da grande ilha, anteriormente acusados de serem portadores de complexos de inferioridade por alegadamente serem produtos de uma sociedade patriarcal latifundiária, tendo, por isso, alegadamente beneficiado menos da miscigenação biológica e cultural ocorrida no Barlavento minifundiário. As teses da dicotomia sociológico-cultural caboverdiana e da alegada e única diluição de Àfrica na configuração da crioulidade caboverdiana foram, como é sabido, severamente atacadas no célebre ensaio Consciencialização na Literatura Cabo-verdiana, de 1963. Elas foram recentemente retomadas no ensaio "Subsídios para a regionalização em Cabo Verde", constante do livro A Democracia em Cabo Verde, de Onésimo Silveira, que as reclica para fundamentar uma alegada superioridade cultural do Barlavento (depois supostamente consolidada no Mindelo) sobre um Sotavento, considerado sulista e agrário.
Anote-se que o Liceu Infante Dom Henrique muda mais tarde de nome para Liceu de Gil Eanes. Tal mudança ocorre depois da extinção do mesmo liceu, em Outubro de 1937, e sua refundação doze dias depois, a nove de Novembro (curiosamente, em conjunção com a criação da Escola Comercial e Técnica do Mindelo e da Escola Agrícola de S. Jorge dos Órgãos, em Santiago). Decisiva para essa reabertura foi a reacção pronta das autoridades provinciais e locais e dos protestos uníssonos da muito activa sociedade mindelense, representada pela Associação Comercial, Industrial e Agrícola do Barlavento, pelos Falcões de Cabo Verde, de Bento de Oliveira, bem como pelos Promotores da União Nacional, como elencam João Nobre de Oliveira, no monumental A Imprensa Cabo-verdiana, e Manuel Brito Semedo na obra supra-referenciada.
A instituição do Liceu em S. Vicente assegurará uma predominância da cidade do Mindelo nas dinâmicas literário-culturais caboverdianas que se prolongará pelo período situado entre os anos trinta e os anos cinquenta do século XX. Essa preponderância literáro-cultural opera-se doravante no quadro de uma bicefalia cultural marcada pela rivalidade entre a cidade portuária nortenha e a capital administrativa de Cabo Verde.
Relembre-se que com o desaparecimento da República, esgotada em crises e dissenções várias, e a emergência do Estado Novo num Portugal agora entendido, nos termos do Acto Colonial, de 1930, como “uno e indivisível”, “de Minho a Timor, são sufocadas as vozes nativistas outrora concentradas na cidade da Praia, à volta de vários jornais, com destaque para os rivais A Voz de Cabo Verde e O Futuro de Cabo Verde, e também sonantes em outras ilhas, como S. Vicente e o Fogo, onde Pedro Cardoso cria o Manduco. Por outro lado, são liquidadas no ovo todas as tentativas de reforma ou de rebeldia contra o estado crísico das coisas, como comprovaram tanto a não autorização de uma União Regionalista Cabo-Verdiana, projectada em 1932, em S. Vicente, como a repressão da revolta de 1934, contra a miséria e a fome, consubstanciada nos assaltos aos armazéns alfandegários e privados de géneros alimentícios e liderada pelo marceneiro Ambrósio. Deportado para Angola, Ambrósio é depois mitificado por Gabriel Mariano no poema "Capitão Ambrósio", de fortes ressonâncias épicas, e ficcionalmente recuperado por vários escritores caboverdianos que passaram pela cidade nortenha.
Os efeitos despoletados pelo Liceu na atracção de professores e outros letrados instruídos esssencialmente no Seminário-Liceu de S. Nicolau, na formação dos aprendizes de intelectuais que eram os seus estudantes e de um público leitor, interessado, esclarecido e constituído maioritariamente por funcionários públicos, empregados comerciais, membros de profissões liberais e de outras elites económicas e sociais, bem como as suas repercussões na apreensão para as temática literárias e para as reinvenções musicais e outras reelaborações culturais da ilha de S. Vicente e das vivências das suas e de outras gentes chegadas de outras ilhas, bastas vezes nhanhidas ainda que inundadas de alegria carnavalesca, somam-se àqueles induzidos por uma centralidade económica que girava à volta do Porto Grande e dos seus ciclos crísicos, tornados crises crónicas a partir da superação das suas vantagens comparativa pelos mais competitivos portos das Canárias e de Dakar.
A nascente primazia literário-cultural do Mindelo fica atestada na existência do jornal Notícias de Cabo Verde (o mais longevo jornal cabo-verdiano (1931-1962) do período colonial), nas primeira, segunda e terceira séries da revista Claridade (de 1937 a 1838, de 1947 a 1949, de 1958 e 1960, respectivamente) e nas folhas estudantis e juvenis que intermitentemente iam surgindo. São os casos de :
a) Juventude, em 1936, folha liceal que assinala o nascimento de Teixeira de Sousa para a vida literária;
b) Certeza, em 1944, revista que marca o surgimento da segunda vaga claridosa, ao mesmo tempo que indicia a Nova Largada com o “poema de amanhã”, de António Nunes;
c) Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes, em 1959, o qual marca o baptismo poético de Corsino Fortes e as repercussões do nacionalismo político na geração mobilizada por Abílio Duarte em torno do Grupo Cultural do Terceiro Ciclo;
d) Seló, suplemento literário do jornal Notícias de Cabo Verde, criado em 1962, sob influência e com o apoio de Manuel Duarte e que marca as estreias literárias de Oswaldo Osório, Rolando Vera-Cruz Martins e Jorge Miranda Alfama e tem a colaboração de Maria Margarida Mascarenhas, Mário Fonseca e Arménio Vieira, anteriormente revelados no Boletim Cabo Verde.


