Tuesday, July 03, 2007

CARTA ABERTA AO MEU CONFRADE FILINTO ELÍSIO CORREIA E SILVA, VERTENDO OS TEMPOS DE ANTANHO DO “MOVIMENTO PRÓ-CULTURA” E DA “SOPINHA DE ALFABETO”, ANTECEDIDA DE UMA SUCINTA NOTA DE ABERTURA E SEGUIDA DE UM PARÊNTESE SOBRE A INDEPENDÊNCIA DOS CRIADORES CULTURAIS E INTELECTUAIS , DE UMA NOTA CONCLUSIVA DE IRREPRIMÍVEL DECLARAÇÃO DE AMOR À CIDADE DA PRAIA-MARIA E DE UM RENITENTE POST-SCRIPTUM EM JEITO DE ESCLARECIMENTO SUPLEMENTAR


NOTA DE ABERTURA

A leitura, no âmbito da minha crónica semanal para a RDP-África, de um texto referente à homenagem da Câmara Municipal da Praia ao Movimento Pró-Cultura e a publicação no "asemanaonline" de um longo artigo do mesmo teor suscitaram reacções de diversa índole, negativa e positiva.
Como muitos se terão apercebido, o objectivo fundamental visado com o meu texto foi informar, aqui e agora, e com a completude possível, sobre o percurso do Movimento Pró-Cultura.
Informação que, apesar de se basear, no essencial, no que pessoalmente vivenciei e na percepção que dessa vivência ainda guardo, requer, necessariamente a listagem e a correlata interpretação de factos, datas e outros dados. Essa necessidade torna-se de uma grande premência se quisermos conseguir um mínimo de objectividade sustentada, e, ademais, tivermos em conta o contexto polémico e marcadamente controverso em que a “história” do Movimento Pró-Cultura foi contada, desta vez por mim.
Outras versões e facetas da mesma história existirão em documentos, na memória interpretativa e na visão retrospectiva dos seus inúmeros e diferentes protagonistas. Convinha que essas versões e facetas fossem também dadas a público, mesmo que seja somente com o fito de um melhor e mais sustentado conhecimento por parte de quem não esteve por dentro destes tempos fecundos ou, até, para prevenir eventuais injustiças, sobretudo por omissão, como ocorreu na recente, muito oportuna e justa homenagem prestada pela Câmara Municipal da Praia ao Movimento Pró-Cultura.
A reacção, assaz incisiva, e até, acerba e cáustica, se bem que em parte compreensível, de Filinto Elísio Correia e Silva - meu confrade e companheiro das letras desde os tempos de antanho da década de oitenta- vieram evidenciar a necessidade de revisitação dos “prodigiosos anos” de 86/87”, de nascimento da nossa geração literária, mas também de alguma aura do regime de partido único, então vigente em Cabo Verde.
Nisso residiria, na minha opinião, a justificação do pleno interesse dessas estórias, dessa “pequena história”, para a história e a historiografia da literatura e da cultura caboverdeanas.
Com o presente texto (relativamente longo, alerta-se, desde já!), elaborado em estilo de conversa franca com Filinto Elísio Correia e Silva e aberta aos demais companheiros das artes e letras e outros eventuais participantes e observadores da história dos tempos de antanho, desde que, como é óbvio, não escondidos no anonimato, almejo contribuir para a clarificação de certos factos passados e revolutos, para a definitiva dissipação de algumas dúvidas e para um mais amplo esclarecimento dos interessados na história da cultura caboverdeana e do papel que nela desempenharam alguns dos seus mais recentes e actuais protagonistas.


CARTA ABERTA
1
Num post constante do seu blog albatrozberdiano, anterior ao meu artigo “Algumas considerações sobre a homenagem da CMP ao Movimento Pró-Cultura”, mas posterior à leitura radiofónica de uma crónica mais concisa mas de teor idêntico, o poeta Filinto Correia e Silva atribuiu-me ressentimentos em relação à “Sopinha do Alfabeto”, folha da qual “não me conseguiria libertar” por razões que, ele, caberia a Freud explicar.
Nessa sequência e numa reacção aparentemente em cadeia, vários leitores pronunciaram-se, em geral, no mesmo sentido, concordante com o ponto de vista negativo do albatrozberdiano.
Obviamente que não posso estar de acordo com interpretação supra que considero enviesada e superficial, só explicável por um certo melindre e mal-entendido, nos quais se poderá ter enredado o meu confrade em consequência da minha, talvez inusitada, reacção à homenagem da Câmara Municipal da Praia ao Movimento Pró-Cultura,
Face à pouca clareza e/ou algum desconhecimento de factos e pessoas que julgo terem rodeado a escolha dos nomes contemplados para a homenagem camarária, propus-me com o meu artigo quebrar os muros da ocultação (mesmo se involuntária), bem como da eventual manipulação em relação às “coisas realmente ocorridas” e chamar a atenção para existência da revista “Sopinha do Alfabeto”. Para melhor corresponder à veracidade histórica, achei por bem inseri-la na evolução do mesmo Movimento, nas fracturas empreendidas por alguns dos seus fundadores e protagonistas iniciais bem como no quadro mais geral da agitação cultural praiense dos anos oitenta do século XX.
Nada havia a esconder!
Tanto mais que o objectivo da minha crónica e do meu artigo foi contribuir para o alargamento do leque de eventuais futuros homenageados e nunca excluir, quem quer que fosse da lista dos actuais homenageados!
Foi o que, aliás, fizera por ocasião das condecorações do trigésimo aniversário da independência de Cabo Verde. Nessa altura e apesar de eu próprio ter sido condecorado com uma medalha de mérito cultural em primeiro grau e considerar relativamente equilibrada a lista dos agraciados com a mesma medalha, considerei que, pelo mais que notório mérito da respectiva obra, alguns poetas (como José Luís Tavares), ensaístas (como João Nobre de Oliveira) e músicos (como Paulino Vieira) também mereceriam ser agraciados com a mesma medalha, indo, assim um pouco contra a corrente em relação aos que consideravam inflacionista e eleitoralista a dimensão que a atribuição de medalhas de mérito tinha atingido devido à alegada baixa bitola na avaliação da obra feita dos contemplados. Por isso, denominaram tal atribuição de “saga das medalhas”.
Relembro aos menos atentos que em alguns textos que tenho dado à estampa, nomeadamente no artigo “A poética cabo-verdiana e os caminhos da nova geração” (publicado na revista “Fragmentos” e retomado, em forma mais abreviada, mas mais desenvolvida neste aspecto específico, em “Cabo Verde- Literatura e Insularidade” (edições Karthala com coordenação de Manuel Veiga) tenho ressaltado a importância da revista “Sopinha de Alfabeto”, exactamente pelo seu experimentalismo sumamente moderno, pelos seus propósitos assumidamente inconformistas e alternativos (na verdade, mais nas artes e letras efectivamente praticadas do que na linha editorial publicitada) e pelo facto, que considero relevante, de ter revelado o poeta Valdemar Velhinho Rodrigues (mais tarde, Valentinous Velhinho) e o fotógrafo artístico João Nelson (Fernandes).
Obviamente que, nessas análises e tomadas de vista, a revista “Sopinha do Alfabeto”- tal como, aliás, a revista “Fragmentos”- é também considerada como continuadora, ainda que por caminhos próprios e livremente escolhidos, do ideário de renovação estética propugnado, desde a sua fundação, pelo Movimento Pró-Cultura. Continuadora mais na sua praxis efectiva nas letras e nas artes, que nalgum sectarismo estético-ideológico e político (supostamente alternativo) de alguns dos seus actores. Anote-se que, previamente debatido, esse ideário era conhecido de todos membros do Movimento Pró-Cultura ainda num tempo anterior às fracturas que, por um certo período, dilaceraram o mesmo Movimento. Tais fracturas terão ocorrido certamente não por o Movimento Pró-Cultura constituir um intolerável e inaceitável colete de forças para as diversas correntes estéticas modernas e renovadoras que no seu seio sempre puderam e quiseram co-existir, mas por razões outras, mais prosaicas e, para além do resto, eventualmente atinentes à experimentação e experienciação que alguns quiseram pessoalmente fazer de uma liberdade de acção artística que lhes proporcionasse o que entendiam como melhores e mais propícias condições para a expansão da sua criatividade. Quiçá sustentada em algumas subjacências políticas tidas por alternativas à situação então vigente nas ilhas, essa liberdade de acção foi todavia considerada pelos mentores da “Sopinha do Alfabeto”, depois organizados no “Grupo de Debates sobre a Arte” como incompatível com a coexistência organizativa com outras correntes estético-ideológicas no seio do relativamente multifacetado movimento cultural que colectivamente todos criámos.
Presume-se que esse desejo de liberdade de acção fosse sentido como tanto mais premente se considerarmos que, por essa altura, vivíamos num ambiente político a um tempo, exasperante e descontraidamente esquizofrénico, característico, aliás, de regimes autoritários de partido único da modalidade moderada e mitigada, então vigente em Cabo Verde.
2
Regime autoritário de partido único, com certeza!, ditadura “nacional e democrático-revolucionária”, sem dúvida alguma!, como diariamente comprovava (e era constantemente relembrado ao cidadão mais distraído e renitente) o monopólio do exercício do poder político pelo partido da independência, pela sua nomenclatura e pelas suas organizações sociais e de massas. Como ainda testemunham certos, ainda que esporádicos, acessos repressivos e a impune ostentação de poder por alguns agentes da Segurança e de outros aparelhos coercivos do Estado, como ficou patente em casos conhecidos como: a tortura sequente à repressão da histeria anti-revolucionária da contra-reforma agrária em Santo Antão; a contenção da cidadania exaltada com o escândalo de certos abusos e excessos autoritários na cidade da Praia; a intolerância policial em face da irreverência juvenil em S. Vicente e da clandestina pichagem nocturna em Assomada.
Regime autoritário, mas estranha e atipicamente mitigado, por comparação ao mais usual e corrente por esse mundo fora, incluindo na África lusófona, no que respeita a ostensivas e sistemáticas irrupções repressivas contra a liberdade de criação artística e cultural e outras mais elementares liberdades cívicas integrantes dos chamados direitos de personalidade, aliás, consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Constituição então vigente em Cabo Verde, desde Setembro de 1980.

