Tuesday, May 29, 2007

CONSIDERAÇÕES A PROPÓSITO DA HOMENAGEM DA CÂMARA MUNICIPAL DA PRAIA AO MOVIMENTO PRÓ-CULTURA

UM BREVE OLHAR RETROSPECTIVO SOBRE O SURGIMENTO DO MOVIMENTO PRÓ-CULTURA

Quando em Dezembro de 1985, um conjunto de quatro pessoas ligadas às artes e letras criaram na residência de Kaká Barbosa, na Achada de Santo António, um grupo a que, por sugestão de Daniel Spencer e do autor destas linhas, denominaram Núcleo Pró-Cultura, as mesmas propuseram-se como tarefa imediata a conclamação de um número significativo de literatos, artistas plásticos, músicos e de outros artistas com vista à criação de um movimento cultural, amplo e pluralista.

Seria objectivo essencial desse movimento a superação da letargia cultural que, alegadamente, assolava a capital do país bem como o combate ao estado de vegetação que, nesses tempos pós-claridosos e pós-cantalutistas, ameaçava recorrentemente “desertificar” a paisagem literária e cultural das ilhas. Letargia e vegetação culturais que, acreditavam, tornaram-se por demais visíveis não obstante o sucesso das revistas “Raízes” e “Ponto e Vírgula” e de várias experiências nos domínios das artes plásticas e musicais, como, por exemplo, as patenteadas por Manuel Figueira, Luísa Queirós e Bela Duarte, na renovação musical ilustrada pelo movimento funaná, pela música erudita de Vasco Martins e pelo labor dos “Tubarõs”, “Bulimundo, entre outros grupos musicais, ou as escritas de João Vário, T. T. Tiofe, Arménio Vieira, Corsino Fortes, Jorge Carlos Fonseca, Oswaldo Osório ou Teixeira de Sousa.

Nessa sequência e devidamente mandatado pelo Núcleo Pró-Cultura (já sem a colaboração de Fátima Monteiro, entretanto residindo nos Estados Unidos da América), o autor do presente texto procedeu ao recenseamento e ao convite dos quase trinta interessados nas coisas culturais que se reuniram, no Lar da Terra Branca, em 22 de Março de 1986, por coincidência exactamente no mesmo mês em que cinquenta anos antes se procedera, na cidade do Mindelo, à publicação do primeiro número da revista “Claridade”.

Depois de um amplo, frutífero e desinibido debate, conduzido sempre sob os signos irrenunciáveis da liberdade de criação e do pluralismo estético-ideológico e versando sobre questões várias correlacionadas com a chamada “crise literária caboverdeana” e de outra índole político-cultural (incluindo as problemáticas da liberdade de criação e da escrita e da dignificação do crioulo), essas mesmas pessoas reunidas nessa tarde memorável criaram o Movimento Pró-Cultura, para cuja direcção foi eleito um Conselho Coordenador constituído por representantes das vertentes literária, das artes plásticas, da música, do teatro bem como da área da documentação e da investigação culturais.
A esse primeiro encontro seguiram-se o segundo e o terceiro Encontros Pró-Cultura no Parque Cinco de Julho da cidade da Praia, nos quais se procedeu ao balanço crítico das actividades entretanto levadas a cabo e novos elementos aderiram aos ideais pluralistas e renovadores do movimento cultural nascente.

ACTIVIDADES, INICIATIVAS, DISPUTAS, CONTROVÉRSIAS E DISSIDÊNCIAS

O movimento recém-criado encetou de imediato a realização de uma série de actividades de animação cultural com destaque para as seguintes: colaboração e dinamização do suplemento literário “Voz di Letra” do jornal “Voz di Povo” (coordenado por Oswaldo Osório e Ondina Ferreira); difusão pela Rádio Nacional de Cabo Verde do programa radiofónico “Gentes, Ideias e Cultura”, co-realizado por Danny Spínola e José Luís Hopffer Almada; realização da Primeira Semana de Arte Integrada, a qual proporcionou, pela primeira vez, a subida aos palcos do Palácio da Assembleia Nacional Popular dos talentos de Nha Násia Gómi, Nhu Ntóni Denti di Oru, Ano Nobo e a sua banda de música tradicional e do grupo cénico OTACA, bem assim a exposição no átrio do mesmo Palácio das pinturas de José Maria Barreto, Osvaldo Azevedo, Péricles Barros, Ruja, Lú di Pala, entre outros, e dos trabalhos dos artesãos do Centro Regional de Artesanato da Praia.
Digna ainda de destaque é a Antologia “Mirabilis- de Veias ao Sol”, organizada, em 1987, pelo autor destas linhas e produzida pelo Movimento Pró-Cultura, a qual, depois de muitas e intermináveis atribulações com a “Editorial Caminho”, viria a ser finalmente publicada na sua forma definitiva e devidamente revista, em 1998, pelo caboverdeano Instituto da Promoção Cultural.