O Notícias de Cabo Verde, o mais longevo jornal caboverdiano de todos os tempos

O mais importante jornal caboverdiano desses primeiros tempos pós-republicanos, o sanvicentino Notícias de Cabo Verde, reflecte os tempos crísicos do Mindelo e do Cabo Verde da altura ao mesmo tempo que funciona como porta-voz de uma pretensão de liderança e de primazia no quadro provinciano caboverdiano. O sempre afirmado cosmopolitismo dos sanvicentinos, alegadamente de feição ocidental, e a mal digerida questão da capitalidade da Praia, exacerbada por um alegado parasitismo das outras ilhas caboverdianas e da capital da província à volta das receitas do Porto Grande marcam especialmente as intervenções deste jornal.
(Breve parêntese. “A Praia come no prato sanvicentino”, exclamaria recentemente o santantonense António Jorge Delgado, paladino europeísta das ilhas macaronésicas (todas as ilhas antigamente ditas sampadjudas com a óbvia excepção de Santiago) e convicto e confesso detractor da ilha da capital ( desconsiderada antigamente como badia, e, actualmente, como a única africana). Nessa nova visão, pode o antigo ministro da cultura contar com o inestimável apoio teórico e as correcções tácticas do seu rival das eleiçoes autárquicas, Onésimo Silveira, mais afiladas com uma contraposição sociológico-culturalista entre o Barlavento nortenho, considerado culturalmente mais avançado, e o Sotavento sulista, tido por mais atrasado).
Tal postura surge, aliás, em conformidade com os pontos de vista de várias personalidades mindelenses da época, como Francisco Xavier da Cruz (B. Lèza), João Cleofas Martins (Nho Djunga), os irmãos Duarte da Silva ou Manuel (Leça) Ribeiro de Almeida, proprietário e director do jornal, em defesa da divisão de Cabo Verde em dois distritos directamente dependentes do Governo Central metropolitano. A defesa dos interesses da província, muito centrados na necessidade da modernização do Porto Grande e na criação de alterrnativas para debelar as fomes e outras crónicas crises caboverdianas, caminham a par da reivindicação de um estatuto da adjacência a Portugal, idêntico ao estatuto da Madeira e dos Açores. Do mesmo modo, a reivindicação da crioulidade caboverdiana caminha a par da reiteração da necessidade da desafricanização político-cultural de Cabo Verde e da reafirmação da portugalidade das ilhas achadas pelos portugueses e que melhor comprovariam a excelência da colonização lusitana e da capacidade civilizacional insíta no “mundo que o português criou”.

O Notícias de Cabo Verde começou por coexistir, nos anos trinta, com outros jornais, como os praienses Eco de Cabo Verde e Mocidade Cabo-Verdiana, o Ressurgimento santantonense, A Defesa sanicolauense, para depois passar a existir quase solitariamente por um largo período, nos fins dos anos trinta e nos anos quarenta do século XX. . Embora detentora das oficinas nas quais são impressas o Notícias de Cabo Verde, a revista Claridade, o primeiro número da revista Certeza bem como outros boletins culturais sanvicentinos e jornais do Barlavento, o livro Arquipélago, de Jorge Barbosa (chancela das Edições Claridade), a Sociedade de Tipografia e Publicidade, Lda, não logra suplantar as gráficas sedeadas na capital da província no que respeita à edição de livros. É assim que os dois derradeiros números da revista Certeza, o livro Ambiente, de Jorge Barbosa, o livro Devaneios, de António Nunes, as Memórias e Reflexões, de Juvenal Cabral, os Cadernos Luso-Cabo-Verdianos, de Pedro Cardoso, Cabo Verde visto por Gilberto Freyre, de Baltasar Lopes da Silva, Cabo Verde e a sua Gente, de Teixeira de Sousa, as noveletas de António Aurélio Gonçalves, entre outras publicações, são impressos e dados à estampa na Praia pela Imprensa Nacional e pela Minerva de Cabo Verde, nesses anos trinta, quarenta e cinquenta de grande carestia editorial.