Seria, quiçá, essa a controversa (imprevisível e, quase, incompreensível) fisionomia do regime de partido único caboverdeano, nesse ano de 1986, de declarado e procurado desanuviamento, proporcionado pelas comemorações do cinquentenário da revista “Claridade” e pela reconciliação, então em curso acelerado, com as elites claridosas e neo-claridosas. Ambiente de almejado desanuviamento, que, nesses fins dos anos oitenta, se veria a reflectir nas discussões sobre a necessidade de abertura do partido único às demandas de uma sociedade civil incipiente, mas que se mostrava cada vez mais activa e autónoma, bem como dos cidadãos cada vez mais atarefados na competição pelos então chamados bens raros e que, no plano político, viria a reflectir –se na inclusão de cidadãos independentes, e na rejeição de outros, nas listas de deputados à Assembleia Nacional Popular.
Anos de experimentações titubeantes de distensão socio-política e cultural, mas também de muita assiduidade (senão constância) dos raides dos panfletos nocturnos e das suas diurnas fotocópias, bem como de crescente insatisfação política e exasperação cívica dos quadros recém-chegados e das risilências criticamente jocosas ou desassombradamente oposicionistas nas colunas do jornal “Terra Nova”, nos planfletos clandestinos que chegavam das diásporas europeias e americanas, nas conversas dos bares, cafés e tabernas e nos vários “casacos pobres”, esquinas, e, até, nas repartições públicas da cidade, da vila e do subúrbio.
A relativa moderação repressiva do regime de partido único instalado em Cabo Verde teve efeitos de diversa e contraditória natureza.
Uns considerados positivos e, até, exemplares, por uma franja importante dos estudiosos da questão caboverdeana, porque pacificadores e preservadores da coesão social, por um lado, e, por outro lado, indutores e preservadores da estabilidade política e da paz social, imprescíndiveis como recursos estratégicos para a sobrevivência e o desenvolvimento de Cabo Verde como país independente e soberano.
Para outros analistas, a relativa moderação repressiva do regime de partido único, vigente de facto no nossos arquipélago até 19 de Fevereiro de 1990, teria produzido efeitos assaz perversos nos caboverdeanos das ilhas e diásporas. Segundo estes últimos estudiosos, dos efeitos históricos mais perversos produzidos por essa relativa moderação repressiva do regime de partido único seriam exactamente:
i) As frustrações que essa moderação ia engendrando naqueles que, críticos cautelosos mas atentos, ou aberta ou clandestinamente situados na oposição política interna, viviam oscilando entre:
a) Por um lado, a vontade de se integrar na normalidade cívica e social com que o regime monopartidário permanentemente lhes acenava e, nessa sequência, embrenhar-se no coração do sistema para, eventualmente, mudá-lo ou ajudar a mudá-lo por dentro;
b) Por outro lado, uma quase irreprimível vontade de, em coerência com os ressentimentos sentidos e meditados, se colocar nas margens políticas de um sistema que, quiçá, no íntimo, se desejasse fosse mais repressivo e mais efectivo na produção de dissidentes, presos políticos e outras vítimas e demais “heróis anti-totalitários”-para além da muito tolerada, identificada e, quiçá, manipulada, dissidência ideológica e cívico-política dos inúmeros “manda-bocas”-, e , assim, mais capaz de suscitar resistências e de tornar candente a urgência de o combater.
ii) As construções fantasmáticas a que essa moderação repressiva deu lugar.
Tais construções parecem caracterizar-se pelo seu carácter ambivalente e multifacético.
Por um lado, essas construções, porque eminentemente inócuas ou auto-legitimadoras de alguma inércia política e cultural, podiam tornar-se inibidoras e desmobilizadoras no seu prático desgaste de eventuais dissidentes e opositores políticos e auto-marginalizantes no seu alcance ideológico e simbólico sobre a praxis de escritores, artistas e de outros cultores natos da liberdade. Cultores natos da liberdade na medida em que, como é sabido, a liberdade constitui condição natural e intrínseca do modo de eles criarem, se exprimirem e socialmente se (re)produzirem.
Por outro lado, as construções fantasmáticas supra-referenciadas podiam tornar-se sumamente produtivas quanto no que diz respeito ao estado de alerta permanente que suscitavam no criador cultural e ao vírus crítico/oposicionista que inoculavam no intelectual independente.
Estado de alerta e vírus esses propícios à preservação da independência de espírito do intelectual ou do aprendiz de intelectual bem como da autonomia dos seus processos de criação e, assim, à premência psicológica e cívica em relação à necessidade da criação de uma obra literária e artística, marcada pela autenticidade do fingimento estético e pelo teor crítico do olhar.

3
Nesse quadro social e nesse contexto político, não podia o Movimento Pró-Cultura constituir, de modo nenhum, empecilho para experiências, sempre fecundas, de exercício da criatividade e da liberdade de expressão do pensamento nas esferas artística e literária, sob pena de, a não ser assim, atentar contra a sua própria e genética identidade e o seu programa baptismal de incentivo e prática experimentação da liberdade de criação e do pluralismo estético-ideológico.
Tanto mais que aqueles que integraram o Movimento Pró-Cultura inicial, foram-no exactamente porque dispunham quer de projectos e de iniciativas da mais diversa índole artística, quer de uma obra (ainda emergente e, por vezes, incipiente) que precisava ser testada pela opinião de um público mais vasto.
Para mais, a esmagadora maioria dos membros e dos colaboradores do Movimento Pró-Cultura pretenderam experimentar e experienciar por si próprios a liberdade de criação, que efectivamente exercitaram, mesmo quando alguns deles estavam profissional ou tecnicamente vinculados a organismos e instituições claramente conotados com o regime de partido único ou, senão, integrados nos aparelhos técnico-administrativos e ideológicos do sistema autoritário vigente, que, eventualmente, alguns apoiavam, mas que outros contestavam, de forma velada ou aberta.
O que, na altura, a mim pessoalmente me preocupava, era encontrar o modo e a via mais adequados de contribuir para a preservação e a optimização do entusiástico élan logrado com as actividades iniciais do Pró-Cultura e potenciar ao máximo a coesão criativa entre os confrades e companheiros para a irreversível afirmação da nossa geração e de cada um dos seus actores e integrantes.
Afirmação essa a efectivar-se primacialmente no campo da criação literária e artística e que, segundo achava, se devia firmar contra disputas estéreis e a intriguice de quem, “sagazmente” e de fora, se propôs como objectivo essencial e imediato desagregar o movimento emergente e matar no ovo esse sinal de inconformismo cívico e de uma nova afirmação cultural na cidade da Praia, na ilha de Santiago e no arquipélago caboverdeano, eventualmente concorrente de outras reiteradas vocações naturais, capitalidades culturais e quejandos.
Às fracturas acima referenciadas preferi denominar (de forma descomplexada e desassombrada, mas jamais com intenções ofensivas ou infamantes) como dissidência, porque as entendi como ocorridas no interior de um movimento pré-existente, estruturado mais por ténues e flexíveis linhas orgânicas e por uma geral linha de inconformista e fragmentarista (pós)modernidade do que por dogmas estético-ideológicos, já que o mesmo movimento, onde todos germinávamos, era geneticamente plural e aberto à diversidade de vertentes culturais e de correntes estéticas e artísticas.
Para mais dispunha já esse movimento cultural tanto de projectos suficientemente delineados, como o era, por exemplo, o projecto de revista cultural, como também de uma praxis de pluralismo já testada e evidenciada como plenamente produtiva.
Era este o estado das coisas no movimento, cujos membros entraram em conflito interno, aberto ou dissimulado, e, por isso, se espartilhou em facções várias, daí resultando o seu abandono por parte de alguns dos seus integrantes que preferiram enveredar por outras iniciativas específicas, consideradas alternativas às do movimento originário e delas absolutamente independentes.
Movimento originário que, além do mais, foi combatido de forma mais ou menos aberta e contundente, ainda que pelo tempo relativamente curto que duraram as fracturas e que precedeu a paulatina cicatrização das feridas.
Nada que possa suscitar especial estranheza.
Nada que não virá a ocorrer em futuras movimentações culturais e que não tenha antes ocorrido na história de grupos, correntes e movimentos culturais, inclusive nas gerações caboverdeanas antecedentes (como no caso das sucessivas fracturas no seio dos “Bulimundo” ou no episódio da célebre dissidência de Jaime de Figueiredo em relação ao grupo “Claridade”, de que foi co-fundador e de cuja ideologia teluricista também comungava, ainda que na perspectiva certamente mais moderna do projecto- matriz do grupo “Atlanta”).
Nada que possa suscitar algo mais que não sejam as compreensíveis, (mais ou menos) incendiárias, mas temporárias, paixões dos directamente implicados nesses conflitos, como eventualmente terei deixado transparecer no meu depoimento constante da entrevista colectiva concedida a Michel Laban para o livro “Cabo Verde-Encontro com Escritores” (volume II).
Conflitos, em geral, dialecticamente (permita-se-me o palavrão) produtivos, porque indutores de suplementares mais-valias estéticas - para além de mais estórias- aos grupos, indivíduos e gerações neles implicados e à história das letras e das artes, incluindo das letras e artes da historiografia cultural das nossas ilhas e diásporas, ainda muito incipiente na abordagem de certos assuntos e matérias, ainda considerados tabu.