Infelizmente, algumas das actividades programadas desde a fundação do Movimento Pró-Cultura não conheceram desenvolvimentos dignos de nota. São os casos da dinamização nas áreas da documentação, do teatro, da criação de um cine-clube e de uma galeria de arte, e, de certo modo, da vertente musical. Vertente musical constituída por Nhelas Spencer, Kaká Barbosa, Nhonhô Hopffer e Daniel Rendall e de que alguns integrantes ( designadamente Nhelas Spencer e Nhonhô Hopffer) viriam a co-fundar e a integrar o grupo “Fogo”, que se compunha ainda de Betú, Braz Andrade, Djick Oliveira, Hermano Almeida, Elísio Faria, Kim de Pepita, Elisabeth Spear, Betina Lopes, entre outros.

Outras vertentes, como a divulgação das artes literárias e das artes gráficas e plásticas conheceram um invulgar dinamismo, em especial no quadro da divulgação de obras no âmbito do suplemento “Voz di Letra”, da revista “Fragmentos” e do programa radiofónico “Gentes, Ideias, Cultura”.

Por outro lado, tendo ganho uma grande dinâmica, criado uma notável notoriedade pública e suscitado um amplo leque de apoios, o Movimento Pró-Cultura começou, desde muito cedo, a ser também palco de dissensões internas e de lutas pela sua liderança, não sendo poucos os que tentaram apoucá-lo, descredibilizar as suas actividades ou ainda promover a sua desagregação a partir de dentro.

Dessas disputas viriam a resultar algumas saídas e desistências, incluindo daqueles não implicados directamente na criação cultural e de outros que, estamos em crer, encalharam circunstancial e temporariamente nas letras e nas artes.

Das mesmas disputas resultou ainda a primeira e única dissidência no seio do movimento. Essa dissidência foi protagonizada por alguns membros fundadores do movimento como Filinto Elísio Correia e Silva, Mito e Eurico Barros, que criam, com Arnaldo Silva e o talentoso fotógrafo João Nelson, o Grupo de Debates sobre a Arte, responsável editorial pela publicação dos dois números da folha “Sopinha de Alfabeto”.

Deste modo e em face da também notória disparidade na implementação das actividades das várias vertentes do Movimento Pró-Cultura e do patente inactivismo de alguns dos seus membros, o Conselho Coordenador, tal como inicialmente concebido, perdeu progressivamente sentido, deixando os seus membros de se reunir com a regularidade exigível.

DO GRUPO PRÓ-CULTURA E DA DENOMINADA “GERAÇÃO DO MOVIMENTO PRÓ-CULTURA”

Por outro lado, o núcleo essencial do Movimento Pró-Cultura constituído fundamentalmente por elementos ligados às artes literárias e plásticas prosseguiu com as suas actividades, tendo agregado ao seu corpo organizativo novos elementos, como Fernando Monteiro, Djélis (José Luís da Costa Andrade), Péricles Barros, José Maria Barreto, João Henrique de Oliveira Barros, entre outros.

É esse núcleo que se responsabiliza pela criação da revista “Fragmentos” que, formalmente dotado de um director, de um conselho directivo, de um conselho editorial, de uma administração, de uma comissão gráfica e de artes plásticas, de um secretariado e de representantes em várias ilhas do país e na diáspora, publicou, entre os anos de 1987 e 1998, centenas de páginas de artes e letras caboverdeanas de um grande número de poetas, ficcionistas, ensaístas, fotógrafos e artistas plásticos das novas gerações, para além de textos inéditos de Jorge Barbosa e de João de Deus Lopes da Silva, bem como de criadores de gerações mais antigas e de autores estrangeiros. É esse papel na dimazinamização e divulgação literárias e artísticas que justifica que a revista “Fragmentos” seja considerada uma das importantes revistas caboverdeanas de toda a nossa contemporaneidade.