O lugar da revista Claridade e o seu contexto histórico-cultural

A fundação das revistas Claridade e Certeza é, em regra, considerada a prova mais evidente da efervescência literária mindelense.
Anote-se que a efervescência despoletada pela revista Claridade é largamente tributária de circunstancisalismos da mais diversa índole, com destaque para:
a) o magistério intelectual do Seminário-Liceu de S. Nicolau, onde se formou uma parte dos seus mentores, promotores e colaboradores(como Jaime de Figueiredo, Baltasar Lopes da Silva ou António Aurélio Gonçalves);
b) as experiências nativistas na defesa dos interesses da terra e na reivindicação de uma cidadania que, querendo-se plenamente portuguesa, se movimentava no âmbito da “cissiparidade pátrida” (na terminologia de Manuel Ferreira) da ambivalência da dupla lealdade à “pátria monumental portuguesa” (na expressãode Gabriel Fernandes) e da mátria caboverdiana crioula.
Nesta óptica, e tendo em conta os constrangimentos advenientes de um tempo de bloqueio, censura, policiamento político e reafirmação contundente do carácter imperial da noção salazarista da nação portuguesa como vocacionada para “civilizar” (asssimilar) os povos coloniais sob o seu domínio, os claridosos preferiram transferir a sua escrita do plano do jornalismo reivindicativo para o plano da construção de uma regionalidade literária caboverdiana, sintonizada com a revolução estética despoletada pelo modernismo presencista e alumbrada pela telurização temática brasileira nordestina e pelos realismos norte-americano, russo, francês e português.
No plano das concepções político-culturais, os claridosos permaneceram no campo do ideário nativista da adjacência política e cultural a Portugal. Dão-lhe, todavia, fundamentações novas e de efeitos contraditórios, como ocorrem com as teorias de Baltasar Lopes relativas à única “diluição de África” na formação da nossa crioulidade e ao primordial papel do caboverdiano como arquitecto principal na estruturação e na autonomização cultural da sociedade das ilhas bem como na criação da principal componente da sua identidade regional, o idioma caboverdiano.
As reivindicações adjacentistas protagonizadas ou induzidas pelos claridosos, voluntaria ou involuntariamente mutiladas da componente autonomista, representam, de certo modo, um retrocesso em relação aos nativistas, e entram em colisão quer com as afirmações da plena originalidade crioula da cultura caboverdiana, mesmo quando esta é interpretada como um caso de regionalismo cultural europeu, quer com as repercussões objectivamente nacionalizantes e emancipalistas provocadas pela obra literária por eles arduamente construída.
A plena caboverdianização temática, de carácter exclusivista e excludente de outros e diferentes olhares literários sobre o ser caboverdiano, culmina e reflecte-se na invenção de um português literário, o qual, ainda que esteticamente artificioso, se aproxima mais das mundivências do “caboverdiano anónimo, humilde, meu irmão”.
Para além de proclamação da independência literária caboverdiana (para fazer uso de uma feliz expressão utilizada por Aristides Pereira por ocasião das comemorações do cinquentenário da revista Claridade), tais estratégias político-literárias consubstanciam uma relevante, porque fracturante, deriva literária do nativismo (como fundamenta Onésimo Silveira no ensaio “O Nativismo cabo-verdiano: o caso de Amílcar Cabral”).
Anote-se neste contexto que, a par da sua obra cívica e da sua poética, diversamente conjugadora do hesperitanismo, do romantismo e do patriotismo camoneano, republicano e lusitano-crioulo (na expressão de José Carlos Gomes dos Anjos), os nativistas deram um contributo de valor para a teluricização e a crioulização da literatura caboverdiana, como se verifica em vários poemas, romances e outra obra narrativa , ficcional e dramatúrgica dados à estampa por José Evaristo de Ameida, Guilherme Dantas, Luis Loff de Vaconcellos, Félix Lopes da Silva, António de Arteaga, Eugénio Tavares, José Bernardo Alfama, João José Nunes, Juvenal Cabral, entre outros. A poesia em crioulo de vários nativistas, com destaque para a de Eugénio Tavares, e os estudos ensaísticos de António da Paula Brito, Pedro Cardoso, entre outros, denotam de forma insofismável, o desejo e a praxis de sintonização literária com o homem e a terra caboverdianos, mesmo se fazendo uso, por vezes com provinciano atraso, dos recursos linguísticos e das técnicas da linguagem então disponíveis no mundo ocidental e na sua periferia caboverdiana. Relembre-se, aliás, que também os claridosos, os nova-largadistas e os novíssimos de todas as épocas literárias fizeram uso dos meios linguísticos e estéticos disponíveis no seu tempo para falar de coisas nossas ou para nós, de alguma forma, relevantes.
c) A disponibilização dos meios estéticos ocorrida das dinâmicas despoletadas por processos anteriores de divulgação modernista protagonizada pelo grupo Atlanta, fundado na Praia, por Jaime de Figueiredo, Jorge Barbosa, João Lopes e Henrique Torres, a que acresce a cumplicidade solidária do português Julião Quintinha, de passagem pelas nossas ilhas.
Esses processos surgem na sequência da publicação, em Portugal das revistas Orfeu e Presença e da edição, em 1929, na Praia, do livro de poemas Diário, de António Pedro Costa. Este último livro marca a fundação do modernismo poético caboverdiano, sendo, por isso, justo considerar o seu autor como o principal precursor contemporâneo do modernismo telúrico claridoso. Relembre-se que foi intenso e altamente profícuo o convívio entre o modernista luso-caboverdiano António Pedro (mais tarde surrealista notável e proeminente Homem-Teatro de Portugal) e o presencista Jaime de Figueiredo. Tanto assim é que Jaime de Figueiredo concebeu a capa do Diário, no qual estampa, em figuração verde-ouro, uma mulher tipica das ilhas, enquanto que António Pedro o faz entrar com algumas obras pictóricas (algumas depois reproduzidas em A Casa dos Mastros, de Orlanda Amarilis) no metropolitano Salão dos Independentes. Jaime de Figueiredo terá sido o mais importante promotor do modernismo (de feição presencista ) nesse Cabo Verde dos anos vinte e trinta do século vinte. A sua erudição torna-o no mais importante ensaísta da poesia caboverdiana desses tempos tardo-coloniais como comprovam as suas incursões pela obras de Osvaldo Alcântara e António Nunes ou o seu prefácio à Antologia dos Modernos Poetas Cabo-Verdianos, de 1961, por ele organizada.
Importante papel na promoção da necessidade da incorporação do modernismo na literatura caboverdiana desempenhou, segundo Manuel Ferreira, a pugna de Quirino Spencer Salomão contra o classissismo de Pedro Cardoso e José Lopes, nativistas muito avessos ao bolchevismo literário que para eles seria o modernismo poético. Eles que faziam profissão de fé pelo poeta como técnico do verso construido à medida do metro e da rima e embebido de grandiloquência e classisismo greco-latinos.
Como refere Manuel Ferreira na “Introdução” à edição fac-similada da revista Claridade, datada de 1986, também relevantes são as experiências modernistas empreendidas nesses princípios dos anos trinta por vários poetas caboverdianos, como Jorge Barbosa ou Manuel Serra. Nessas experiências releva a conjugação da liberdade psicológica do sujeito poético com uma linguagem marcada pelo desprendimento rítmico nascido dessa liberdade do poeta, pela superação da grandiloquência vocabular e da retórica neo-classissizante bem como pela transitória manutenção de formas fixas como o soneto ou a rima.
A plena transição para um telurismo versilibrista, de feição claridosa, ocorre pela primeira vez com a publicação de Arquipélago, de Jorge Barbosa, livro em cuja badana Jaime de Figueiredo escreve um curto, mas memorável, texto de exaltação da singularidade atlântica e da originalidade antropológica da cultura caboverdiana.
Na prosa narrativa, relevam as experiências de Manuel Lopes, fixadas, em 1932, em “Paúl”, e os excertos do romance Chiquinho que Baltasar Lopes publica, ainda em 1935, na imprensa metropolitana.
A dinâmica claridosa ocorre, outrossim, pelo activismo de intelectuais originários de várias ilhas como resposta cívica e literária a um tempo de crises várias:
a) crise da navegação, a qual ameaçava hipotecar duradouramente o futuro periclitante do Porto Grande;
b) crise das as-águas que dizimava as populações das ilhas;
c) crise da emigração, quando, interditada a entrada de negros e analfabetos nos Estados Unidos da América, se fecham todas as portas da salvação caboverdiana, salvo as que conduziam para as terras do Sul, úberes de verde tragédia.
Anote-se a origem santiaguense de Jorge Barbosa e a origem sanicolauense de (para além de Pedro Corsino Azevedo) Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes e João Lopes, os claridosos-fundadores. Se bem que, no caso de Manuel Lopes, se deva ter em conta que ele se assumia convicatamente como sanvicentino, pois que nascido, por vicissitudes familiares, em S. Nicolau, ilha de onde era originária a mãe, foi na ilha do Porto Grande que foi registado e baptizado e onde formou a sua personalidade humana. Aliás, o autor de Os Flagelados do Vento Leste, Chuva Braba, O Galo Cantou na Baía, Poemas de quem Ficou e Crioulo e outros Poemas assume, em entrevista a Danny Spínola, como preponderante na sua cosmovisão caboverdiana um inequívoco triângulo S. Nicolau, S. Vicente e Santo Antão.
Anote-se ainda ainda que, na altura da fundação da revista Claridade e da saída a público da sua primeira série de 1936/37, o tardo-claridoso António Aurélio Gonçalves encontrava-se fixado em Lisboa, onde, à semelhança de muitos nativistas da velha guarda e outros mais jovens, como Júlio Monteiro Júnior, Baltasar Lopes da Silva ou, até, o finalista liceal Félix Monteiro, colaborava em jornais pan-africanistas. António Aurélio Gonçalves só regressaria a Cabo Verde nos fins dos anos trinta, depois de quase vinte anos de ausência. Tal como Teixeira de Sousa, Aguinaldo Fonseca e alguns próceres da revista Certeza, como Nuno Miranda ou Arnaldo França, o futuro e emérito autor das noveletas mindelenses só iniciará, em 1947, a colaboração na Claridade, a partir da sua segunda série (de 1947/48/49), e só iniciará a publicação das suas noveletas a partir do número cinco de 1948. Toda a sua obra ficcional dada à estampa no tempo colonial será publicada pela Imprensa Nacional da Praia.
Como é sabido, a revista Claridade viria a agregar nas suas páginas sucessivas gerações de escritores caboverdianos, os quais se iam revelando em publicações várias, com destaque para as revistas Certeza e Boletim Cabo Verde.
Deste modo, a revista torna-se cada vez mais eclética, do ponto de vista estético-ideológico, embora conservando a primacial matriz modernista, e cada vez mais abrangente, do ponto de vista temático, das vivências de ilhas, como Santiago e o Fogo, não incorporadas ficcionalmente na sua primeira série. Relembre-se que na poesia, o estro de Jorge Barbosa divagava por todas as ilhas e tragédias caboverdianas, ao mesmo tempo que no ensaio Santiago era sempre referência incontornável das reflexões de Baltasar Lopes e João Lopes sobre o nosso ser e devir histórico-culturais. A partir da segunda série Teixeira de Sousa e Félix Monteiro debruçar-se-ão longamente sobre as ilhas do Fogo e Santiago.
Deste modo, constituem-se:
a) a tardo-claridosidade de António Aurélio Gonçalves, Sérgio Frusoni ou B. Lèza (o compositor inovador e autor das letras/poemas da morna que não o autor Francisco Xavier da Cruz, o qual deve ser considerado mais próximo de um tardo-nativismo hesperitano do que do modernismo clarisoso, não só quanto às concepções bipátridas, às preocupações culturais em relação ao folclore caboverdiano como também no que respeita ao estilo e estética da sua poesia em português, muito próxima de Pedro Cardoso).
b) as novas vagas claridosas de autores provenientes das seguintes ilhas: S. Nicolau, com Gabriel Mariano; S. Vicente, com Nuno Miranda, Aguinaldo Fonseca, Félix Monteiro, Onésimo Silveira, Francisco Lopes da Silva, Sérgio Frusoni e Yolanda Morazzo; Fogo, com Henrique Teixeira de Sousa e Mário Macedo Barbosa; Santo Antão, com Tomás Martins, Guilherme Rocheteau e Vírginio de Melo; Sal com Jorge Pedro Barbosa; Santiago, com Arnaldo França e Virgílio Pires.
Outros escritores contemporâneos dessas novas vagas de colaboradores claridosos, provenientes das revistas Certeza e Boletim Cabo Verde e dos boletins liceais, permaneceram à margem da revista Claridade. Alguns, como Luís Romano, Orlanda Amarílis e Euclides Menezes, preferiram a solidão dos caminhos editoriais. Outros privilegiaram o Boletim Cabo Verde ( lugar de revelação de muitos colaboradores da revista Claridade), como Maria Helena Spencer e Pedro Duarte, e a rádio ou a clandestinidade editorial, como foi o caso de João Cleofas Martins. Alguns desses autores podem ser, aliás, considerados esteticamente claridosos de segunda vaga, em contraste com alguns colaboradores da segunda e da terceira série da revista, os quais se encontravam em plena ruptura estético-ideológica com a claridosidade na busca de uma nova largada da literatura caboverdiana. São os casos de Aguinaldo Fonseca, Gabriel Mariano, OvídioMartins ou Onésimo Silveira. Anote-se que a colaboração de Gabriel Mariano e de Jorge Pedro Barbosa na revista Claridade cingiu-se a poemas em crioulo de Santiago, estilizados a partir do cânone tradicional ínsito no folclore poético da grande ilha.