4
Em e-mail e em texto publicado no seu blog (www.albatrozberdiano.blogspot.com), o poeta Filinto Elísio Correia e Silva discordou do meu ponto de vista quanto à caracterização das passadas fracturas, porque, segundo pensa e escreve, não existiria qualquer referência ou laço de matricialidade entre o Movimento Pró-Cultura e a revista “Sopinha do Alfabeto”. Tanto mais que, segundo diz e deixa entender aquele que foi um dos coordenadores do Grupo de Debates sobre a Arte, editor do segundo e último número da antiga folha praiense, esta última teria sobretudo pretendido consubstanciar uma “pedrada no charco de burocratas & obtusos, o lodoso dos camaradas dos ladas&balalaikas, tempo magro de ética e estética” e- como consta de um primeiro e-mail que me dirigiu- libertar-se da “saia justa” que supostamente seria, na altura, o Movimento Pró-Cultura.
Tudo bem e com o devido respeito e admiração, que são muitos e sinceros, pela irreverente e coloquial beleza das palavras do poeta, muito presentes, aliás, no blog albatrozberdiano e nos três livros de poesia que já deu à estampa.
Salvo contudo no que respeita ao que, sinceramente, considero como falaciosa qualificação do Movimento Pró-Cultura, mas auto-congratulatória caracterização, diga-se a posteriori, do “programa estético-ideológico” e do real impacto socio-político e cultural da “Sopinha de Alfabeto”.
Tanto mais que estavam também explícitos no ideário do movimento cultural que todos fundamos tornar mais inequivocamente perceptíveis e socialmente visíveis o pluralismo estético-ideológico e a prática efectiva da liberdade de criação intelectual, artística e cultural.
Prática efectiva da liberdade de criação porque ampla e não restringível nem pela sua funcionalização político-ideológica nem tão-pouco pela sua conformação com a interpretação restritiva, então predominante no entendimento de certos círculos político-partidários vigentes, do conceito de “progresso social”, consagrado como limite à mesma liberdade de criação na Constituição de 1980.
É esse o modo próprio e autónomo pelo qual o Movimento Pró-Cultura colectivamente optou para, com as verve, criatividade e irreverência intelectuais, literárias, artísticas e culturais dos seus membros e colaboradores, a sua diversidade criativa, a sua independência de espírito e de acção e a força proveniente da sua afirmação individual e geracional, contribuir para a renovação estética e temática então em curso nas ilhas e diásporas caboverdeanas.
Renovação estética e temática de que já eram protagonistas maiores, dentro como fora de Cabo Verde (em sentido literal e figurado): literatos, como João Vário, Arménio Vieira, Oswaldo Osório, Jorge Carlos Fonseca, Mário Fonseca, T.T. Tiofe, Corsino Fortes, G. T. Didial, Emanuel Braga Tavares, e, no plano do aprofundamento neo-claridoso de certas temáticas, Henrique Teixeira de Sousa; artistas plásticos, como os pioneiros fundadores do Centro Nacional de Artesanato; ou actores musicais, como os conjuntos musicais “Os Tubarões”, “Bulimundo” ou “Finason” e compositores e intérpretes como Manuel de Novas, Norberto Tavares, Renato Cardoso, Alberto Martins (dito Katxás), Vasco Martins e tantos outros que, por caminhos solitários ou colectivos, então emergiam, ou se evidenciavam no mundo plural dos festivais de música. De entre esses festivais, cabe destacar o “Todo o Mundo Canta”, reconhecidamente de grande importância na revelação de novos talentos, mesmo se alegadamente contaminada, na opinião de uns tantos críticos, pelo dirigismo político-cultural da JAAC-CV, e ainda o “Festival da Baía das Gatas”, de nítida imbricação extra-institucional e alternativa.
Relevante era também a nova atenção pública sobre a a problemática do crioulo, suscitada pelas mediáticas polémicas de 1986 e respeitantes à viabilidade da língua materna caboverdeana como língua literária, ao seu estatuto na sociedade caboverdiana e à questão da sua escrita, depois, de em 1979, ter sido adoptado o chamado “Alfabeto do Mindelo”, de base fonético-fonológica e dos célebres “chapéus”. Anote-se que é por essa altura que a obra de recolha das tradições orais empreendida por Tomé Varela da Silva começou a repercutir-se na celebrização da finadera Násia Gómi e na exumação das profetisas Bibinha Kabral e Nha Gida Mendi, das estórias à boca da noite, dos provérbios e adivinhas, integrada numa mais vasta valorização da língua caboverdeana. Valorização que conheceu os seus pontos mais altos com a publicação de Diskrison Strutural di Língua Kabuverdianu, de Manuel Veiga, o primeiro estudo científico sobre a língua caboverdeana, escrito também em língua caboverdeana, e, há precisamente vinte anos (em 1987), de Odju d' Águ, o primeiro romance em crioulo caboverdeano, e da colectânea de contos Natal y Kontus, de Tomé Varela da Silva.
Valorização a que não ficaram indiferentes nem as mais importantes revistas até então publicadas no período pós-independência, como as revistas Raízes e Ponto e Vírgula, nem sequer as volantes Folhas Verdes, a mimeografada Podogó e os muitos jogos florais que, nessa altura, pululavam nas escolas e eventos comemorativos. Valorização a que também não ficou alheia a revista Fragmentos, a qual deu à estampa importantes textos dramatúrgicos, poéticos e ensaísticos de Ano Nobo, Kaká Barbosa, Danny Spínola, Xan, T. V. da Silva, entre outros.
Relembre-se ainda que é nos Jogos Florais 12 de Setembro de 1976 (de que resultou o livro homónimo, publicado há quarenta anos pelo Instituto Cabo-Verdiano do Livro, então dirigido por Manuel Duarte) que se patenteia de forma firme o nascente pluralismo estético-ideológico caboverdeano e obtêm plena consagração a poesia iconoclasta do Arménio Vieira de “A Noite e a Lira” e a poesia surrealista, ainda fortemente construtivista, de Jorge Carlos Fonseca e o esfusiante e muito imagético cantalutismo de Oswaldo Osório.
Tais circunstancialismos eram altamente cativantes para os novos criadores e intelectuais que então informalmente despontavam na urbe praiense. Recrutados tanto entre os “jovens quadros”- recém-chegados dos estudos universitários nos mais díspares países a que as bolsas de estudo os conduziram-, como também entre os que ficaram- veteranos já no funcionalismo ou, contemporâneos dos estudos liceais, precocemente enredados na responsabilidade pelos filhos e pela família, e outros curtidos na terra e nas expectativas, por vezes ressentidas, de um dia também irem conhecer o mundo-, esses novos criadores marcavam com a sua diversificada origem insular e nível de formação académica o rosto alegre e festivo da Praia de então.
Era a Praça 12 de Setembro (a Praça Grande do Plateau) a melhor e mais visível vitrina da Praia intelectualmente curiosa, vistosa e agitada desses luminosos e irónicos anos oitenta, da sua ostentação e da sua descontracção, bem como da conjecturação de imaginárias e reais conjuras que se iam engendrando na conjuntura de então, com o futebol e os novos tribalismos (tão antigamente congénitos e típicos!) como pretexto, a poesia, as tocatinas e os bailes particulares como lemas, o chapéu de “cuba” (não o de “paja”) e “Ciku Kan” como motivos de riso, reflexão identitária e pretexto para o pedido de convocação de um novo colóquio linguístico (agora não no Mindelo, mas no bairro praiense de Tira Xapéu), a parecença dos rituais das igrejas, dominantes na religião e na política, como permanente momento de reflexão e de indagação sobre o futuro destino das ilhas....
Tudo depois, jantados ou não jantados, desembocando nos bares-restaurantes que então faziam a sua aparição como lugares de culto e tertúlia, como “O Poeta” e “Flor de Lys”, e vinham juntar-se aos clássicos “Cachito” e “Avis”, no plateau, e ao diurno lugar de encontro de intelectuais críticos do regime ou de simples técnicos da função pública que era o café “Vulcão”, também situado no plateau.
Tudo sob o olhar jocoso dos que se quedavam na esquina de “Casaco Pobre” e se enterneciam com as suas farpas e conversas politicamente incorrectas e merecedoras do olhar atento e severo dos que tinham por função desvelar os propadores de boatos e de rumores e velar pelas Instituições da República, tão escorregadias quanto ao saber o que eram exactamente, entaladas que estavam entre, por um lado, o Estado e o Partido e, por outro lado, a pragmática esquizofrenia do regime da democracia nacional revolucionária.
Tempos, pois, de muitos entusiasmos e expectativas, latentes insatisfações e não menores dilemas políticos e existenciais...
Daí, o propósito pró-cultural de participação na agitação das águas. Essa agitação cultural de águas era convictamente considerada como socio-politicamente produtiva -no sentido de portadora de potencialidades de mudança para os tempos imediatos ou a mais longo prazo-, porque imbuída de espírito crítico e alimentada pelo explícito potencial de insubmissão e de subversao induzidas pela permanente pugna- no seio da sociedade civil e dos homens e mulheres de cultura-a favor do pluralismo estético-ideológico.
Pugna pelo pluralismo estético-ideológico que era, assim e por este modo, tida como importante, senão como principal, força motriz da renovação nas letras e artes caboverdeanas, porque também dirigida, aberta ou subliminarmente, contra aqueles grandes e pequenos dignitários, contra aqueles grandes e pequenos poderes que, fátuos e fastidiosos, se compraziam acritica e tão-somente com a unicidade de uma literatura, predominantemente realista e panfletária, de ufana exaltação da chamada saga da reconstrução nacional, anestesiados que estavam pelo pestilento perfume que se destilava das águas estagnadas que, por vezes, pantanosas, também fediam nas nossas urbes.
Como explicam os factos “realmente acontecidos” - mais do que e para além de Freud-, se não há “referência e matricialidade” entre o Movimento Pró-Cultura e a “Sopinha de Alfabeto”, também não há ruptura quanto a esse ponto concreto, senão no que respeita à diferente percepção da necessidade da plural convivialidade com outros criadores das letras e das artes caboverdeanas.
Necessidade considerada inadiável porque, em busca da afirmação pessoal e geracional, também eram eles fautores modernos e relevantes de renovação estética, ainda que caçadores de outras heranças estético-ideológicas. Caçadores outros mas também portadores de armas fantásticas, ainda que, à primeira vista, menos fracturantes na provocatória ostentação das essências e das aparências, na irreverência da expressão pública da juvenil e legítima rebeldia das convicções a favor da liberdade de expressão cultural e do querer “ser di si manera” (como celebrizado na interpretação do rei do funaná, Zeca di Nha Reinalda) e, assim, de todos os pluralismos, incluindo, obviamente, o político.
Tanto assim foi que, com excepção de João Nelson, entretanto emigrado nos E.U.A., as letras e as artes praticadas pelos colaboradores da “Sopinha do Alfabeto” viriam a integrar a diversidade das artes e das letras divulgadas pela revista “Fragmentos” e pela colectânea “Mirabilis-de Veias ao Sol”, depois de algumas delas, nomeadamente as de Filinto Elísio Correia e Silva (ainda assinando F.S.), Eurico Barros e Mito (incluindo a sua faceta de caricaturista não permeável a censuras), terem sido reveladas no âmbito da participação do Movimento Pró-Cultura no “Voz di Letra” - suplemento, diga-se, assaz livre do oficioso “Voz di Povo”. A integração da diversidade de escritas alarga-se , aliás, a colaboradores de publicações extintas, como a revista Raízes, em processo de fenecimento, como as revistas Ponto & Vírgula e Mudjer, ou surgidas por essa altura, como a revista Seiva, da JAAC-CV, a revista Dja d' Sal, da Câmara Municipal, e a folha liceal Aurora, de modesta revelação dos poetas José Luís Tavares e Tales de Santana, para além dos jornais adversários Tribuna e Terra Nova.
Segundo posteriormente me disse em conversa de clarificação de ideias e de factos, que, depois, se estendeu, em amena cavaqueira, pela Feira do Livro de Lisboa, onde pudemos trocar os nossos livros disponíveis (o seu “Das Frutas Serenadas” -de muito conseguimento estético-literário que eleva para um mais alto patamar a obra do meu companheiro e interlocutor- e o meu “Assomada Nocturna (poema de Nzé di Sant’ y Águ)”), considera Filinto que a sua participação na “Sopinha do Alfabeto” não implicou necessariamente a sua definitiva desvinculação do Movimento Pró-Cultura e dos seus projectos.
Num post do albatrozberdiano, sequente a essa pacificadora conversa lisboeta, diz o meu confrade Filinto Elísio que me reconhece “razão de fundo” nas questões abordadas no meu texto dado à estampa no "asemanaonline" (“Considerações a propósito da Homenagem da CMP da Praia ao Movimento Pró-Cultura”), referindo-se aos muitos valores desse movimento e, assim, especificando, ainda que de forma indirecta, a candente questão da omissão dos nomes desse valores.
Apraz-me registar o ponto de vista do Filinto Elísio (na minha opinião, mais concordante com o real historial dos factos), porque, a um tempo, ratificador do que foi oralmente conversado e de parcial retractação em relação ao muito de acerbo que foi escrito no post anterior, em reacção que se presume a quente e sentida à minha crónica radiofónica, que, segundo suponho, não foi directa e pessoalmente ouvida pelo Filinto.
O ponto de vista, apaziguado e apaziguador, do meu confrade apraz-me tanto mais, na medida em que, apesar das divergências passadas e das distâncias geográficas que, por uns tempos nos separaram e vêm separando, não deixámos, nos tempos anteriores e posteriores às fracturas de 1986/1987, de ter inúmeros pomos de concórdia e espaços de convergência, de participar em projectos comuns ou coordenados por um ou por outro de nós (como nos casos da revista “Fragmentos”, da colectânea “Mirabilis”, do livro colectivo “Cabo Verde-Trinta anos de Cultura”, etc), que, como estou em crer, foram sempre marcados por uma grande vontade de produtividade intelectual, estética e cultural.
Nesta óptica, só posso concordar que pode não ter havido desvinculação definitiva do Movimento Pró-Cultura por parte do Filinto e de outros membros fundadores do mesmo Movimento, que, num dado momento, preferiram experimentar outros caminhos e enveredar por outros projectos. Na verdade, nos tempos posteriores às fracturas de 1986/1987, mesmo residindo fora da ilha de Santiago e, depois, de Cabo Verde, tanto o Filinto Elísio como também o Mito foram colaboradores assíduos dos projectos do Movimento Pró-Cultura.
Se considerarmos que um movimento cultural existe e se afirma mais pela efectiva praxis cultural que os dinamizadores das suas iniciativas logram engendrar e potenciar nos seus colaboradores (afinal, porque criadores, os verdadeiros actores das movimentações culturais) do que pela organicidade de pertenças (por vezes, meramente formais) aos corpos dos grupos promotores dessas iniciativas, cremos ser sustentável a argumentação do Filinto Elísio e o seu entendimento, amplo, do que foi o movimento pró-cultura dos anos oitenta e noventa do século passado.
Outros projectos comuns, os companheiros de sempre nas artes e nas letras, antigos e novos desafios (“ambos sabemos da essência e da bandeira que nos movem”, escreve o blogger) parecem, pois, apostar seriamente na continuidade do nosso companheirismo literário, artístico e cívico.
Apraz-me registar várias atitudes que atestam, desde há muito, a reconciliação, primacialmente no produtivo campo das artes e das letras, entre os antigos adversários do Movimento Pró-Cultura e da “Sopinha de Alfabeto”.
Apesar de tudo.