Esse grupo responsável pela continuidade das actividades do Movimento Pró-Cultura contribuiu, assim e de forma decisiva, para o surgimento e para a consolidação de uma nova geração literária e cultural, generosa nos seus propósitos de promoção cultural e nas suas propostas de renovação estética, plural no seu modus faciendi e na sua criatividade, porque laborando sempre sob o signo reiteradamente afirmado da liberdade de criação artística, científica e cultural, nesses tempos esquizofrénico de vigência de um regime autoritário de partido único.

É talvez nesse sentido e somente nesse sentido que se reconhece alguma pertinência conceitual àqueles que pretendem falar de uma Geração Pró-Cultura que, nascida na Praia nos anos 86/87 e apostando na continuidade das lições positivas colhidas de iniciativas anteriormente surgidas no pós-independência, como as protagonizadas pelas revistas “Raízes” e “Ponto e Vírgula” e por folhas liceais e juvenis, como “Podogó” e “Despertar”, se teria consolidado à volta do ineditismo renovador das novas vozes reveladas pelas publicações que também resultaram do activismo e das movimentações remanescentes dos que participaram na fundação do Movimento Pró-Cultura inicial, como o suplemento “Voz di Letra” e as revistas “Sopinha de Alfabeto” e “Fragmentos”.

Mesmo admitindo a existência de uma Geração do Movimento Pró-Cultura, que, aliás, só honraria todos os que dela foram protagonistas e co-demirgos, estamos, todavia, em crer que, devido à sua extensão, à sua diversidade e ao seu modus faciendi, não se confunde essa geração com o grupo necessariamente mais restrito denominado Movimento Pró-Cultura e activo até ao segundo semestre do ano de 1998.

Tanto mais que o amplo leque dos colaboradores das iniciativas do movimento (com destaque para a revista “Fragmentos” e para a antologia panorâmica por ele organizada), residentes nas ilhas e nas diásporas, extravasa de longe o elenco dos fundadores e dos membros formais dos diversos corpos constituintes da orgânica do movimento e, em particular, da sua revista.

São os casos, por exemplo, de José Vicente Lopes ou Valdemar Velhinho Rodrigues, ambos colaboradores assíduos (quase permanentes) da revista “Fragmentos” (bem como de outras publicações periódicas contemporâneas), nas áreas da poesia, do ensaio e da ficção, mas então avessos a qualquer lógica de pertença formal a grupos, e, por isso, necessariamente ausentes das estruturas organizadas do grupo dinamizador desse movimento literário-cultural, de todo o modo mais marcado pela informalidade e pela prevalência da efectividade da praxis da criação literária e artística do que pela normatividade associativa.

São também os casos de colaboradores oriundos de outras gerações, como Luís Romano, Arnaldo França, Mário Fonseca, Arménio Vieira, João Henrique de Oliveira Barros, Osvaldo Osório, João Vário, César Fernandes, Ano Nobo, Jorge Carlos Fonseca, Tomé Varela da Silva ou Manuel Veiga, ou de outros espaços culturais, como o Brasil, Angola ou Portugal.

A crescente maturidade geracional e os remédios que o distanciamento temporal felizmente sempre proporciona encarregaram-se de permitir o reencontro no terreno concreto que mais conta, designadamente o da criação literária e artística, dos antigos rivais do Movimento Pró-Cultura e do Grupo de Debates sobre a Arte como colaboradores plurais tanto da revista “Fragmentos” e da antologia “Mirabilis-de Veias ao Sol” como também de outras iniciativas culturais que iam tendo lugar em Cabo Verde e na diáspora.

DA PERTINÊNCIA E DA OPORTUNIDADE DA HOMENAGEM PRESTADA PELA CAMÂRA MUNICIPAL DA PRAIA

O contributo do Movimento Pró-Cultura para a renovação das letras e das artes islenhas e para a consolidação do papel da ilha de Santiago e da cidade da Praia como lugares de criação artística no quadro das disputas pelos atributos da capitalidade cultural foi por demais evidente, valendo-lhe, por isso, a frequente hostilidade difamatória dos “bairristas de serviço”.

Por outro lado e como testemunha um certo frenesim actual em torno dos eventuais pergaminhos do Movimento Pró-Cultura, mesmo alguns dos seus antigos e públicos detractores parecem reconhecer, desde há alguns anos, esse e outros papéis desempenhados por esse grupo e movimento culturais.