A revista Claridade ficou marcada por uma intermitência consubstanciada em nove números publicados em vinte e quatro anos. Essa intermitência, a que se seguiu o óbito da revista em 1960, ficou a dever-se, presumivelmente, aos efeitos de uma situação de bloqueio político-cultural (sobretudo a partir dos anos sessenta), a intransponíveis dificuldades financeiras (não obstante o mecenato de Manuel Velosa), bem como à dispersão dos seus colaboradores. É a situação de bloqueio político-cultural que determina a radicalização da poesia de Jorge Barbosa e a sua passagem à quase clandestinidade. A dispersão dos colaboradores marca a revista desde os seus primórdios, tendo sido ditada pelas transferências administrativas dos seus membros para outras ilhas da província e outros lugares metropolitanos, como os Açores e Lisboa no caso de Manuel Lopes. A essas transferências só escapou Baltasar Lopes da Silva (para além, é claro, de António Aurélio Gonçalves), que continuou a residir no Mindelo até à sua morte em 1989.
A intermitência da revista Claridade e a efemeridade das outras publicações literárias que se lhe seguiram no Mindelo (dois números publicados da revista Certeza (o terceiro já impresso nas oficinas da Minerva foi apreendido pelas autoridades), um número para o Boletim do Liceu Gil Eanes, um número para o Suplemento Cultural, dois números para o suplemento Seló), propiciaram o papel de referência que o Boletim Cabo Verde passou a desempenhar.
Alicerçada na detenção de importantes infra-estruturas culturais como o único Liceu de Cabo Verde, a única Escola Técnica, Industrial e Comercial e o mais importante jornal privado da província e sustentada no prestígio da revista Claridade, que mesmo na sua exasperante intermitência, continuava a funcionar como lugar raro de consagração literária, a primazia literário-cultural do Mindelo perdura, incontestável e incontestada, pelo menos, até à fundação, em 1949, na cidade da Praia, da revista Cabo Verde (denominado Boletim de propaganda e informação e dirigida pelo Dr. Bento Levy).
Ela começa a evanescer-se, na sua vertente educacional, com a criação, em 1960, do Liceu Adriano Moreira, a que antecedeu a inauguração, em 1956, do Seminário de S. José, ambos na capital de Cabo Verde.