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Apesar de tudo pois que (impelem-me a sinceridade e a necessidade de público esclarecimento a confessá-lo) que estava por demais agastado com o ponto de vista anteriormente expendido pelo Albatrozberdiano e, de algum modo, surpreendido com o conteúdo do e-mail o Filinto me dirigiu, na sequência do nosso primeiro encontro na Associação Cabo-Verdiana de Lisboa, mesmo se, de propósito, não quis reflectir este estado de espírito de modo formal e de imediato no artigo que, logo a seguir, fiz publicar no "asemanaonline".
Na verdade, constatara o tom assumidamente rebelde e irreverente do post, na recomposição de uma visão das coisas, que era, aliás, partilhada por muitos de nós, designadamente em muitos aspectos respeitantes às nossas atitudes e convicções em face de alguns “sagazes” do regime autoritário de partido único e do estado das coisas, vigente nos anos oitenta.
Mas também constatara o tom cáustico e irónico e, de alguma forma, hostil, quando, no mesmo post, se intenta a ressurreição, para mim absolutamente extemporânea, de algumas das antigas fantasmagorias que muito contribuíram para o envenenamento das relações entre alguns participantes dos encontros inaugurais do Movimento Pró-Cultura, depois colaboradores do “Voz di Letra” e futuros fundadores das revistas “Sopinha do Alfabeto” e “Fragmentos”.
O meu agastamento era tanto maior na medida em que no encontro, tido na Associação Cabo-Verdiana de Lisboa, com um Filinto Elísio então em trânsito para as festividades caboverdeanas de Paris, e sabendo, de fonte limpa e fidedigna-porque altamente colocada na Câmara Municipal da Praia- do seu papel na indicação dos nomes dos contemplados para a homenagem da edilidade praiense ao Movimento Pró-Cultura, tive o cuidado e a lealdade de lhe comunicar algumas das minhas apreensões quanto ao âmbito dessa homenagem.
Apreensões no que respeita à omissão dos nomes de certas pessoas (como, por exemplo, Djélis (já falecido), Kaká Barboza, Fernando Monteiro, Lu di Pala, entre muitos outros). Apreensões ainda relativas à confusão e à rejeição que podiam legitimamente suscitar a exclusiva (e exclusivista) menção do Movimento Pró-Cultura (mesmo se entendido no sentido amplo de movimento ou, mais controversamente, de geração cultural) e o correlativo esquecimento de outras iniciativas culturais relevantes (como, entre outras, as revistas e folhas “Sopinha do Alfabeto”, “Pré-Textos”, “Artiletra” e “Xatiadu Si”, os vários suplementos culturais dos jornais publicados na Praia, a Spleen-Edições, o grupo “Simentera”, etc ) e da obra individual de vários autores e intérpretes, ligados ou não no passado ao Movimento Pró-Cultura.
Infelizmente, foi o que veio, efectivamente, a ocorrer com a maior parte dos presentes na cidade da Praia, de entre os contemplados (designadamente Daniel Spencer, Eurico Barros, Mito (Fernando Hamilton Barbosa Elias), José Vicente Lopes, Mário Lúcio Sousa, José Vicente Lopes, António Leão Correia e Silva, António Oliveira, Filinto Elísio Correia e Silva e eu próprio). Alguns desses contemplados alegaram não se reverem como membros do Movimento Pró-Cultura ou como co-fundadores e comparticipantes de gerações culturais homónimas. Outros ainda não concordaram com a alegada falta de dignidade como o convite camarário lhes teria sido dirigido. Outros, pura e simplesmente, nem sequer reagiram ao mesmo convite.
Posso entender o melindre que as minhas preocupações e a referência, naquelas circunstâncias, à “Sopinha de Alfabeto” possam ter provocado no meu confrade, companheiro e amigo assumido, e, por isso, congratulo-me com o facto de terem sido publicamente dissipados certos mal-entendidos.
Mesmo se, muito sinceramente, continuo a pensar que nunca houve lugar nas conversas tidas com o Filinto Silva a que eu, deliberada ou inadvertidamente, tivesse provocado “mal-entendidos” a serem, depois, “ultrapassados”. Tanto assim foi que, tendo tomado conhecimento por pessoas próximas da homenagem camarária, tinha expressamente comunicado à directora de cultura da edilidasde praiense as minhas preocupações com as omissões acima referenciadas, bem assim as minhas dúvidas acerca de algumas coisas que me pareciam menos claras e correlacionadas com a mesma homenagem camarária. A mesma entidade pudera, gentilmente, esclarecer-me sobre algumas delas, sobre a boa fé da Câmara Municipal (aliás, nunca posta em causa) e o que ela pensava ser a génese das omissões.
Mais uma vez, reitero o que vem escrito (ou deixei implícito) no meu texto “Considerações a propósito da homenagem da CMP ao Movimento Pró-Cultura”: são a profunda consideração por todas as iniciativas culturais ocorridas nos anos oitenta e seguintes na cidade da Praia, a amizade que nutro pelas pessoas que as incorporaram e protagonizaram e o sincero respeito pelo seu trabalho e pela sua dignidade que me levaram a discordar da forma como algumas dessas pessoas (não) foram recenseadas e convidadas para a mesma homenagem camarária.
Suponho que, na sequência dos notórios erros de casting e de qualificação mencionados no meu texto “Considerações a propósito da homenagem da Câmara Municipal da Praia ao Movimento Pró-Cultura”, alguns dos convidados para a mesma homenagem terão pressentido o incómodo, o mal-estar que a sua comparência poderia fazer significar, muito devido à circunstância de terem sido convidados para estar, não certamente no lugar e no momento errados, mas no sítio certo, mas numa posição errada ou, pelo menos, dúbia. Foi, por exemplo, o caso confesso de José Vicente Lopes, que, embora colaborador assíduo da revista “Fragmentos” (como também da revista “Ponto e Vírgula), não se identifica como integrante do Movimento Pró-Cultura ou, ainda menos, de uma geração literária homónima. Terá sido ainda, e com maior acuidade, o caso de António Leão Correia e Silva, que, cientista social e historiador de muito e reconhecido mérito e, por isso mesmo, credor de muita estima, respeito e admiração (inclusive dos meus, como tenho muitas vezes publicamente expressado), nunca participou em qualquer iniciativa ou projecto do Movimento Pró-Cultura, preferindo, compreensivelmente, priorizar a colaboração em revistas de especialidade que melhor respondessem às suas razões e preocupações académicas e a específicas exigências de divulgação dos trabalhos científicos que ia elaborando.
Eles que, como outros criadores e intelectuais caboverdeanos das novas vagas, seus companheiros ou contemporâneos, reconhecidamente valem não só-e não mais- pela sua participação em grupos, movimentos, equipas científicas e outras iniciativas relevantes, mas também e sobretudo por si próprios e pela obra de pessoalíssima lavra que vêm produtivamente construindo, edificando-se, nítidos, como cultores modernos das artes, das letras e das ciências sociais caboverdeanas, e, com eles, também à nossa geração e ao prestígio dos grupos, movimentos, correntes estéticas e equipas científicas e de trabalho em que participaram, contribuindo para torná-los incontornáveis na história e na historiografia da cultura das ilhas e das diásporas caboverdeanas.
O caso de um António de Oliveira, absolutamente desconhecido como membro ou colaborador do Movimento Pró-Cultura e, ainda menos, como autor de obras literárias ou artísticas, terá constituído o mais flagrante erro de casting e de qualificação. Terá havido, neste caso, confusão com Cândido de Oliveira, poeta de muitos e inéditos recursos, actualmente emigrado nos EUA?
Por isso mesmo é que, por vezes, preferimos ser primacial e nitidamente chamados e nomeados na completude baptismal e biográfica dos nossos nomes.