Daí considerarmos como carregado de justiça, iluminado de justeza e plenamente pertinente e oportuna a homenagem prestada ao Movimento Pró-Cultura pela edilidade da capital do país.
Mesmo sabendo, como o tapoé de Oswaldo Osório, que as medalhas e outras honrarias não constituem nem “salários do poeta” nem “lugares do seu reconhecimento próprio e intímo”, destinando-se, por isso e em regra, a outros lugares reconhecidamente mais esconsos por também serem, e muito frequentementemente, mais consentâneos com os objectivos e fins prosseguidos pelos políticos profissionais que, bem ou mal aconselhados, escolhem o modo e o tempo da sua atribuição do que com a desinteressada exaltação e o genuíno reconhecimento público do poder criativo do artista e do homem e da mulher de cultura.

Mesmo se nesse concreto acto de reconhecimento público se detecta uma clara, quiçá deliberada ainda que inconfessada, confusão entre o grupo denominado Movimento Pró-Cultura e a chamada Geração Pró-Cultura.

Realce-se novamente que, talvez por força de um certo comodismo de linguagem, o qual todavia o não isenta de controvérsias, de discordâncias e de equívocos, este último termo vem sendo actualmente usado por algumas pessoas para denominar quer, mais latamente, a geração literária revelada nos auspiciosos anos de 1986 e 1987 (muito, diga-se, devido às actividades do Movimento Pró-Cultura), quer, mais restritamente, a tertúlia praiense de “titãs da utopia literária e cultural” que, nesse período marcado pela sobrevalorização da afirmação pessoal e geracional, gravitava à volta dos restaurantes “Flor de Lys” e “O Poeta” da cidade da Praia, onde os seus membros amiúde navegavam, afundando-se, por vezes, nas águas da irreverência, da arrogância criativa e da egolatria.

Mesmo se foi por demais notório o erro de casting na escolha de uma ou outra pessoa (e/ou na lamentável omissão de outras que certamente gozam de maior legitimidade) para representar, não a geração literária denominada de geração do movimento pró-cultura, de que são, aliás, dignas e competentes co-obreiras, porque co-autoras do seu prestígio actual, mas o Movimento Pró-Cultura.

Neste concreto contexto, referimo-nos, pois, ao Movimento Pró-Cultura enquanto denominação do grupo literário-cultural que, por mais de uma década, se pôde afirmar como um dos mais importantes grupos promotores de dinâmicas literárias e culturais na história da ilha de Santiago e de Cabo Verde, mesmo se frequentemente obrigado a remar contra as marés e os ventos, por vezes traiçoeiros, oriundos de algumas vozes outrora inconformadas com o dinamismo cultural que ia conquistando a cidade da Praia e com o papel que esse grupo ia desempenhando nesse processo.

Movimento Pró-Cultura, pois, como significando o grupo literário-cultural que algumas antigas vozes fundadoras abandonaram e passaram a combater, mesmo que, com maior e mais inusitado denodo, pelo período que durou a sua agora não assumida dissidência.

Nesta óptica, teria sido quiçá mais pertinente e oportuno distinguir e homenagear nominal e inequivocamente não só o Movimento Pró-Cultura como também outros grupos e iniciativas protagonizadas pela hoje considerada incontornável geração de 86/87 ou, se se quiser, dos anos oitenta de novecentos. Incontornável porque fautora plural de várias iniciativas literárias e culturais, por vezes concorrentes, mas todas de inquestionável significado para a afirmação da nossa geração, para a renovação das artes literárias e de outras áreas artísticas, e, assim, para o enriquecimento da cultura caboverdeana.

Geração cujos integrantes mais proeminentes são hoje, pela dimensão das obras literária, ensaística, plástica e/ou artística, credores mais do que justos do reconhecimento tanto da nação global caboverdeana, como também da cidade praiana que, como ambiência, morada ou lugar de laboração criativa, os viu nascer, amadurecer e/ou fez crescer como homens e mulheres de cultura e indefectíveis amantes e criadores das letras e das artes.

Nesta óptica, cremos que o rigor e a honestidade intelectuais bem como o respeito pela veracidade histórica devem ser os únicos critérios e as máximas balizas norteadoras dos actos públicos de reconhecimento também dos feitos artísticos e culturais. Do mesmo modo, que deveriam igualmente constituir os limites à, por vezes, insaciável sede de protagonismo que, infeliz e inconfessadamente, ainda caracteriza alguns dos reconhecidos actores da saga literária e cultural iniciada ou tornada pública nesses já longínquos anos oitenta de novecentos.