O Boletim Cabo Verde,
a mais eclética e importante revista cultural caboverdiana do período colonial
O Boletim Cabo Verde, publicado religiosamente todos os meses do calendário, de 1949 a 1964, viria a comprovar-se como a mais importante e regular revista cabo-verdiana do período colonial. Essa qualificação advém dos seguintes factores: a) a revista pôde agregar um leque de colaboradores que, apesar do carácter oficioso da mesma enquanto órgão do governo provincial e dos inerentes compromissos com as políticas oficiais, era assaz plural e abrangente de todas as gerações e tendências político-ideológicas; b) a revista pôde constituir-se no maior e mais importante repositório do saber intelectual caboverdiano da altura e nas mais variadas áreas.
É assim que a mesma revista se transformou não só em principal órgão de colaboração de mestres pré-claridosos (com destaque para José Lopes) e de difusão da produção claridosa (sobretudo a de Jorge Barbosa), como também no mais importante instrumento de revelação das novas gerações neo-claridosas e da Nova Largada, como atestam as colaborações de Maria Helena Spencer, Teixeira de Sousa, Gabriel Mariano, Amílcar Cabral, entre muitos outros. Um grande número de autores das décadas de cinquenta e sessenta, como Maria Helena Spencer, Pedro Duarte, Jorge Pedro Barbosa, Gabriel Mariano (na vertente ficcional), Luísa Ferro Ribeiro, Virgílio Pires, Onésimo Silveira, Mário Fonseca, Arménio Vieira, Maria Margarida Mascarenhas, entre muitos outros, foi no Boletim Cabo Verde que primeiramente se revelaram.
Para mais, é no quadro do Boletim Cabo Verde que é publicado o Suplemento Cultural, revista que, no seu número único e conjuntamente com alguns números anteriores do próprio Boletim (a revista-mãe) e os dois últimos números da revista Claridade (o número oito, de 1958, e o número nove, de 1960), marca a aparição pública de alguns colaboradores da Geração da Nova Largada, cujo grupo homónimo, segundo reiterados testemunhos de José Leitão da Graça, foi criado, em 1963, em Lisboa por Manuel Duarte, Gabriel Mariano, Aguinaldo Fonseca, Ovídio Martins, José Araújo, José Leitão da Graça, Francisco Lopes da Silva, Silvia Crato Monteiro entre outros, inclusive alguns agregados mais tarde como colaboradores do Suplemento Cultural, como Yolanda Morazzo, Carlos Alberto Monteiro Leite ou José Monteiro Pinto.
Anote-se que a circunstância de na Praia se localizarem não só a a Imprensa Nacional como a tipografia privada Minerva de Cabo Verde proporciona, então, a esta cidade o papel mais proeminente na edição cabo-verdiana de livros, quer dos hesperitanos e nativistas, como Pedro Cardoso, João José Nunes ou Juvenal Cabral, quer de claridosos, como Jorge Barbosa, António Aurélio Gonçalves, António Nunes ou Baltasar Lopes da Silva, quer de novíssimos como Gabriel Mariano quer ainda de obras de referência, como a Antologia de Ficção Cabo-Verdiana, organizada por Baltasar Lopes da Silva e da qual constam um "comentário" de António Aurélio Gonçalves e uma "Introdução" de Manuel Ferreira, a Antologia da Modernos Poetas Cabo--Verdianos, organizada e prefaciada por Jaime de Figueiredo, ou Os Rabelados da Ilha de Santiago de Cabo Verde , de Júlio Monteiro Júnior .
Desaparecidos na voracidade dos tempos repressivos e na omnipresença do rosto impiedoso da polícia política e dos seus infornadores, mais conhecidos por galinhas, bem como da irredutível desconfiança (“tudo pela nação, nada contra nação”, proclama Salazar) e do desnorteamento de um Estado Novo doravante confrontado com a negação tanto das pretensões adjacentistas das elites caboverdianas, ultrapassadas pelos tempos, como do dogma da indivisibilidade da nação portuguesa e do Portugal de aquém e de além-mar, posto à prova pelas rupturas nacionalistas dos campos de batalha das guerras de libertação nacional e das hecatombes da clandestinidade e dos tarrafais do império, o Notícias de Cabo Verde e o Boletim Cabo Verde são suplantados e/ou substituídos, o primeiro em 1962 e o segundo em 1964, pelo inefável, e frequentemente execrável, jornal Arquipélago. Arquipélago que, inchado de colonial-fascista oficiosidade, ousa ostentar, de início, uma página literária, perdurando incólume até ser engolido pelos ventos de mudança e pela fúria saneadora subsequentes aos eventos despoletados pela revolução dos cravos de 1974.

Tempos de consciencialização nacionalista de intelectuais, estudantes e trabalhadores mais esclarecidos ou mais cansados da quotidiana opressão e do diário bloqueio, esses serão também tempos de muita confrontação com os tugas presentes na nossa terra (mondrongues, diz-se a norte do arquipélago), de intensa sátira social, da alegre comédia dos grupos de teatro amadores que pululam nos urbanos anos cinquenta e sessenta, da irreverência quase subversiva e frequentemente malcriada dos estudantes do liceu Gil Enes e do liceu Adriano Moreira (finalmente criado em 1960 contra o franzir do sobrolho dos supostos benefeciários do monopólio educacional e o parecer negativo de quem, de origens ruralisticamente periféricas, não se esperava (?) tal desfeita).

Do mesmo modo que os pés descalços estavam interditados de frequentar a praça (a grande, da Praia, e a nova, da morada mindelense) e as suas cobiçadas esplanadas, os candidatos à subversão político-ideológica, à fractura dos costumes coloniais ou simplesmente interessados na valorização da cultura caboverdiana tiveram que entrar no mundo do silêncio público, da clandestinidade político-literária, do exílio, da emigração, da luta armada ou da prisão ou voltar-se para áreas menos suspeitas, como, por exemplo, a música, para mais facilmente disfarçável em paródia, festa e picapada. Ressalte-se, todavia, que as manifestações musicais consideradas mais ostensivamente afro-crioulas estavam proibidas de subir à Riba Praia, e os seus cultores permanentemente ameaçados de excomunhão ou pelo menos de não usufruir dos sagrados sacramentos católicos, caso persistissem com o culto de manifestações consideradas pagãs, selvagens, gentilícas ou, simplesmente, obscenas e indecorosas . Até as serenatas estavam ameaçadas de proibição, como então, em poema, lamenta Jorge Barbosa.