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Devo, enfim, acrescentar que certas alusões desse post foram entendidas e interpretadas por certas pesoas como insinuações estigmatizantes e ultrajantes do meu carácter e da minha integridade moral de cultor das letras e cidadão caboverdeano.
Obviamente que, “poeta, ensaísta e assumidamente confrade”, considero que permaneço “redondo e recorrente” sim, mas nas minhas convicções mais profundas e nalgumas interpretações que continuo a fazer dos sucessos e insucessos dos anos oitenta do século XX.
Tal como o poeta autêntico que o Filinto Elísio reconhecidamente é, também eu “não escreveria para prémios e medalhas”. Cidadão íntegro que me considero, nem sequer faria “corredores para passaportes diplomáticos e outros apliques” bem como para a ilegítima obtenção de outras vantagens pessoais a conceder pelo poder político-cultural, eventualmente a troco de alguma forma de serventia intelectual ou outra maneira de melhor ganhar a vida como escriba de corte.
Embora não considere desajustada e descabida a atribuição, sustentada na lei, de passaportes diplomáticos e de outros documentos àqueles intelectuais e criadores que desses documentos precisem para ultrapassar certos constrangimentos relacionados com as restrições à livre circulação das pessoas entre as ilhas, as diásporas e os estrangeiros, em geral para melhor divulgarem a cultura caboverdeana. Como é do conhecimento público, tais documentos têm sido atribuídos, com ganhos para a cultura caboverdeana, a muitos e conhecidos escritores e artistas, nossos conterrâneos.
Embora- e para além do seu valor eminentemente prático para os fins políticos de quem os concede-, também reconheça os prémios e outros galardões como formas legítimas e adequadas de reconhecimento público do papel social e do labor do poeta, do escritor, do artista e, em geral, do criador cultural, bem como do mérito da obra que desse labor tenha resultado.
Embora reconheça o papel dos galardões, das homenagens e de outras honrarias na satisfação da necessidade de reconhecimento a que muitos criadores se sentem com direito, quer pelo único mérito da sua obra, quer também para a sua muito compreensível satisfação pessoal e, até, exaltação ególatra.
Embora não minimize os prémios, quando também considerados na sua faceta de verdadeiras bolsas de criação, e o seu contributo quer para a superação do preconceito amplamente difundido segundo o qual os tempos do labor artístico seriam tempos de “boa vida” porque alegadamente de ócio de preguiçosos compulsivos, quer ainda para o provimento de eventuais necessidades materiais da criatura, do ser humano e do cidadão que, condicionados pelas precisões da carne e do pão de cada dia, pela necessidade de, em suma, “ganhar a vida”, se perfilam por trás do poeta e sustentam o seu tempo disponível tanto para a criação como para a sua “marginal circularidade”. Precisões e necessidades cuja satisfação não pode ser negligenciada, quando se tem especialmente em conta aqueles poetas e escritores, única e tão somente apostados na criativa reivenção do mundo e, eventualmente, embrenhados na subversiva recriação da agreste matéria mundo que, no dizer de José Luís Tavares, é dada ao poeta como matéria informe que somente a ele compete lapidar.
Se, como sacralizou o Cristo, nem só do pão vive o ser humano, essa criatura por excelência- que todavia se almeja se faça outrossim criador-, também nem só de espírito e do ar dos tempos vive o tapoé, como comprovam vários exemplos da história e diversos casos recentes. Casos recentes, nossos conhecidos por tocarem poetas e escritores nossos, grandes mas não imunes à sua humana condição de meros seres, enredados na implacável complexidade da luta pela sobrevivência no quotidiano da vida em sociedade.
Felizmente (infelizmente para alguns), não me pareço e não me confundo com alguns dos “titãs” das nossas praças e esplanadas, meus conterrâneos e, por vezes, contemporâneos.
Esses, sim, esses mesmos que, infelizmente e demasiadas vezes, se habituaram a fazer fretes ao poder (a qualquer poder) e aos seus vários e sucessivos detentores e postulantes políticos, sociais e económicos, ao mesmo tempo que, para os mais incautos, se fingem de poetas malditos, escribas engajados com os desvalidos da sorte e da fortuna e, mais recentemente, com os muito convenientes marginais da globalização.
Esses, sim, esses mesmos que preferem perfilar-se como intelectuais, cronistas ou jornalistas independentes, alegadamente postados contra o poder, que todavia caninamente servem, manhosamente cortejam e/ou ávida e intimamente cobiçam.
Esses, esses mesmos que se postam como vociferantes escritores marginais, sempre avessos às prebendas de que, contudo, quotidiana e sorrateiramente, sempre escorregadiamente se beneficiam.
Já é sabido: o que se cultiva não é a independência de espírito, de critério e de conduta, mas a permanente e manhosa disponibilidade para servir a quem, momentaneamente que seja, esteja no (co) mando político, económico-social ou cultural.
Sem prejuízo todavia da produtividade literária que, reconhecemo-lo sem qualquer reserva, emerge dessa (in)voluntária duplicidade, dessa encenada esquizofrenia que, amiúde, perpassam o cidadão, armadilhado na luta quotidiana pelo seu “pedaço de lugar ao sol” e pelo quinhão das benesses da vida quando o mesmo cidadão, remordido ou comprazido, se embrenha-ou finge embrenhar-se- no acto de criação artística e se transfigura (de forma autêntica ou simulada) no poeta ou no intelectual que deveras é, se considera ou se é suposto ser, ou por que, inadvertidamente, é tido.
Também eu subscrevo a admiração pela condição libertária do criador e reconheço no “canto do poeta” “o espírito do gato” que, “lá no alto”, “não recebe nem atende ordens de ninguém”.
Esse poeta a quem tanto repugna “a voz melíflua dos Petronius” que, em público aplaudem e despudoradamente cortejam a lira dos Neros e de outros eventuais, quiçá involuntários, incendiários da palavra poética, para, em privado, melhor se rirem dessa fraca, quiçá auto-convencida, errada e menoríssima, mas humana e honesta lira, em regra marcada pelo cantalutismo e pelo choralutismo panfletários ou pelo barroco (para não dizer bacoco) espanto ante o indecifrável mistério da palavra.
Esse poeta que, dotado da rectidão de carácter dos homens maiúsculos de Mário Fonseca, porque verticais, é todavia portador privilegiado de dois dons: o dom do fingimento estético que subjaz a toda a criação autêntica e o dom do exemplo da palavra plena e livre que crê poder inocular a todos os incendiários, fortuitos ou não, premeditados ou espontâneos, da casa poética.
Esse poeta a quem repugna a “nojenta gastronomia” dos “ortopoemas”, transitivos na sua instrumentalização utilitária e na sua sujeição às demandas de quem, sempre transitoriamente, manda.
Nisso e no que na obra se consubstancia como libertação, catarse e, até, remorso, da vida vivida, sofrida, conspurcada e meditada e pelo verbo reconstruída é que, segundo creio, reside realmente a condição do poeta autêntico.
Quem nos dera que, para além de artífices, técnicos ou, se se quiser, manipuladores da palavra escrita e da linguagem das artes literárias, todos os cultores da poesia fossem imunes a certos compromissos a que os impelem a sua condição de criaturas socialmente situadas e de cidadãos estético-ideológica, cívica e politicamente comprometidos e , assim fossem (ou quisessem ou pudessem dar-se à liberdade de) ser tão coerentes como Arménio Vieira faz por ser no seu quotidiano e exaustivo exercício de suicídio para se manter como poeta a sério, como poeta somente, enxuto na integridade da sua arte e na sinceridade do seu fingimento estético, apesar dos coices da vida e do vento secamente brumoso que, amiúde, assola a ilha e avassala o peito sitiado do cidadão e do poeta.
Poeta a sério porque na obra autêntico e liberto de demandas alheias às demandas da ética e da estética, mas também sabendo que Setembro dói e sangra na necessidade cidadã, nunca liminar e definitivamente excluída, de encetar compromissos com o outro seu próximo e semelhante, seu correlegionário ou adversário, também “caboverdeano anónimo, humilde, meu irmão” nas atribulações da vida em sociedade e na pugna para vencer todos os desafios rumo a uma vida melhor, porque mais digna e de maior bem-estar material e espiritual. “Ilha a ilha. Dor a a dor. Amor a amor”, como escreveu o também iconográfico Ovídio Martins. Porque, como igualmente assevera Oswaldo Osório, só o tapoé pode “consolar os pobres deste mundo/ com eles repartir o (...)pão”, feito “de leite azedo” e “papas de sucos de ervas”. Porque só o tapoé pode “levar ao tribunal da Humanidade os crimes/ e as mentiras que são milhões/ mas sobretudo compreender o seu (teu) tempo como nenhum e por isso loucamente o amar”.
Ou como o tapoé de Oswaldo Osório que, stalion infatigável na visitação de uterosoutros, na subversão da iconografia vigente, na fraternidade e no amor ao seu tempo, desmesurado porque plenamente comprreendido, é instado a colocar “naquele lugar”os diplomas, as medalhas, os galardões e outras honrarias, por que tanto (ainda que dissimuladamente) pelejam uns tantos “desinteressados”.
Escreve o poeta no livro Clar(a) idade Assombrada, dado à estampa no mesmo ano de 1987, no qual o Movimento Pró-Cultura consolidaria a sua perenidade iniciando a publicação da revista Fragmentos: “só tu podes tapoé (...) insistir em ser tratado por tapoé/elevar-te como um deus/ ou humilhar-te como um anacoreta(...)dos louros que porventura justamente mereceres/ destilar o filtro da gratidão/ que distribuirás aos carecidos de humildade/ (mas aos diplomas e outras honrarias/manuscritas impressas a ouro ou em fino pergaminho/neles limparás o cu”.
Ainda no que respeita à rectidão do carácter:
Nunca dobrei a espinha, servilmente me postando perante nenhum tipo de poder, de magnata, de manipulador de afectos, de chantagista de expectativas, de vociferador de ameaças ou de provedor de promessas açucaradas de cenouras futuras, enfim, do “sagaz” detentor do sorriso e do sangue da hipocrisia, na fugaz transitoriedade das nossas e alheias circunstâncias, nem nos tempos transactos do regime de partido único nem nos tempos pluripartidários, também, em muitos aspectos, assaz apertados, que se lhes seguiram.
Isso tudo, em tempos de meditação, de árdua criação, de bloqueio da palavra falada ou escrita, mas também em situações de recreio, convivialidade e de tertúlia ou, se se quiser, de humanos excessos e, por vezes, de gestos insanos e boémio desvario.