Sede de protagonismo que, todavia e em caso algum, deve constituir óbice a que a sua obra, meritória e, por vezes, valiosa, seja devidamente reconhecida pelos poderes públicos, em contraponto ao que terá ocorrido com a preterição de alguns desses literatos, investigadores e criadores com a “saga das medalhas” por ocasião do trigésimo aniversário da independência nacional.

No que nos diz respeito, só nos podemos orgulhar pelo papel que nos coube desempenhar, quer como criador quer como promotor cultural, em todo o processo literário-cultural que muito contribuiu para a agitação das letras caboverdeanas nos anos oitenta e noventa do século passado. Para tanto, terá certamente contribuído, e muito, a persistência de que imbuímos o espírito de generosidade de que nunca prescindimos e nem pretendemos prescindir. Espírito de generosidade que, apesar das desilusões e dos dissabores vários, nos tem trazido o conforto espiritual que nos alimenta nesta crença inabalável na honestidade intelectual e na lealdade que achamos devem ser cultivadas como valores imprescindíveis nas relações entre os seres humanos, os caboverdeanos, os intelectuais, os criadores e os confrades que, felizmente, prezamos ser.

É com saudosas lembranças de Djélis (José Luís da Costa Andrade), um dos principais promotores da revista “Fragmentos” e seu responsável gráfico, para além de cartoonista de mérito, que escrevo estas linhas de despretensioso esclarecimento, para concluir: da próxima vez, lembrem-se desse incansável criador e gráfico para uma homenagem póstuma. Uma forma digna de prestação dessa homenagem seria a edição, nos cento e cinquenta anos da cidade da Praia, dos inúmeros cartoons que foi dando à estampa em publicações como “Unidade e Luta”, “Fragmentos”, “Tribuna”, etc. Edição que, nessa data festiva, poderia também contemplar, por exemplo, a obra poética desse praiense de todos os costados que foi João Henrique de Oliveira Barros e visar especialmente livros que tenham como temática as várias facetas da evolução da cidade da Praia e da perspectivação do seu futuro ou contribuam para reforçar o seu papel de capital (também cultural) do país e para colmatar os seus notórios défices em determinadas áreas, como, por exemplo, na prosa de ficção.

Lembrem-se também dos seus companheiros Fernando Monteiro, Lú di Pala, Kaká Barbosa, entre muitos outros protagonistas, maiores e menores, mais ou menos constantes na persistência criativa e no activismo cultural, quando se propuserem homenagear o Movimento Pró-Cultura, as suas iniciativas culturais bem como os seus fundadores, promotores e colaboradores, sem cujo contributo não seria sequer possível estar agora a perorar sobre o grupo que tivemos a oportunidade de integrar ou a tecer loas à geração dele contemporânea.

A verdade, a gratidão e a honestidade intelectual ovacionariam efusivamente.
Finalmente, apraz-nos registar a homenagem prestada pela edilidade praiense ao poeta Oswaldo Osório, “uma das mais lídimas vozes da poesia caboverdeana”, no dizer de Arnaldo França.

Oswaldo Osório que, com Ondina Ferreira e o então director do jornal “Voz di Povo”, Carvalho Santos, nos disponibilizou as páginas do “Voz di Letra” desde o seu segundo número de Março de 1986, e, assim, contribuiu para a revelação dos literatos que, como Euricles Rodrigues, Filinto Elísio, Mito, Eurico Barros, Eurico Correia Monteiro, Naiz di Itanta, Pedro Freire, L-3, Alírio Kinóru, Fernando Monteiro, Zé di Sant'' y Águ, entre muitos outros, então emergiam com o Movimento Pró-Cultura.

Memorável é também a publicação, pela primeira vez no “Voz di Letra”, das muito irreverentes e corajosas caricaturas do Mito. Mito, que, com Lú di Pala, construiu o rosto gráfico desse suplemento cultural do jornal “Voz di Povo”, enquanto Oswaldo Osório, Mateus Fernandes (o compositor do “Voz di Povo”) e eu próprio, enquanto representante do Movimento Pró-Cultura junto da coordenação do “Voz di Letra” e contando amiúde com a colaboração do Danny Spínola , tratávamos , por vezes a altas horas da noite, dos aspectos práticos relacionados com a colaboração dos membros do Movimento Pró-Cultura nesse interessante e primordial, conquanto muito desigual, instrumento de revelação da nova geração literária de 1986/1987.

Lisboa, 24 de Maio de 2007

José Luís Hopffer C. Almada
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