Esses tempos de perseguição e ostracização das manifestações culturais tidas por mais manifesta e ofensivamente afro-crioulas são também tempos da fundação e do apogeu da coladera pela aceleração rítmica da morna da Boavista. Anteriormente, a morna de Nho Eugénio renovara-se em moldes musicais novos por força do poder criativo de B. Lèza, compositor e poeta que não desdenha o uso do crioulo de Sotavento para melhor apurar a beleza vocálica das letras.
Coladera, cujos compositores e intérpretes mais populares, como Ti Gói, Antone Tchitche, Tchuf, Lela de Maninha, Palapa, mereceram a veneração dos intelectuais ou aprendizes de intelectuais mais conscientes, como Gabriel Mariano, Corsino Fortes ou T. T. Tiofe, acedendo, assim, às páginas do heroísmo anónimo da ficção e da poesia telúrica da nova largada, depois de a sua música ter entretido o povo nas suas múltiplas tentativas de driblar o destino nas armadilhas da alegria.
Coladera que se espalha pelo arquipélago e encontra terreno propício na criatividade de compositores e trovadores de várias ilhas, como Santo Antão como Manuel de Novas ou a ilha de Santiago com Ano Nobo e Bilocas e músicas como "Maninha nha Carlota", "Chapéu di padja" e outras depois celebrizadas nos bailes populares e na discografia do conjunto Voz de Cabo Verde.
Esses são também tempos de embrenhamento dos habitantes das cidades e vilas de Cabo Verde nos ritmos trepidantes do twist, do rock' roll, do soul, da cúmbia, do merengue e de outas sonoridades importadas de todo o mundo, por onde trilham os pés nómadas dos emigrantes, estudantes e exilados caboverdianos .
Os mais intelectuais, subversivos, informados e urbanizados preferem as sonoridades orgulhosas do jazz e do blues, do black is beatiful, aprendido na capital do império e outras cidades e periferias metropolitanas.
Surgem assim os conjuntos Ritmos Cabo-Verdianos, Voz de Cabo Verde, Os Apollos, Os Tubarões...
A diáspora, eterna candidata cultural a uma centralidade que vem efectivamente exercendo, e desde há muito, na vida económica e social das ilhas, começa a perfilar-se como voz actuante e presente na valorização e na divulgaçãoo da cultura caboverdiana. Primeiramente, ao frio extenuante das Américas, onde os black portugueses e os bravas conjugavam a morna com o jazz e o blues da distância e de Horace Silver, e nas roças do Sul Abaixo, onde o violão se enlaçava, cúmplice, à gaita e ao ferrinho para juntos chorarem a amargura da terra longe, a revolta contra a palmatória do feitor, as rebeldias islenhas adiadas. Ainda nas exposiçoes coloniais de 1934 e 1940, com Luis Rendall, B. Lèza e outros. Depois nas rádios, televisões e discos. A Fernando Quejas, o primeiro a gravar em disco a música caboverdiana, corriam os anos lisboetas de 1952, juntam-se Amândio Cabral, Titina Rodrigues, os míticos Voz de Cabo Verde, Humbertona, Valdemar Lopes da Silva, Kaoguiamo, e, agora e para sempre inolvidáveis aos ouvidos do vasto mundo, Norberto Tavares, Paulino Vieira, Danny Silva, Cesária Évora, Ildo Lobo, Zeca di Nha Reinalda, Vasco Martins, Lura, Tcheca, Tito Paris, Manu Lima...
A candidatura natural da diáspora a uma centralidade cultural partilhada com os lugares pátrios de dinamização cultural é tanto mais legítima se se tiver em conta que é no estrangeiro que, até recentemente, os caboverdianos têm buscado as competências técnicas e científicas e produzido o essencial dos conhecimentos nessas áreas, necessárias, senão indispensáveis, para o seu desenvolvimento pessoal e a viabilização económica, social e política do país Foi assim com António Carrreira ou, mais recentemente, com a equipa da História Geral de Cabo Verde, tem sido assim com o grosso das teses científicas, defendidas maioritariamente em universidades e institutos de investigação estrangeiros.
Foi assim com António Nunes, Manuel Lopes, Teixeira de Sousa e tantos outros escritores, artistas e criadores culturais caboverdianos...
Foi assim com aqueles que, dessacralizadores do onirismo tido pragmaticamente por inconsequente e evasionista da pasárgada, procuraram em terras estrangeiras e nas suas mãos fraternalmente estendidas, os caminhos que pudessem conduzir à liberdade pátria e à construção de uma outra terra dentro da nossa terra....
A diáspora tem-se provado, assim, como lugar imprescindível de preservação e recomposição da identidade caboverdiana e de difusão internacional da nossa singularidade crioula africana.
Nesta óptica, ela tem-se comprovado comom locus de revitalização de manifestações repetidamente condenadas por alguns à extinção, como o batuco ou o colá sanjon, e como loca de busca de novos caminhos libertários e de evidenciação de novas experiências criativas.
É o que atestam as novas gerações de músicos, pintores, escultores e outros criadores nascidos nas diásporas dos seus países natais de acolhimento, e as suas re-experienciações da dupla lealdade e da cissiparidade pátrida outrora dilematicamente vividas pela autenticidade dos nativistas e agora assumidas como dupla (múltipla) e cosmopolita pertença identitária a um mundo híbrido e de porosas fronteiras identitárias.