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PARÊNTESE SOBRE A ACTUALIDADE DA QUESTÃO DA INDEPENDÊNCIA DO CRIADOR E DO INTELECTUAL
Anote-se, finalmente, que os efeitos perversos, acima assinalados e resultantes das práticas esquizofrénicas tanto do regime de partido único como também dos seus críticos e opositores, viriam a resultar numa transição pacífica, para o pluripartidarismo e para um regime de democracia plena. A mesma transição, considerada, aliás, exemplar por vários estudiosos e analistas, culminaria, paradoxalmente, na potenciação vencedora por parte da oposição emergente de todos os ressentimentos-os pequenos, os grandes e os inventados-, acumulados nos vários extractos da sociedade caboverdeana.-nalgumas elites, como também nas camadas populares mais humildes e mais despojadas dos bens básicos para a manutenção de uma vida digna.
Dessa potenciação- também predominantemente retórica e ampla e amnesicamente compensatória dos efeitos de inércia oposicionista acima referenciados- resultaria uma transição marcada pela ostensiva e entusiástica colocação da maioria dos caboverdeanos ao lado da oposição política emergente. Curiosamente, uma parte significativa dos mentores e dirigentes internos dessa oposição emergente encontrava-se aparentemente integrada nos sectores apartidários do sistema com a nítida, se bem que inconfessada e nem sempre coerente, pretensão de mudá-lo por dentro, mediante o exercício de inusitadas mas eficazes estratégias de “colaboracionismo crítico e rebelde”.
Também nesses períodos de transição, a retórica permaneceu, em grande medida, fantasmática, sobretudo no que respeita à real dimensão da resistência e da oposição internas ao regime de partido único bem como à inércia induzida pelas suas políticas de sedução e de neutralização políticas de eventuais opositores e críticos internos.
No inadiável e indesperdiçável agora da oportunidade de mudança, essa retórica foi eficazmente utilizada não para justificar a passada inércia dos que muitos-como se verifica no romance “O meu Poeta”, de Germano Almeida- consideram, pejorativa ou jocosamente, como críticos de café, muito possuídos pela cautela, voluntária ou compulsivamente imposta e de que tanto fala Jorge Barbosa, o frustrado panfletário, referindo-se, como é óbvio, a outros, mais obscuros e repressivos tempos e a outros, mais subtis “colaboracionistas rebeldes”.
Ela foi utilizada para, literalmente, usar essa mesma inércia como corpo de delito e prova cabal de feroz e implacável repressão política, social e cultural por parte do antigo regime de partido único, para mais considerado parasitário e necessitado de desmame, e suscitar, nesses tempos de desvelamento das montanhas de arquivos das polícias políticas de Leste, como no caso da Stasi, ou do puro terrorismo de Estado, como no caso da Securitate romena, o asco político das populações sedentas de luz, pão, tecto e da urgência da plena liberdade de expressão política, e, assim, activar-se como actor fundamental da mudança. Deste modo, demonstrou-se essa retórica de uma inesperada eficácia, que, ratificada pelos acontecimentos dos países do Leste europeu e africanos e legitimada pela larga mobilização das ruas, foi, depois, efectivamente sufragada pelos caboverdeanos nas urnas do voto plenamente democrático e livre.
Efectivava-se, assim, a alternância política como momento importante da mudança de regime, consagrada na revisão de Setembro de 1990 da Constituição de 1980 e amplamente ratificada e desenvolvida na Constituição de Setembro de 1992 nos seus pressupostos e nas suas consequências de alternância política. Mudança de regime essa que fora encetada com a abertura polícia de 19 de Fevereiro de 1990 e de início “magnanimamente outorgada” pelo regime autoritário, ainda que em arrogante desespero de causa, porque pensada num tempo aziago e fatal para todos os regimes de partido único, de esquerda como de direita, de orientação socialista como de assumida e neo-colonial orientação capitalista.
Tempos aziagos mesmo para os regimes autoritários mais moderados e mitigados, como as fragilidades estruturais e o contexto histórico-sociológico de Cabo Verde fizeram com que o regime de partido único que lhe coube em sorte tivesse que ser, também muito graças à sagacidade heroificada das elites do mesmo regime e do seu proverbial e muito produtivo pragmatismo.
A reviravolta política da sociedade caboverdeana foi de uma dimensão tal que dela resultaria não só a mudança dos paradigmas políticos, económicos e sociais, vigentes quase consensualmente no pós-independência, mas também um novo questionamento e, até, a mudança dos símbolos identitários do Estado e da Nação caboverdeanos.
Não obstante as mudanças de regime e das suas bases constitucionais e jurídico-legais, permanece actual a questão da independência dos intelectuais e dos criadores nas suas relações com o poder político (o Estado, os partidos políticos e as suas organizações-satélites), o poder económico, o poder da(s) Igreja(s) e outros poderes de facto, muitas vezes de difícil identificação.
Com efeito, a extrema bipolarização político-partidária da sociedade, resultante das condições político-sociais da emergência de uma democracia plena em Cabo Verde, tem-se assinalado como muito perversa nos seus efeitos de condicionamento das relações entre o poder político e a sociedade civil. Maxime no que respeita à problemática da independência dos intelectuais e criadores culturais, senão nas suas opções político-partidárias, pelo menos na condução livre e autónoma dos seus processos de criação e na gestão das suas organizações próprias. Assinale-se essa diferenciação pois que todas e quaisquer opções político-partidárias têm sido formalmente consideradas como igualmente legítimas e, por isso, socialmente aceites num quadro que gosta de se identificar como genuína e plenamente democrático. Formalmente, na medida em que na prática o revanchismo político-social, legitimado na alegada necessidade de extirpação dos resquícios autoritários e socializantes do regime de partido único, bem como a fantasmática projecção de uma imagem exageradamente repressiva do regime autoritário implantado no Cabo Verde independente e a hiperbolização da oposição interna ao mesmo regime conduziram a adopção de medidas de indisfarçável motivação e nítida feição políticas, escassamente sustentadas numa clara e inequívoca fundamentação jurídica (constitucional, penal ou administrativa) e numa credível e verdadeira história da repressão política e cultural no Cabo Verde pós-colonial, porque, como as famosas prateleiras e as arbitrárias transferências largamente comprovaram, eram dirigidas primacialmente para a perseguição e neutralização dos adversários políticos e a desmoralização e a destruição do carácter dos visados, mais renitentes na ovação dos novos dignitários.
A questão da independência dos criadores e intelectuais permanece, pois, premente na sua ambiguidade, tanto mais porque continuam assaz incipientes ou, pelo menos, marcadas por congénitas insuficiências, as convicções, a cultura e a prática democráticas de uma parte importante dos agentes políticos e dos actores sociais, partidariamente muito marcados e muito acossados pelas exigências imediatas da bipolarização político-partidária e, por isso, pouco tolerantes em relação a pretensões vindas de quem não seja da mesma cor política ou, ainda pior, se insinue como independente. Pior, na medida em que o independente, mormente se intelectual, é, amiúde, considerado como pouco previsível ou, até, imprevisível nas suas opções políticas presentes e futuras, e, por isso, pouco fiável (e claramente menos fiável que o adversário ou o correlegionário políticos)
Para mais, continuam porosas e muito sinuosas as relações entre o criador e o intelectual, por um lado, e o Estado, por outro lado, ainda muito intervencionista, mesmo quando portador de um discurso des-interventor e e pela pugna por modelos marcadamente neo-liberais. Considerados por muitos como impraticáveis para o sector cultural nas condições periclitantes e frágeis da sociedade caboverdeana, o discurso e o modelo culturais neo-liberais não têm encontrado grande eco por parte dos mais directos interessados, que são os criadores e produtores culturais.
Por isso, o intervencionismo público parece encontrar justificação e vem-se legitimando por força da fraca, ainda que crescente, pujança das indústrias culturais privadas, da dependência dos criadores e artistas- muito afeitos à manutenção de “laços comestíveis” com o poder, por exemplo por via de encomendas, por vezes contaminadas pelo clientelismo político-partidário-, bem como na urgência sentida no que respeita à necessidade da salvaguarda e da revitalização do património cultural, material (como, por exemplo, o património edificado) e imaterial (como no caso da língua caboverdeana), entre outras questões relevantes.
Para mais, as actividades político-partidárias, designadamente as campanhas eleitorais, e aquelas político-culturais, de promoção da imagem e da identidade caboverdeana, conduzidas pelo Estado, por entidades públicas, para-públicas e privadas e por associações, em regra partidariamente marcadas, têm constituído uma não negligenciável fonte de rendimentos para artistas (musicais, plásticos,etc) e um importante espaço de dignificação material e simbólica de escritores e outros intelectuais.
Deste modo, gozando formalmente de todas as prerrogativas de uma quase ilimitada liberdade de criação e de expressão literária, artística, científica e cultural, o criador caboverdeano parece andar ainda à procura de modos de efectivação prática dessa liberdade, como também, por outras formas e em contextos diferentes, outros segmentos sociais buscam o modo e o lugar, nacional ou diaspórico, de efectivar o exercício dos direitos sociais, económicos e sociais que a Constituição outorga e garante a todos os caboverdeanos, mas que o subdesenvolvimento do país, a pobreza crónica da sociedade e a ignorância de uma significativa parte dos seus titulares e destinatários não permitem usufruir e efectivamente gozar.
Os complexos e pruridos em relação a qualquer forma ostensiva e demonstrativa de censura têm tido positivos efeitos anti-repressivos e têm facilitado a profusão de correntes e de experiências artísticas de grande relevância para a universalização sustentada das artes e letras caboverdeanas, mas também têm dado inusitadas oportunidades de financiamento e mediatização a práticas supostamente culturais de quem não domina os instrumentos e as técnicas elementares das linguagens literárias e artísticas, como infelizmente se tem verificado com certos versejadores e escribas, dotados, por vezes, de muita imaginação criativa, mas pouco municiados com o engenho e a arte que só o estudo aturado e o incansável labor propiciam. É, por exemplo, o caso de alguns que, pretendendo-se lusógrafos, exibem gritantes insuficiências na língua portuguesa dos livros que só os patrocínios e os compadrios permitem publicar.
Pode-se, pois, dizer, que se vai firmando, no chão de Cabo Verde, a tradição da pugna pela liberdade de criação, a qual não sofre, na actualidade, restrições jurídico-legais ou limitações práticas, relevantes nos seus efeitos censórios. Isso, apesar da norma constitucional relativa à inviolabilidade da sacralidade de ícones, símbolos e sentimentos religiosos e, obviamente daquelas outras relativas à tutela da infância, da privacidade (da intimidade da vida privada), da imagem da honra, da reputação e do bom nome das pessoas, bem como de outros valores básicos de um Estado de Direito Democrático, sobretudo se correlacionadas com a liberdade de informação e os instrumentos que a comunicação social (incluindo a digital) põe à disposição da liberdade de imprensa e da liberdade de criação literária, artística, cientifica e intelectual.
Deste modo, a já longa pugna pela liberdade de criação tem-se paulatinamente transferido para o campo menos em vista da efectivação prática dessa liberdade, também mediante a operacionalização de mecanismos, como: a cultivada experienciação de novos caminhos estéticos, tidos por superadores das experiências herdadas, primacialmente claridosas, neo-claridosas e novalargadistas; a adopção de políticas públicas pertinentes em relação à valorização de expressões identitárias fundamentais do povo caboverdeano e compatíveis com a crioula e arquipelágica diversidade das ilhas e diásporas; a optimização da iniciativa privada e dos projectos dos criadores e dos vários segmentos da sociedade civil; a preservação da equidade e da igualdade de oportunidades mediante a prioritária valorização do mérito no que respeita ao financiamento, ao patrocínio e ao reconhecimento público, moral ou pecuniário, da produção e da criação culturais e dos seus autores e protagonistas.
Também, na parte desses tempos que coube ao Movimento Pró-Cultura viver, fez esse movimento tudo para manter a sua independência de pensamento e de acção .Muitos dos seus membros e colaboradores continuariam a pugna pela liberdade de criação em outros quadros mais latos, como por exemplo nop quadro da Associação de Escritores Cabo-Verdianos e de editoras que ajudaram a criar e a fazer sobreviver.