A bicefalia cultural no passado e no presente

A bicefalia cultural entre a Praia e o Mindelo ocorre depois de, no século XIX, várias vilas (da Praia de Santa Maria da Esperança, da Ribeira Brava de S. Nicolau, da Ribeira Grande de Santo Antão, de Nova Sintra da Brava, de Sal-Rei da Boavista) terem renhidamente disputado as capitalidades económica, eclesiástica, cultural e administrativa (esta mesmo na sua expressão itinerante). É, assim, por exemplo, que a Vila de Sal-Rei foi, em 1842, o lugar da publicação dos primeiros números do Boletim Oficial, enquanto que a Vila de Nova Sintra logrou ser o lugar da inauguração da Escola Principal da Instrução Primária, a primeira de nível secundário em Cabo Verde, com efeitos decisivos na constituição das elites cabo-verdianas e na formulação do nativismo, como se afere do facto de grande parte dos intelectuais da altura serem de origem bravense. Fenómeno semelhante ocorre depois com a Vila da Ribeira Brava que conseguiu ser, por mais de meio século, a sede do Bispado e da Diocese de Santiago de Cabo Verde, e, consequentemente, do célebre Seminário-Liceu, em detrimento da Praia, cidade capital de jure desde 1858 e capital de facto desde os fins do século XVIII, abandonada que fora a antiga Cidade da Ribeira Grande de Santiago, doravante denominada Cidade Velha. Foi também na Vila na Ribeira Brava que o Cónego António da Costa Teixeira, depois do activismo escolar boavistense, concebeu o Almanaque Luso-Africano (1890 e 1895) e publicou, em 1901, o seu suplemento literário, a revista Esperança, a primeira publicação periódica literária cabo-verdiana.
Perdurando até hoje, a supra-referenciada bicefalia cultural entre as cidades da Praia e do Mindelo vem sendo fortemente marcada, nos tempos pós-independência, pela crise aberta da alegada (e, segundo alguns cépticos, muito auto-sugerida) primazia cultural do Mindelo, a qual, relembre-se, se fez particularmente sentir entre os anos trinta e os anos cinquenta do século XX. Essa recente e pública crise deve-se à circunstância de a cidade da Praia se ter tornado não só capital política da república soberana, como também no principal centro populacional, social e económico de Cabo Verde e cidade detentora das mais importantes infra-estruturas culturais. Esta última cicunstância começou a divisar-se com mais evidência na segunda metade dos anos oitenta do século vinte, para se tornar notórias e plenamente nítida a partir dos anos noventa do século transacto.
Neste contexto de potencial, senão efectiva, primazia cultural da cidade capital, a tradicional bicefalia cultural vem adquirindo certas facetas de especialização cultural.
Assim, a cidade do Mindelo vem experimentando a sua transformação em centro principal em determinadas áreas culturais e artísticas. São os casos, por exemplo, do carnaval, das artes plásticas (com o admirável trabalho desenvolvido, a partir da segunda metade dos anos setenta, pelo Centro Nacional de Artesanato e seus dinamizadores e artistas plásticos de mérito Manuel Figueira, Luísa Queirós e Bela Duarte, bem como pelo Atelier Mar e seu responsável Leão Lopes, a partir dos anos oitenta) bem como o teatro, com o colossal trabalho desenvolvido por João Branco e pelo Mindelact, a partir da segunda metade dos anos noventa.
A cidade da Praia tem desempenhado, por seu lado, papel primacial na revelação de novas gerações de literatos, ensaístas, artistas plásticos, músicos e dançarinos, na valorização científica e literária da língua caboverdiana, na recuperação das tradições musicais e outras afro-crioulas, na valorização da grande diversidade cultural da ilha de Santiago (a maior de Cabo Verde) e das potencialidades de cidade capital para onde vêm confluindo gentes de todos os rincões de Cabo Verde.
É o que patenteiam o labor pioneiro de Carlos Alberto Martins, Orlando Pantera ou Zezé di Nha Reinalda, e os trabalhos colectivos de pesquisa, estilização e modernização dos míticos conjuntos Tubarões, Bulimundo e Finason bem como dos conjuntos Abel Djassi, Simentera e Ferro Gaita.
Anote-se que essa recuperação abrangeu também a valorização da fisionomia tradicional das tradições poético-musicais, particularmente por Tomé Varela da Silva e pelo departamento de tradições orais do instituto público ligado à preservação do património cultural. Dessa recuperação resultou a celebrização de finaderas e cultores do batuco como Nha Bibinha Kabral, Nha Gida Mendi, Nhu Ntoni Denti di Oru, ou, com mais notoriedade, Nha Nasia Gomi, e cultores do funaná, como Codé di Dona, Sema Lopi ou Bitóri Nha Bibinha.
Tornaram-se também visíveis nessa recuperação uma vertente cénica, com o grupo Korda Kaoberdi, fundado em 1976 por Francisco Fragoso (Kwame Konde), e a reabilitação da tabanca, com a estilização da sua música pelos Tubarões, a organização de festivais alusivos a essa manifestação cultural, a pesquisa e a publicação de livros com ela relacionada.
Essa revitalização cultural tem, outrossim, tido repercussões positivas na incorporação dos ritmos afro-crioulos na dança contemporânea como atesta o exemplo do grupo Raiz di Polon.
Tornou-se igualmente notória a actual partilha da liderança cultural entre as duas cidades principais em várias áreas culturais. Denota-se, assim, que, na área da música, autores e intérpretes residentes no Mindelo foram pioneiros na introdução dos festivais musicais a céu aberto (depois espalhados pelo país, destacando-se os festivais da Gamboa, na cidade da Praia, e de Santa Maria, no Sal, ou adquirindo feições outras, como nos casos dos festivais do batuco, do funaná tradicional e da morna) , do mesmo modo que compositores residentes nas duas cidades experimentaram novos e inovadores caminhos. São os casos da música erudita de Vasco Martins, da morna e coladera de Ano Nobo, Manel d' Novas, Daniel Rendall, Nhelas Spencer ou Betú, do funaná de Zezé e Zeca de Nha Reinalda, de Zé Henrique, de Kim de Santiago ou dos Ferro Gaita, do funamba de Zezé di Nha Reinalda e de Kaká Barbosa, ou dos novos sons de Vlu, Voginha, Mário Lúcio, Djinho Barbosa, Kim Alves, Tcheca Andrade. Ou, ainda e com mais acuidade, a revolução musical em curso protagonizada pela Geração Pantera.
Essa partilha de liderança e/ou protagonismo alarga-se às artes plásticas e à editoração privada (tanto a nível de livros como também de folhas, suplementos e revistas, como Ariópe (suplemento do jornal independentista Alerta), Raízes, Folhas Verdes, Mudjer, Ponto e Vírgula, Voz di Letra, Sopinha de Alfabeto, Fragmentos, VP-Caderno 2, Pre-Textos, Artiletra, Anais, Direito e Cidadania, Revista Científica de Estudos Cabo-Verdianos, etc).
No plano da produção de conhecimentos cientifícos, a situação caracteriza-se também pela bicefalia, no nosso entender. É assim que se os principais institutos de investigação agrária, cultural e na área das ciências sociais e humanas se localizam na capital do país, cidade onde se encontram sedeadas as reitorias da Universidade Pública de Cabo Verde e de outras instituiçoes universitárias privadas, é na cidade do Mindelo que se situam as principais instituições ligadas às engenharias, às pescas e às ciências empresariais e as direcções de algumas instituições universitárias e politécnicas privadas.
Sem prejuízo quer do papel crucial que os centros universitários e técnicos das duas cidades vêm desempenhando no ensino e na investigação, quer da diversidade da proveniência insular dos actuais produtores de conhecimentos e de cultura, são notórias as vantagens advenientes do estatuto da capitalidade da cidade da Praia e do seu papel de atracção de quadros de todo país, particularmente nos domínios da imprensa privada e da editoração pública.È assim que as principais editoras, os principais jornais e revistas e os principais, senão únicos, meios de comunicação audiovisual têm encontrado na cidade da Praia a sua localizaçao predilecta, da independência a esta parte. Relembre-se que das mais de sessenta publicações periódicas inventariadas por Brito Semedo para o período comprendido entre 1877 e 1975, mais de metade foram dadas à estampa na cidade da Praia.
Nem as políticas de desenvolvimento tripolar (Praia, S. Vicente e Sal) e de massificação cultural da primeira república levadas a cabo em especial pelas organizações de massas do período do regime de partido único (ilustradas, por exemplo, nos populares Festivais Todo o Mundo Canta), nem as políticas de municipalização e descentralização cultural, mais típicas da segunda república, visíveis, por exemplo, na protecção do património histórico-cultural de todas as ilhas, na edição de revistas regionais, como Dja d' Sal, Magma ou Ekhos do Paúl, e a construção de infra-estruturas culturais fora dos centros populacionais principais, consubstanciada, por exemplo, na edificação de centros culturais municipais, nem sequer o carácter arquipelágico do país e a percepção insularizada da sua unitária identidade crioula têm logrado desmontar a herdada bicefalia caboverdiana e as correlativas rivalidades entre as cidades da Praia e do Mindelo.
Rivalidades demasiadas vezes impregnadas de um bairrismo amiúde fundado em derivas culturalistas de fundo essencialista, racista ou heterofóbico, e, as mais das vezes, de natureza irracional e doentia, se bem que presumivelmente teleguiado por interesses escusos dos que se vêm frustados nas suas alegadas tradições bem como nas suas expectativas e pretensões de hegemonia económica e político-cultural, amiúde mitificadas em irrenunciáveis e trancendentes vocações histórico-culturais.