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NOTA CONCLUSIVA

A terminar, gostaria de, mais uma vez, expressar a minha pessoal satisfação pela homenagem da Câmara Municipal da capital do país ao Movimento Pró-Cultura.
Homenagem que, como referido, considero justa e oportuna, ainda que atrasada de um ano, se levarmos em conta que a mesma estaria calendarizada para 2006, ano em que se completaram vinte anos sobre a data em que a cidade da Praia-Maria deu à luz o movimento cultural mais marcante da pujança da nossa geração.
Pujança que, consabidamente, ficou marcada nas páginas da revista “Fragmentos”, fundada em 1987, exactamente no ano em que feneciam tanto o suplemento “Voz di Letra”, onde entre de 1986 e Março de 1987, começara a revelar-se a nossa geração, como também a folha “Sopinha do Alfabeto” e a revista “Ponto e Vírgula”, publicações também marcantes da década de oitenta e da nossa geração.
Geração essa caldeada por tantas experiências estéticas e humanas e protagonizada por gentes oriundas de tantos e diversos lugares do nosso arquipélago cultural, urbanos, suburbanos, semi-urbanos, como também rusticamente remotos!
Geração essa por muitos considerada incontornável no contexto dos actuais desafios da cultura caboverdeana.
A minha satisfação é tanto maior quando, nessa ocasião em que relembramos os actores e os trágicos acontecimentos da noite de 19 de Maio de1974, a Câmara Municipal da Capital também prestou merecida homenagem a outras importantes personalidades e entidades da bem-amada cidade da Praia de Santa Maria da Vitória, como, por exemplo, o poeta, ficcionista e combatente de causas várias Oswaldo Osório, os artistas musicais Tcheca Andrade e Mayra Andrade, a revista “Direito e Cidadania”, o espaço cultural “Quintal da Música”, os cafés-restaurantes “Cachito” e “O Poeta”, tão memoráveis, porque também culturalmente produtivos no passado e no presente.
Lamenta-se, mas compreende-se que, como usualmente e coerente com a sua conhecida aversão a esse tipo de honrarias e éfemeros estrelatos, Arménio Vieira, “pedreiro muito lido” e “calceteiro dolorido”, não tenha querido comparecer ao acto de homenagem camarária.
Almejamos que na próxima grande oportunidade que serão os cento e cinquenta anos da Praia-Cidade, se corrijam as omissões, infelizmente, verificadas, no dezanove de Maio deste ano, não só em relação ao Pró-Cultura (nas acepções de grupo, movimento e, para alguns e mais controversamente, também geração), como eventualmente em relação a outras personalidades, entidades, áreas culturais e sectores de actividade.
Afinal, a Cidade da Praia quer ser, e cada vez mais, viveiro de mulheres e homens de cultura e de cidadãos plenos na assumpção capaz e descomplexada dos desafios da cidade, como agora o comprovaram o Simpósio “Claridade”, o Festival da Gamboa (em que se homenageou Manuel Clarinete, na sequência, aliás, da homenagem no ano passado, a João Henrique de Oliveira Barros), a Praia-Mov 2007 e o Festival Riba Praia.
Com os olhos postos nos seus planaltos, achadas, várzeas e ribeiras e nas pessoas que neles labutam e vivem, os praienses vão, assim, deixando para trás a cidade-repartição que foram, a Praia sábi e bela, mas também e depois a Praia prigu e mal-amada- porque degradada e cercada dos muitos subúrbios, onde pulula(va)m a pobreza, o caos urbanístico e a marginalidade social-para, gradualmente, mas assoberbados de certezas, abraçarem uma Praia-Maria definitivamente bem-amada, porque mais cosmopolita e mais atenta às interpelações da modernidade.

POST-SCRIPTUM, DE MUITO RENITENTE, MAS, QUIÇÁ, NECESSÁRIO E LIMITADO EXERCÍCIO DE “DIREITO DE RESPOSTA”

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Alguns leitores têm, infelizmente, optado pelo soez e vil ataque pessoal, pela difusão de falsidades e pela manipuladora intrusão na vida privada de alguns autores de ensaios e artigos de opinião, assim deliberadamente desvirtuando o espaço reservado ao comentário livre das ideias expendidas por esses e outros autores .
Foi, por exemplo, assim com o meu artigo “O caso Amílcar Cabral”, aliás, objecto de vários elogios públicos e privados.
É agora o caso com um leitor que, andando certamente nas minhas proximidades ou coroído por algum inconfesável ressentimento, se esconde atrás da identidade virtual “Daniel”.
Como resposta a esses leitores, que preferem refugiar-se na obscura impunidade do anonimato, apetece-me, desde logo, parafrasear um muito experiente amigo meu: “o anonimato do ataque sem rosto é uma tocaia que, pretendendo-se assassina, nunca honra o jagunço”.
Dito isto e apesar de, habitualmente, me recusar a responder a ataques pessoais e difamatórios, mormente se provenientes de anónimos, abro uma excepção, não para, ingenuamente, responder a insultos e ofensas de incógnitos, mas para, de alguma forma, contribuir para a dissipação de dúvidas lançadas maldosamente à arena com vista a pôr em causa a independência do Movimento Pró-Cultura e a insinuar a sua instrumentalização administrativa ou político-ideológica. Serve também a cirscunstância para a reafirmação de alguns princípios que sempre guiaram a minha conduta quer como criador quer como participante de movimentos, associações e organismos culturais.