As lições da história caboverdiana

No entanto, o que comprova a história caboverdiana é que diferentes polos do nosso arquipélago exerceram, isolada ou conjuntamente e em tempos históricos diversos, papéis decisivos na modelação do nosso ser e no resgate da nossa personalidade colectiva.
Assim, houve os tempos da Ribeira Grande de Santiago, de Nova Sintra da Brava, de Sal- Rei da Boavista, da Ribeira Brava de S. Nicolau, da Ribeira Grande e do Paul de Sto Antão, da Praia de Santa Maria de Santiago, do Mindelo de S. Vicente, da ilha do Sal...
Tempos em que esses lugares e as pessoas deles habitantes e as elites neles residentes, originárias, quase sempre, de diversas regiões do país e, até, das diásporas, desempenharam importantíssimos papéis de liderança.
Mesmo quando lançado na terra-longe pelas crises, pelas fomes, pela busca incessante de melhores condições de vida ou pelo espírito de aventura e vivendo entre gentes gentio e gentes gentis, o povo, esse, (quase) sempre permaneceu enraizado no solo pátrio da terra e da identidade, praticando a nossa cultura, falando a língua que ele próprio inventou, sacacoteando-se ou evanescendo-se langorosamente ao som da nossa música, degustando a nossa gastronomia, tantas vezes arrancada à imprevisibilidade dos tempos e da meteorologia. Enfim, eternizando a crioulidade. Crioulidade de que foi, aliás, o arquitecto principal quando, sujeito à intermitência das chuvas e à árida abundância das secas e colocado na dolorosa encruzilhada da escravatura, da dominação colonial e das suas desiguais trocas económicas, culturais e simbólicas, teve ainda que sobreviver em face de uma natureza madrasta e de conjunturas quase sempre desfavoráveis.
Todavia, sem excessivas angústias identitárias, tanto mais que soube crer nas próprias forças e nas capacidades de liderança das suas elites, nascidas e crescidas no seu seio.
Consegue-se a independência muito por causa da capacidade de resistência cultural do povo e da sagacidade das elites caboverdianas que, reconheça-se, souberam interpretar os anseios populares e, em tempo oportuno, fizeram funcionalizar a nossa identidade no sentido mais favorável à valorização da nossa dignidade humana.
Tanto mais que essa identidade sempre se mostrou muito vulnerável a determinados sindromas de orfandade continental ao mesmo tempo que também se demonstrou como muito atreito a aproveitar as potencialidades insítas nas heranças culturais matriciais e a explorar as capacidades dialógicas com a margens continentais que a circundam, a alimentam e a enriquecem.
Conseguida a independência e chegados os tempos tanto dos dissensos democráticos como dos consensos sobre questões vitais para o progresso da nação crioula, convém que cheguem também tempos plena e diversamente caboverdianos, na exacta medida da "doce guerra", de Antero Simas.
Que possamos, pois, todos incorporar e assumir o que pertence à história caboverdiana, no seu todo, como são os casos do nativismo, do movimento claridoso, do movimento da nova largada, dos movimentos que vieram com a independência e dos outros que hão-de despontar no futuro.
Tanto mais que os mesmos resultaram da experiência histórica colectiva de todo o povo caboverdiano e foram protagonizados por actores de diversas proveniências insulares caboverdianas. Actores, cujas vidas caracterizaram-se, muitas vezes, pela itinerância inter-insular e pelos mundos da diáspora. Todos, dignos lugares de rememoração, de comemoração e de celebração.
Tanto mais ainda que qualquer ilha, mesmo se diaspórica, porque também actriz da história e espaço onde o nosso povo vive e sobrevive, pode orgulhar-se de ter sido o lugar de nascimento, da vivência, da memória, da imaginação e também da morte de caboverdianos, célebres ou simplesmente dignos no anonimato da luta quotidiana.
Os umbigos desses dignos caboverdianos encontram-se certamente enterrados no chão da ilha onde vieram ao mundo mas também na alma crioula da dignidade de cada conterrâneo, a cada dia ressurecta, a cada dia insurrecta contra o aviltamento, contra a humilhação.
Que seja, pois, banido de vez o bairrismo, esse nacionalismo anão daqueles que se pretendem reis que reinam e reivindicam!

Lisboa, Março de 2007

José Luís Hopffer C. Almada