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Assim e quanto às mirabolantes considerações do anónimo que se esconde sob o nome virtual Daniel:
Não diviso como é que “mais uma vez o Zé Hopffer falhou em toda a linha” e o movimento, alegadamente fundado por mim , ”não vincou”, se, como é de todos conhecido, a principal iniciativa do Movimento Pró-Cultura, a revista “Fragmentos”, é apontada por vários estudiosos como uma das importantes publicações culturais surgidas em Cabo Verde. Importância que, penso com plena justiça, é atribuída à revista, devido não só à diversidade das suas propostas ensaísticas, ficcionais e poéticas como também pelo seu papel na recolha da oratura e de outras manifestações do nosso património material e imaterial e na divulgação de muitas páginas inéditas ou esquecidas de escritores caboverdeanos falecidos.
Deste modo, puderam o Movimento Pró-Cultura e a sua revista contribuir de forma não negligenciável para o surgimento de uma nova geração de escritores de poesia, de ficção e de ideias e para a divulgação da obra de muitos artistas plásticos bem como da cultura caboverdeana em geral.
Quanto à muito sonante acusação, segundo a qual o Movimento Pró-Cultura teria sido “uma quinta coluna do ministério da cultura quando era dirigido pelo irmão David Almada”:
Mesmo presumindo que o meu belicoso e amnésico detractor esteja plenamente ciente da falsidade da sua afirmação, ocorre-me refrescar-lhe a memória e dizer-lhe sem constrangimento de espécie alguma:
Também aconteceu que eu tenha sido considerado suspeito e inapto como activista cultural sob a acusação de ser “militante da JAAC” (organização na qual militei, consciente e convictasmente, enquanto estudante liceal).
Também aconteceu que, estavam as fracturas no Pró-Cultura no seu auge, fui acusado por um amigo de um adversário nas lides culturais de ser “catchás do irmão”, na altura desempenhando as funções de Ministro da Informação, Cultura e Desportos
É por demais evidente que, à falta de outros argumentos mais sustentáveis, esse tipo de acusações pretendia e pretende investir na suspeição política e jogar com o grande poder que o nepotismo, o clientelismo e o compadrio têm efectivamente exercido nessa sociedade de “sagazes” (no sentido de desonestos e de oportunistas à cata da primeira oportunidade de socialmente sobressaírem). Sociedade de sagazes e da sua contraparte conformada e mendicante, também sagazmente postada na debicação das migalhas que esses “sagazes mores”, habilidosos corruptores que se prezam em ser, têm “magnânima e condescendentemente” distribuído.
Sociedade de “sagazes” e conformados mendicantes que alguns sectores, felizmente muito minoritários da sociedade caboverdeana, das ilhas e diásporas, persistem em que Cabo Verde e os caboverdeanos sejam no plano ético e moral, para, quiçá fazer jus ao muito difundido e citado ditado “o mundo pertence aos espertos”, aos despertos na astúcia e na artimanha, a esses sabidos que se têm governado tão bem e tanto têm degradado a vida em sociedade nos seus alicerces morais, mesmo naqueles que, alguns, quiçá ingenuamente, consideram como os mais intangíveis.

Sustentado nas minhas opções político-ideológicas bem como na experiência e na formação pessoais que perfazem o meu percurso, orgulho-me de me situar entre os criadores e intelectuais caboverdeanos que, independentes ou partidariamente comprometidos, sempre pugnaram pela liberdade de criação e combateram o dirigismo político-administrativo no domínio da cultura.
Para tanto e com os meios que me eram acessíveis e considerava adequados, para mais conhecendo o desvalor da sua repressão e do seu condicionamento, fiz por praticá-la e para que outros também pudessem efectivamente prática-la.
Essa postura decorre, de forma absolutamente natural, do que quis e me propus convictamente fazer, pelo menos desde os meus tempos de estudante universitário.
Mesmo sabendo que, parafraseando uma amiga, “a independência de pensamento e de acção conduz quase sempre a um lugar solitário e fustigado”, especialmente por aqueles que, arrebanhados e arregimentados por “sagazes” dos mais diferentes quadrantes político-ideológicos e sociais, se deixam eticamente conduzir pela mentalidade de sequazes e lacaios.
Risco de solidão, mas também risco de geral incompreensão, tanto maiores em sociedades (como, infelizmente, é a nossa) muito marcadas pela excessiva partidarização e pela omnipresente bipolarização política da vida social, às quais parece que nem a esfera privada das pessoas logra escapar. A esses conhecidos constrangimentos acrescem, entre nós, outros, umbilicalmente conexos com as exíguas, ainda que diaspóricas, dimensões sociológicas de um meio pequeno, por demais tacanho, porque também propenso para a maledicência, a baixa intriga e a mesquinhez (a mesquinhice) de sentimentos e condutas.
Ainda assim, fiz e faço por simplesmente ser:
Um autor autêntico na sua criação literária e convincente na sua produção ensaística.
Um defensor da independência intelectual dos criadores e da gestão dos processos de produção artística pelos próprios artistas.
Definitivamente: independentemente dos laços de parentesco e da amizade que me possam ligar, e, por vezes, efectivamente ligaram e ligam, a titulares de cargos ministeriais e outros cargos políticos, alguns dos quais muito admiro quer pela verticalidade do carácter quer pela dimensão e qualidade da obra feita.
Por isso sou, e sempre:”nem catxás de irmão, nem tão-pouco irmão inimigo”, “nem lacaio de amigo nem tão pouco seu inimigo intímo e furtivo detractor”.
Simplesmente, alguém que se sabe ligado aos seus irmãos e demais familiares por laços de profunda, solidária e fraternal amizade.
Simplesmente, alguém que sente natural orgulho e se regozija pelos feitos positivos dos parentes e amigos e sofre (mesmo que na mais funda solidão) com os seus eventuais fracassos, insucessos, mágoas e infelicidades.
Enfim: um ser humano que vê no culto genuíno e na reciprocidade de afectos um esteio imprescindível para o equilíbrio pessoal e colectivo, quer no seio da família, quer da mais lata vida em comunidade.
O sucesso de outros, meus companheiros e confrades, meus amigos e, até, meus adversários, nas literaturas (assim como em outras áreas de actividade criativa ou profissional) sempre suscitaram em mim genuína satisfação.
Essa satisfação tem sido tanto maior quando penso que, ainda que modestamente e, nalguns casos, em bastidores pouco dados à visibilidade pública, tenho “dado o meu quinhão” e, por formas várias, contribuído para o sucesso de muitos deles, nomeadamente no que respeita ao (re)conhecimento público da respectiva obra, sobretudo quando literária ou versando outras áreas das ciências sociais afins aos meus interresses intelectuais. Como, aliás, até um outro anónimo, careca (de ética, entenda-se) e travestido de “espanhola” (querendo-se talvez “afro-hispânico”) reconheceu amplamente em recente e rancorosa incursão à minha vida privada, fundamentando a sua argumentação nos conhecidos recursos da inveja, da rivalidade destrutiva, do despeito intelectual, da manipulação mentirosa e da propagação de suposições fundadas em indisfarçáveis complexos identários (como o bairrismo de quem gostaria de ser, nmas não é branco, nem sequer afro-europeu), enfim, em infinitas e improváveis falsidades e, obviamente, se refugiando, mofina, na impunidade do anonimato.
Como sabe quem me conhece (ou me tenha escutado ou lido), tem sido ponto fulcral da ancoragem dessa minha pessoalíssima satisfação pelos sucessos editoriais e mediáticos de outros autores caboverdeanos, que os mesmos sucessos se baseiem exclusiva ou primacialmente no mérito da obra que, segundo julgo, se consegue, regra geral, como resultado da imaginação criativa, mas também e sobretudo de extenuante, porque laborioso esforço intelectual. A minha satisfação é tanto maior quando o engenho e a arte do criador se reflectem no que, na minha visão (subjectiva, é claro), constitui mais-valia estética e ética para o ser humano, no sentido do apuramento dos diversificados caminhos para o belo (sempre relativo, embora), do seu humanismo e do seu “natural instinto à liberdade”.
A contrário, sempre me repugnaram aqueles sucessos, de conhecidos ou desconhecidos, amigos ou adversários, cozinhados em jogos de bastidores e de falsas, ainda que vistosas, aparências, em fogos fátuos e mistificações, também “cantalutistas” ou “choralutistas”, fraudulentamente capitalizados para a notoriedade literária, artística, científica ou político-social, sempre, (mas sempre!) com o intuito expresso ou inconfessado de outras, mais altas candidaturas, mais ambiciosas cavalgaduras (cavalgadas, queria eu dizer), também ampla e comprovadamente manipuladas.
Convença-se, pois, de vez os meus furtivos e obscuros inimigos: tudo o que fiz e defendi no âmbito da cultura, fi-lo e defendi-o por profunda e assumida convicção estético-ideológica, cívica e político-cultural.

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Quanto ao resto, mediante o qual se intenta a intrusão na minha vida privada e se pretende atingir-me no meu bom nome, na minha honra e reputação bem como na minha inteligência racional e emocional, intimo o meu anónimo detractor (e os seus comparsas e sósias que, impunemente porque sem rosto, vêm poluindo e conspurcando a internet com a vil e difamatória baixeza dos seus insultos e ataques pessoais) a fazer eles, sim, um exame de consciência e a, corajosamente, abandonar o covil do covarde anonimato e dar a cara como deve ser a prática e a ética de conduta de criaturas verdadeiramente verticais.

Sem excessivos e maiores temores.
Pois que o que unicamente devia a todos mover-nos (e ser incentivado pela imprensa, independentemente do seu suporte de difusão) é a exposição e debate de ideias bem como a discussão sobre factos, socialmenter relevantes e “realmente acontecidos”e a eventual reposição e clarificação das circunstâncias do seu ser e devir, mas nunca a, em regra ilegítima, intrusão na vida privada e nos eventuais podres públicos e privados do outro, nosso próximo, e a sua sequente e ilegítima sujeição ao pelourinho do escrutínio de uma suposta opinião pública.
Suposta porque por demais volúvel, alcoviteira e integrada pelos que, desguarnecidos de argumentos sustentáveis e espreitando do tugúrio de anónima toca, fazem uso de armas ilegítimas.
Armas ilegítimas, porque, para além de anónimas, recorrem ao insulto pessoal, à calúnia e à mentirosa manipulação da vida privada de quem, amiúde, se mostram sorridentes e públicos amigos, mas de quem, nas costas ou fazendo-se incógnitos, se têm demonstrado como impenitentes, furtivos e traiçoeiros inimigos.
Armas ilegítimas porque moralmente condenável o seu uso que, em regra, é também severamente sancionado pela ética e pelas normas vigentes nos Estados de Direito Democrático, como sei que, por seu mero dever de oficio, sabem (ou deviam saber) alguns dos meu anónimos detractores.


Lisboa, Junho de 2007
José Luís Hopffer C. Almada

Nota do autor: corresponde a presente versão da “Carta Aberta”ao texto integral, inicialmente destinado ao jornal “asemanaonline”, mas cuja publicação nesse jornal electrónico tornou-se inoportuna, por ter sido parcial e prematuramente publicado em “liberal-caboverde.com”.
Ao texto destinado ao “asemanaonline” foi aditado um “post-scriptum” para suplementar esclarecimento de eventuais interessados.
josehopffer@yahoo.com.br
josehopffer@hotmail.com
joseluishopffer@gmail.com

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